IX
Reading edition
E emquanto sapateavam, os dois assim descantavam:
«—Meu senhor, me dê licença que eu quero principiar: quero botar uma trova para quem me faz penar.
«—Póde entrar que o matto é limpo, não tem onça, nem queixado, tem somente uma morena por quem ando apaixonado.
«—Obrigado, companheiro, Deus te ajude nos amores; mas quem gosta das morenas soffre penas, sente dôres.[80]
«—Eu bem sei de quem tu gostas, p'ra ella podes cantar; é clara, tem olhos pretos, olhos que te hão de matar.
«—Na barra do teu vestido anda preso um coração, menina, minha menina, da minha veneração.
«—O sipó do matto virgem amarra o jacarandá; assim, morena, em teus olhos ando eu bem preso já.
«—Fui ao matto cortar lenha e encontrei a jurity, ella tinha os seus amores como os eu tenho por ti.
«—Larangeira é pau d'espinho, carangueijo anda na praia, tambem andam meus amores na renda de tua saia.[81]
«—Os teus olhos são de fogo, tua boca é uma roseira, menina, minha menina, quem te fez tão feiticeira?
«—Cachorro ladra na cerca quando vem algum ladrão, assim ladra no meu peito por te ver meu coração.
«—Menina, minha menina, se me não queres matar, dá-me um riso pequenino, que eu sou bom de contentar.
«—No braço tenho talento, tenho prata na goiaca, p'ra quem duvidar, comigo na cintura trago a faca.
«—Você me botou olhado, você mesmo ha-de tirar, e eu só posso ficar bom quando comtigo casar.[82]
«—Ó senhor dono da casa, mande vir alguma cousa; já está co'a guella secca o Manduca Zé de Souza.
«—Sem leitão não ha pagode, sem bebida violeiros; o Casusa está com sêde, mande vir, Sr. Medeiros.»