I
Reading edition
Oh tu quem quer que sejas, meu leitor, attende ao que te digo: a ti o auctor começa por te dar os parabens da somma de pachorra que tu tens, se leste esse arremedo de poesia sem arte, sal, perfumes e harmonia, que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som. Já vejo que és rapaz prudente e bom... desculpa o tratamento... as etiquetas exigem luva branca e roupas pretas; mas isto é muito bom p'ra deputados, que vivem simplesmente de apoiados e gastam excellencia a tres por dois... coitados! são mal pagos... e depois sujeitos a caprichos de ministros.... ás vezes trazem rostos tão sinistros, que chego a ter de véras compaixão...[48] Mas dizem que são filhos da eleição?! a culpa é então da mãi que os deu á luz, que tinha atraz da porta aquella cruz, envolta n'um programma e mil projectos p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!... Sê franco, meu leitor, se estou massando, arrólho a discussão e vou tratando do resto d'esta historia que encetei... Palavra, que não sei onde fiquei... Mas... eu te escrevo em mangas de camisa; não olhes p'ra o meu trage... quem precisa pendura com cuidado o paletot, depois de sacudir-lhe bem o pó, e fica assim á fresca muito bem. Quem poupa, meu amigo, sempre tem! não achas que é verdade, ó maganão? pois folgo com a tua opinião. As cousas andam más, tudo está caro! o cobre, santo Deus! anda tão raro!... ao menos lá por casa é uma desgraça! por mais que se trabalhe ou que se faça, por mais que se amofine uma pessoa, vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa, Fallemos n'outra cousa, as digressões arredam sempre o fio ás discussões. Entremos na materia francamente, vejamos o que é feito desta gente.[49]