SÁ DE MIRANDA
Reading edition
Cantiga.
Naquella alta serra Me quero ir morar, Quem me quizer bem, Quem bem me quizer, Lá me irá buscar.
VOLTAS
N'estes povoados Tudo sam requestas, Deixay-me os cuidados Que em vós deixo as festas. D'aquellas florestas Verey longe o mar, Por-me-hey a cuidar.
Sombras e aguas frias, Quando o sol mais arde; Despois sobre a tarde Por cá bradarias, Vês, que pressa os dias Levam sem cansar, Nunca hamde tornar.{34}
Não julgue ninguem Nunca outrem por si, Mais de um bem que ouvi A vida nam tem. Nam deixa este bem, Onde se elle achar Mais que desejar.
Deixa as vaydades Que da mão á bocca O prazer se troca, Trocão-se as vontades. Essas são saudades, Armadas no ár, Que podem durar?
'Naquella espessura Me hey d'ir esconder, Venha o que vier, Achar-me-ha segura, Se tal bem não dura Ao seu trespassar Tudo hade acabar.
Obras, ediç. de 1677, p. 314.