BALTHASAR DIAS
Reading edition
Romance do Marquez de Mantua e do Imperador Carlos Magno.
(Introducção recolhida pelo Cavalheiro de Oliveira)
Na caça andava perdido De Mantua o velho Marquez, E no peito pressentido O coração traz d'envez; Mas não sabe o succedido! Farto já de caminhar Por tão fragosa montanha, Cansado assim sem companha, Sem ter onde repousar 'Nessa terra tão extranha, Vendo o mato tão cerrado, Assentou de se apear, E o seu cavallo deixar, Porque estava de cansado Que já não podia andar.{63}
Marquez:
Fortunosa caça é esta Que fortuna me ha mostrado, Pois que por ser manifesta Minha pena, e gram cuidado, Me mostrou esta floresta. Nunca vi tão forte brenha Desque me acórdo de mi; Eu creio, que Margasi Fez esta serra d'Ardenha, Estes campos de Methli. Quero tocar a bosina Por vêr se alguem me ouvirá; Mas cuido, que não será, Porque minha gram mofina Commigo começou já. Todavia quero vêr Se mora alguem n'esta serra, Que me diga d'esta terra, Cuja é para saber; Que quem pergunta não erra. Por demais é o tanger Em logar deshabitado, Onde não ha povoado, Nem quem possa responder, Ao que lhe fôr perguntado. Gram mal é o caminhar Por tão fragosa montanha, Cançado assim sem companha, Nem tendo onde repousar N'esta terra tão extranha. Vejo o matto tão cerrado, Que fiz bem de me apear, E meu cavallo deixar, Porque estava tão cançado, Que já não podia andar. Agora vejo-me aqui{64} N'esta tão grande espessura, Que nem eu me vejo a mi, Nem sei de minha ventura. Nem menos será cordura, Repousar n'este logar, Nem sei d'onde possa achar Descanço á minha tristura.
Valdevinos:
Oh Virgem minha senhora, Madre do rei da verdade, Por vossa gram piedade Sêde minha intercessora Em tanta necessidade. Oh summa Regina pia, Radiante luz phebêa, Custodia animæ mea, Pois está na terra fria A alma de pezar cheia. Pois és amparo dos teus, Consola os desconsolados, Rainha dos altos céos, Rogae a meu senhor Deos, Que perdoe meus peccados.
Marquez:
Não sei quem ouço chorar E gemer de quando em quando! Alguem deve aqui estar... Segundo se está queixando, Deve ter grande pesar.
Valdevinos:
Domine momento mei, Lembrae-vos de minha alma, Pois que sois da gloria Rei Nascido da flor da palma, Remedio da nossa Lei.{65}
Marquez:
Segundo d'elle se espera, Aquelle homem anda perdido, Ou por ventura ferido De alguma d'estas féras. Quero vêr este mysterio, Que a fala me dá ousadia: Porque dois em companhia Tem mui grande refrigerio Para qualquer agonia.
Valdevinos:
Oh minha esposa e senhora, Já não tereis em poder Vosso esposo que assim chora, Pois a morte roubadora Vos roubou todo o prazer. Oh vida de meu viver, Resplandecente narcizo, Gram pena levo em saber, Que nunca vos heide ver Até o Dia de Juizo. Oh esperança, por quem Tinha victoria vencida! Oh minha gloria, meu bem; Porque não partis tambem, Pois que sois a minha vida? Se não fôr vossa vontade De haver de mim compaixão, Mandae-me meu coração, Minha fé e liberdade, Que está em vossa prisão. Madre minha muito amada, Que é do filho que paristes De quem ereis consolada? Como se ha tornado nada Quanta gloria possuistes? Já me não vereis reinar,{66} Já me não dareis conselho; Nem eu o posso tomar, Que quebrado é o espelho, Em que vos sabeis olhar. Já nunca me haveis de vêr Fazer justas e torneios, Nem vestir nobres arreios, Nem Cavalleiros vencer, Nem tomar bandos alheios. Já não tomareis prazer Quando me virdes armado, Já vos não virão dizer A fama de meu poder, Nem louvar-me de esforçado. Oh valentes Cavalleiros, Reinaldos de Montalvão, Oh esforçado Roldão, Oh Marquez Dom Oliveiros, Dom Ricardo, Dom Dudão, Dom Gaiferos, Dom Beltrão, Oh Grão Duque de Milão, Que é da vossa companhia Duque Maime de Baviera, Que é de vosso Valdevinos? Oh esforçado Guarinos, Quem comsigo vos tivera! Meu amigo Montesinhos, Já nunca mais vos verei; Dom Alonso de Inglaterra, Já não acompanharei O Conde Dirlos na guerra. Oh esforçado Marquez De Mantua, teu senhorio, Já não me poreis arnez, Nem me vereis outra vez Gozar vosso poderio.{67} Já não quero vosso estado, Já não quero ser pessoa, Nem mandar, nem ter reinado, Já não quero ter corôa Nem quero ser venerado. Oh Carlos Imperador, Senhor de mui alta sorte, Como sentireis grão dôr Sabendo da minha morte, E quem d'ella é causador! Bem sei, se for informado Do caso como passou, Que serei mui bem vingado, Ainda que me matou Vosso filho mui amado. Oh Principe Dom Carloto, Quem, sendo tão desigual, Te moveu a fazer mal Em um logar tão remoto A teu amigo leal? Alto Deos omnipotente, Juiz direito sem par, Sobre essa morte innocente Justiça queiraes mostrar, Pois morro tão cruelmente. Oh madre de Deos benigna, E fonte de piedade, Arca da santa Trindade, De donde o Verbo divino Trouxe sua humanidade. Oh Santa Dómina mea, Oh Virgem gratia plena. Em que a alma se recreia Dá remedio á minha pena, Pois que morro em terra alheia.{68}
Marquez:
Senhor, porque vos queixaes? Quem vos tratou de tal sorte? E quem é o que tal morte Vos deu, como publicaes, Que assás é esta má sorte! Não me negueis a verdade, Contae-me vosso pezar, Que vos prometto ajudar Com toda a força e vontade.
Valdevinos:
Muito me agasta, amigo, Certamente teu tardar, Dize se trazes comtigo, Quem me haja de confessar?
Marquez:
Eu nao sou quem vós cuidaes; Nunca comi vosso pão, Mas vossos gritos e ais Me trouxeram aonde estaes Mui movido á compaixão. Dizei-me vossa agonia, Que, se remedio tiver, Eu vos prometto fazer Com que tenhaes alegria.
Valdevinos:
Meu senhor, muitas mercês Por vossa bôa vontade! Bem creio, que ma fareis Muito mais do que dizeis, Segundo vossa bondade. Mas minha dor é mortal, Meu remedio só é morte, Porque estou parado tal, Que nunca homem mortal Foi tratado de tal sorte. Tenho, senhor, vinte e duas{69} Feridas todas mortaes, As entranhas rotas e nuas, E passo penas tão cruas, Que não poderão ser mais. Ha-me morto á traição O filho do Imperador, Carloto a gram sem razão; Mostrando-me todo o amor, Não o tendo no coração. Muitas vezes requeria Minha esposa com maldade, Mas ella não consentia, Pelo bem que me queria, Por sua grande bondade. Carloto com grão pezar Como mais traidor, que forte, Ordenou de me matar, Cuidando com minha morte Com ella haver de casar. Matou-me com gram falsia, Trazendo cinco comsigo, Sem eu trazer mais commigo, Que um pagem por companhia. A mim chamam Valdevinos, Sou filho de El-Rei de Dacia, E primo de El-Rei de Grecia, E do forte Montesinos Que é herdeiro de Dalmacia; Dona Hermelinda formosa Minha madre natural, Sibylla minha esposa, De graças especial, Mas com primores famosa. Esta nova contareis Á triste de minha madre, Que em Mantua achareis,{70} E ao honrado Marquez Meu tio, irmão de meu padre.
Marquez:
Oh desastrado viver, Oh amargosa ventura, Oh ventura sem prazer, Prazer cheio de tristura, Tristura que não tem ser. Oh desventurada sorte, Oh sorte sem soffrimento, Desamparado tormento, Dôr muito peior que a morte, Morte de desabrimento! Oh meu sobrinho, meu bem, Minha esperança perdida! Oh gloria que me sustem, Porque vos partís de quem Sem vós não terá mais vida? Oh desventurado velho, Captivo sem liberdade! Quem me póde dar conselho, Pois perdido é o espelho De minha gram claridade. Oh minha luz verdadeira, Trevas do meu coração, Penas da minha paixão, Cuidado que me marteira, Tristeza de tal traição! Porque não queres falar A este Marquez coitado, Que tio sohieis chamar? Falae-me, sobrinho amado, Não me façaes rebentar.
Valdevinos:
Meu tormento tão molesto Me faz não vos conhecer,{71} Nem na fala, nem no gesto; Nem entendo vosso dizer, Se não fôr mais manifesto. Estou tão posto no fim, Que não sei se sou alguem, Nem menos conheço a mi; Pois quem não conhece a si Mal conhecerá ninguem.
Marquez:
Como não me conheceis Meu sobrinho Valdevinos? Eu sou o triste Marquez, Irmão de El-Rei Dom Salinos, Que era o pae que vos fez. Eu sou o Marquez sem sorte, Que devêra rebentar Chorando a vossa morte, Por com vida não ficar N'este mundo sem de porte. Oh triste mundo coitado, Ninguem deve em ti fiar Pois és desaventurado, Que o que tens mais exaltado Mór quéda lhe fazes dar.
Valdevinos:
Perdoae-me, senhor tio, A minha descortezia, Que a minha grande agonia Me pôz em tanto desvio, Que já vos não conhecia. Não me queiraes mais chorar, Deveis de considerar Que para isso é o mundo; Que dobraes meu mal profundo, Para bem é mal passar: E bem sabeis que nascemos,{72} Para ir a esta jornada, E que quanto mais vivemos, Maior offensa fazemos A quem nos criou de nada. Assim que necessidade Não tendes de me chorar, Pois que Deos me quiz levar No melhor de minha idade, Para mais me aproveitar. Mas o que haveis de fazer, É por minha alma rogar, Porque o muito chorar Á alma não dá prazer, Mas antes mui grão pesar. Quero-vos encommendar Minha esposa e minha madre, Pois que não tem outro padre, Que as haja de amparar, Senão vós, como é verdade. Mas o que me dá paixão Em esta triste partida, É morrer sem confissão, Mas se parto d'esta vida, Deos receberá a tenção.
(Vem o Ermitão e o Pagem)
Ermitão:
A paz de Deos sempiterno Seja comvosco irmão, Lembrae-vos da sua paixão Que, por nos livrar do inferno, Padeceu quanto a varão.
Valdevinos:
Com cousa mais não folgára De que vêl-o aqui chegado,{73} Padre de Deos enviado, Que se um pouco mais tardara, Não me achára n'esté estado.
Pagem:
Oh que desastrada sorte Meu senhor Dones Ogeiro! Olhae vosso escudo forte Olhae, senhor, vosso herdeiro, Em que extremo o pôz a morte. Oh desditoso caminho, Caça de tanto pezar, Que cuidando de caçar, A morte a vosso sobrinho Viestes, senhor, buscar.
Ermitão:
A gram pressa que trazia, Não me deu, senhor, logar, De conhecer, nem falar A vossa gram senhoria. N'este erro se ha culpa, Peço-lhe d'elle perdão, Ainda que a discrição Sua me dará desculpa.
Marquez:
Rogae a Deos Padre honrado, Que me queira dar paciencia, Que o perdão é escusado, Porque vossa diligencia Vos não deixa ser culpado.
Ermitão:
O filho de Deos enviado Vos mande consolação! E pois que aqui sou chegado Quero ouvir de confissão Este ferido e angustiado. Coisa é mui natural{74} A morte a toda a pessoa, A todo o mundo em geral, Pois que a nenhum perdôa, Não a tenhamos por mais. Porque o peccado de Adão, Foi tão fero e de tal sorte, Que não só por perdição. Mas Deos, que é salvação, Quiz tambem receber morte. E por tanto, filho meu, Não se deve de espantar, Da morte que Deos lhe deu, Pois que em provimento seu, Lh'a deu o para salvar. Lembre-lhe sua paixão: Veja este mundo coitado, E não o engode o malvado, Que não dá por galardão Senão tristeza e cuidado. Em quanto, filho, tem vida, Chame a Madre do Deos, Aquella que foi nascida, Sem peccado concebida, E coroada nos céos. Esta foi santificada, E visitada dos Anjos; E em corpo e alma levada Á gloria, onde exaltada Lá está sobre os archanjos. Assim, que ao Redemptor, E a esta Virgem sem par Se hade, filho, encommendar, Depois que os santos fôr Sua vontade chamar. As mãos levante aos céos, Faça confissão geral,{75} Confessando-se a Deos, E á Virgem celestial, E a todos os santos seus.
Marquez:
Oh bonancia aborrecida, Oh desastrada fortuna! De prazeres gram tribuna! Porque não desamparaes A quem sois tam importuna? Tristeza, desconfiança, Porque não desesperaes A quem não tem confiança? Contae-me, pagem Burlor, O caso como passou, Quem foi aquelle traidor Que matou vosso senhor, Ou porque causa o matou.
Pagem:
Seria mui mal contado Se a sua gram Senhoria Não contasse o que é passado. Eu sei certo que faria, O que não é esperado Contra quem me deu estado, E ha feito tantas mercês, Que nunca meu pae me fez, Que é meu senhor amado, E mais vós, senhor Marquez. Estando pois em Paris, O filho do Imperador, Mandou chamar meu senhor Nos paços da Imperatriz; Falaram muitos a sabor, O que falaram não sei, Senão que logo n'essa hora Sem fazerem mais demora,{76} Com quatro detraz de si Foram da cidade fóra, Armados secretamente, Segundo depois ouvi. Partimos todos d'aí. E Dom Carloto presente, Tambem armado outrosi. E tanto que aqui chegaram, N'este valle de pezar Todos juntos se apearam, E fizeram-me ficar Com os cavallos que deixaram. E logo todos entraram Em este esquivo logar, Onde meu senhor mataram; E depois de o matar, Nos cavallos se tornaram; Como eu os vi tornar, Sentindo muito tal dôr, Temendo de lhe falar, Não usei de perguntar Onde estava meu senhor. Vendo-os assim caminhar, Porque nenhum me falava, Quiz a meu senhor buscar, Porque o coração me dava Sobresaltos de pezar. Não o podia topar, Porque a grande espessura E a noite medrosa, escura Me fazia não o achar: Do que tinha gram tristura. Buscando-o com gram paixão, N'aquelle logar remoto O achei d'esta feição. Disse como á traição{77} O matára Dom Carloto. Perguntei porque rasão? Triste, cheio de agonias, Disse-me com afflicção: «Vae-me buscar confissão, Já se acabaram meus dias.» Como taes novas ouvi, Com grande tribulação E pezar de vêl-o assi, Me parti logo d'aqui A buscar esse Ermitão. Isto é, senhor, o que sei D'este caso desastrado, Quanto me ha perguntado, Outra cousa não direi Mais do que lhe hei contado.
Marquez:
Quando sua magestade Justiça me não fizer Com toda a rigoridade, Á força de meu poder Cumprirei minha vontade.
Ermitão:
Já, senhor, se ha confessado, E fez actos de christão; Morre com tal contricção, Que eu estou maravilhado De sua gram discrição. Muito não pode tardar, Segundo n'elle senti: Acabei de lhe falar, Porque lhe quero resar Os psalmos de el-rei David.
Valdevinos:
Não tomeis, tio, pezar, Que me parto de vos ver{78} Para nunca mais tornar; Pois Deos me manda chamar E não posso mais fazer. Torno-vos a encommendar Minha esposa e minha mãe, Que as queiraes consolar, E ambas as amparar, Pois que não tem outro pae.
Oração de Valdevinos:
Em as tuas mãos, Senhor, Encommendo meu espirito; Pois que és Salvador meu, Meu Deos, e meu Redemptor, Não me falte favor teu; Pois, Senhor, me redemiste, Como Deos, que és de verdade, Senhor de toda a piedade, Lembra-te d'esta alma triste Cheia de toda a maldade. Salve, Senhora benigna, Madre de misericordia, Paz de nossa gram discordia, Dos peccadores mesinha; Vida doce e concordia, Spes nostra, a ti invocamos, Salva-nos da escura treva. A ti, Senhora, chamamos Desterrados filhos de Eva; A ti, Virgem, suspiramos A ti gemendo e chorando Em aqueste lagrimoso Valle sem nenhum repouso, Sempre Virgem, a ti chamamos, Que és nosso prazer e gôso.{79} Ora pois, nossa advogada, Amparo da christandade, Volve os olhos de piedade A mim, Virgem consagrada, Pois que és nossa liberdade. Dá-me, Senhora, virtude Contra todos meus imigos, Pois que és a nossa saúde, Eu te rogo, que me ajudes Nos temores e perigos; Roga tu por mim, Senhora, Oh santa madre de Deos, A quem minha alma adora, Pois és rainha dos céos, E dos anjos superiora.
(Aqui expira Valdevinos)
Marquez:
Oh triste velho coitado! Oh cãs cheias de tristura! Oh doloroso cuidado! Oh cuidado sem ventura, Sem ventura desterrado! Quebrem-se minhas entranhas Rompa-se meu coração Com minha tribulação. Chorem todas as campanhas Minha grande perdição; Escura-se o sol com dó, Caiam estrellas do céo, As trevas de Faraó Venham já sobre mim só, Pois minha luz se perdeu Na luz de mui claro dia; Claridade, sem clareza, Minha doce companhia,{80} Onde está vossa alegria, Que me deixa tal tristeza? Oh velhice desastrada, Sem gloria e sem prazer, Para que me deixaes ser, Pois que sendo, não sou nada, Nem desejo de viver? Porque não vens, padecer, Porque não vindes, tormentos? Para que são soffrimentos, A quem os não quer já ter, Nem busca contentamentos? Para que quero rasão Para que quero prudencia, Nem saber, nem discrição? Para que é paciencia, Pois perdi consolação?
Pagem:
Oh meu senhor muito amado, Porque vos tornastes pó! Porque me deixastes só Em este mundo coitado Com tanta tristeza e dó? Leváreis-me em companhia, Pois sempre vos tive, vivo. Oh minha grande alegria, Porque me deixaes captivo, Mettido em tanta agonia? Meu senhor, minha alegria Dizei, porque nos deixaes Com tanta pena notoria! Lembrae-vos, tende memoria, De quantos desamparaes. Oh sem ventura Burlor! De quem serás amparado, De quem terás o favor{81} Que tinhas do teu senhor, Pois que já te ha faltado?
Ermitão:
Não tomeis, filho, pezar Pois claramente sabeis, Que pelo muito chorar Não cobraes o que perdeis. Deveis, filho, de cuidar, Que nossa vida é um vento Tão ligeiro de passar, Que passa em um momento Por nós, assim como o ár. Quem viu o senhor Infante, Tão pouco ha, fazer guerra, E ser n'ella tão possante, E agora em um instante, Ser tornado escura terra, Diria com gram rasão Que este mundo coitado Não dá outro galardão, Senão tristeza e paixão, Como a vós outros foi dado. Olhae, el-rei Salomão O galardão que lhe deu: A Amão, e Absalão, E ao valente Sansão, E ao forte Macabeu. Em a Sacra Escriptura Muitos mais podia achar, Se os quizesse contar; Mas vossa grande cordura Suprirá donde faltar, E pois que não tem já cura O mal feito e o passado, Cesse a vossa tristura, E demos á sepultura{82} Este corpo já finado. Levemol-o onde convém Para que seja enterrado; E pode bem ser guardado N'aquella ermida que vêem, Até ser embalsamado.
(Aqui levam a Valdevinos á Ermida, e entra o Imperador e conde Ganalão)
Imperador:
Certo, Conde Ganalão, Muito gram perda perdemos, Pêza-me no coração, Porque na côrte não temos Reinaldos de Montalvão, Nem o Conde Dom Roldão, Nem o Marquez Oliveiros, Nem o Duque de Milão, Mem o Infante Gaifeiros, Nem o forte Meredião.
Ganalão:
Muito alto Imperador, Muito estou maravilhado Porque mostraes tal favor A quem vos ha deshonrado Com tanta ira e rigor, Que, chamando-se Almansor, Com o seu rosto mudado Aquelle falso traidor Com mui grande deshonor, Quiz deshonrar vosso estado: Porque, senhor, não sentís, Que este malvado ladrão Vos prendeu de sua mão Tomando-vos a París Com muito grande traição? Pondo-vos em Montalvão{83} Apesar de vosso imperio, Onde com gram vituperio Estivestes em prisão, Sem ter nenhum refregerio?
Imperador:
Verdade é isso, cunhado, Porém deveis de saber Que em Reinaldos me prender Eu mesmo sou o culpado: Isto bem o podeis crêr. Se então me quiz offender Não é muita maravilha, Pois já me quiz guarnecer Matando el-rei Carmeser, Que me trouxe a sua filha.
Ganalão:
Vossa real magestade Dirá tudo o que quizer, Mas eu espero a Beltrão... Que se conheça a maldade, De quem se hade conhecer.
(Aqui se vae Ganalão: e vem dois Embaixadores mandados pelo Marquez de Mantua, chamados Dom Beltrão e Duque Amão: e virão vestidos de dó)
Beltrão:
Gram Cezar Octaviano, Magno, augusto, forte rei, Grande imperador romano Amparo da nossa lei, Poderosa magestade, Senhor de toda a Magança, Da Gascunha e da França, Gram patrão da christande, Esteio da segurança! Pois sois senhor dos senhores, Imperador dos christãos;{84} Somos vossos servidores, Amigos leaes e sãos.
Imperador:
Eu me espanto, Dom Beltrão, De vos vêr d'aquella sorte, E a vós forte Duque Amão, Não é esta disposição E trajo da nossa Côrte.
Duque:
Muito mais será espantado De nossa triste embaixada, E do caso desastrado, O qual lhe será contado, Se seguro nos é dado.
Imperador:
Bem o podeis explicar Sem ter medo, nem temor. Para que he assegurar? Pois sabeis que o embaixador Tem licença de falar.
Duque:
Quiz senhor, nossa mofina Que o infante Valdevinos, Primo do forte Guarinos, Filho da linda Hermelinda E do grande rei Salinos, Fosse morto á traição Na floresta sem ventura. A tão grande desventura Haverá quem não procure De vingar tal perdição?
Imperador:
É certa tam gram maldade, Que o sobrinho do Marquez É morto, como dizeis?{85}
Duque:
Pela maior falsidade, Que nunca ninguem tal fez.
Imperador:
Este caso é desastrado: Saibamos como passou, E quem tão mau feito obrou; Que, o que tal senhor matou, Merece bem castigado.
Duque:
Saiba vossa magestade Que dez dias pôde haver Que o Marquez foi á cidade De Mantua com gram vontade Á caça, que sóe fazer. Andando assim a caçar, Da companhia perdido Foi por ventura topar Com seu sobrinho ferido, Quasi a ponto de expirar. Bem póde considerar O gram pezar que teria De se vêr sem companhia, E morrer em tal logar A coisa que mais queria. Perguntando a rasão, Sendo d'ella mui ignoto, Disse com grande paixão, Que o matára a traição Vosso filho Dom Carloto. A causa que o moveu Dar morte tão dolorosa A tão grande amigo seu, Não foi outra, senhor meu, Salvo tomar-lhe a esposa. Matou-o á falsa fé, Indo muito bem armado.{86} Com quatro homens de pé. Quem mata tão sem porque Merece bem castigado. O marquez Danes Ogeiro Lhe manda pedir, senhor, Justiça mui por inteiro: Que ainda que perca herdeiro, Elle perde successor.
Dom Beltrão:
Não deve deixar passar Tão gram mal sem o prover, Porque deve de cuidar, Se seu filho nos matar, Quem nos deve defender? E mais lhe faço saber, Porque esteja aparelhado, Se justiça não fizer, Que o Marquez tem jurado De por armas a fazer. O mui valente e temido Reinaldos de Montalvão Entre todos escolhido, Está bem apercebido Como geral capitão. Dom Chrisão e Aguilante Com o forte Dom Guarinos, E o valente Montesinos Primo do morto Infante, Primo de el-rei Dom Salinos, E o mui grande Rei Jaião, De Dom Reinaldos cunhado, E o esforçado Dudão, E o gram Duque de Milão, E Dom Richarte esforçado, O Marquez Dom Oliveiros, E o famoso Durandarte,{87} E o infante Dom Gaifeiros, E o mui forte Ricardo, E outros fortes cavalleiros, Todos tem boa vontade De ajudar ao Marquez Em essa necessidade; Porque foi gram crueldade A que vosso filho fez. Evitae, senhor, tal damno? Pois que sois juiz sem par, Não vos mostreis inhumano, Acordae-vos de Trajano, Em a justiça guardar. Assim que, alto, esclarecido, Poderoso sem egual, O que fez tão grande mal, Bem merece ser punido Por seu mandado imperial. E pois, senhor, é proposta A causa, porque viemos, E sabeis o que queremos, Mandae-nos dar a resposta, Com que ao Marquez tornemos.
Imperador:
Oh poderoso senhor, Que grande é o vosso mysterio: Pois para meu vituperio Me deste tal successor, Que deshonrasse este Imperio? Se o que dizeis é verdade, Como creio que será, Nunca rei na christandade, Fez tão grande crueldade, Como por mim se verá. Por minha corôa juro De cumprir e de mandar{88} Tudo que digo e procuro. Ao Marquez podeis dizer, Que elle póde vir seguro, E todos quantos tiver, Venham de guerra ou de paz, Assim como elle quizer. E pois que justiça quer, Com ella muito me praz.
(Entra Dom Carloto)
D. Carloto:
Bem sei, que com gram paixão Está vossa magestade Pela falsa informação Que de mim, contra rasão, Deram com gram falsidade. Porque um filho de tal home, E tão grande geração, Não deve sujar seu nome Em caso tal de traição. Por vida de minha madre, Que se tão grande deshonror Não castigar com rigor Que me será cruel padre, Não direito julgador.
Imperador:
Não vos queiraes desculpar; Pois que tendes tanta culpa, Que se o mundo vos desculpa, Eu não heide desculpar. E por tanto mando logo, Que estejaes posto a recado, Até ser determinado Por conselho de meu povo Se sois livre ou condemnado. Mando que sejaes levado{89} Á minha gram fortaleza, E que lá sejaes guardado De cem homens do estado Até saber a certeza.
D. Carloto:
E como, senhor, não quer Vossa real magestade Saber primeiro a verdade, Senão mandar-me prender Por tão grande falsidade?
Imperador:
Não vos quero mais ouvir, Levem-no logo á prisão, Onde eu o mando ir; Porque tam grande traição Não é para consentir. Vós outros podeis tornar, E contar-lhe o passado A quem vos cá quiz mandar; Que o seguro que lhe hei dado Eu o torno a affirmar.
(Aqui vem a Imperatriz)
Imperatriz:
Eu muito me maravilho De vossa grande bondade; Que sem rasão, nem verdade Trataes assim vosso filho Com tão grande crueldade. Olhe vossa magestade Que é herdeiro principal, E que toda a christandade Lh'o hade ter muito a mal.
Imperador:
A mim, senhora, convém Ser contra toda a traição,{90} E se vosso filho a tem, Castigal-o-hei muito bem; E essa é a minha tenção. E mais eu vos certifico, Que com direito e rigor Heide castigar o iniquo, Ora seja pobre, ou rico, Ora servo, ou gram senhor.
Imperatriz:
Como quer vossa grandeza Infamar o nosso estado Sem causa, com tal crueza?
Imperador:
Quem me cá mandou recado Não foi senão com certeza.
Imperatriz:
Por tal recado, senhor, Quereis tratar de tal sorte Vosso filho e successor, Que depois de vossa morte Hade ser imperador?
Imperador:
Em eu o mandar prender Não cuideis que o maltrato; Mas se elle o merecer, Eu espero de fazer A justiça de Torquato; Porque pae tão poderoso, Sendo de tantos caudilho Se não fôr tão rigoroso, Nem elle será bom filho, Nem será rei justiçoso. Que agora, mal peccado! Nenhum rei, nem julgador Faz justiça do maior; Mas antes é desprezado{91} O pequeno com rigor. Todo o mundo é affeição; Julgam com rara remissa O nobre que, sem rasão Alguma, tem opinião De lhe tocar a justiça... Que conta posso eu dar Ao Senhor dos altos céos, Se a meu filho não julgar Como outro qualquer dos meus? Assim que escusado é Buscar este intercessor; Porque Deos de Nazareth Não me fez tão gram senhor Para minha alma perder.
Imperatriz:
Ai triste de mim coitada! Para que quero viver, Pois que sempre heide ser Do meu filho tão penada, Como uma triste mulher? Pois tão triste heide ser Por meu filho muito amado, Nunca tomarei prazer, Senão tristeza e cuidado.
Imperador:
Não façaes tantos extremos, Pois dizeis que tem desculpa, Que antes que sentença démos, Primeiro todos veremos Se tem culpa ou não tem culpa. Mostrae maior soffrimento, Que o caso é desastrado, E i-vos a vosso aposento, Que elle não será culpado.{92}
(Aqui se vae a Imperatriz, e vem a mãe, e esposa de Valdevinos)
Mãe:
Oh coração lastimado, Mais triste que a noite escura! Oh dolorosa tristura, Cuidado desesperado, E fortunosa ventura! Oh vida da minha vida, Alma d'este corpo meu! Oh desditosa perdida, Oh sem ventura nascida, A mais que nunca nasceu! Oh filho meu muito amado, Minha doce companhia, Meu prazer, minha alegria, Minha tristeza e cuidado, Minha sab'rosa lembrança, Que serei eu sem vos vêr? Filho de minha alegria, Oh meu descanço e prazer, Porque me deixaes viver, Vida com tanta agonia? Adonde vos acharei, Consôlo de meu pezar? Onde vos irei buscar, Pois que perdido vos hei Para jámais vos cobrar! Filho d'esta alma mesquinha, Dos meus olhos claridade, Onde estás, minha mesinha? Filho de minha saudade, Meu prazer e vida minha?
Esposa:
Que é de vós meu coração, Que é da minha liberdade, Espelho da christandade,{93} Quem vos matou sem razão Com tão grande crueldade? Quem vos apartou de mim, Meu querido e meu esposo? Oh meu prazer saudoso, Porque me deixaes assim Com cuidado mui penoso? Oh minha triste saudade, Oh meu esposo e senhor, Minha alegria e vontade, Escudo da christandade, Dos tristes consolador! Que farei pobre coitada, Mais que nenhuma nascida? Miseravel, angustiada, Para que quero ter vida, Pois minha alma é apartada? Oh fortuna variavel, Triste, cruel, matadora, De prazeres roubadora, Inimiga perduravel, Mata-me se queres agora.
Hermelinda:
Se vossa gram magestade Não dér castigo direito A quem tanto mal ha feito, Nem sustentar a verdade, Não será juiz perfeito. Não olhe vossa grandeza Sua madre dolorosa, Nem sua tanta tristeza; Mas olhe tão gram princeza Como esta sua esposa.
Imperador:
Faz-me tanto entristecer Este tão gram vituperio,{94} Que mais quizera perder Juntamente meu Imperio, Que tal meu filho fazer. Mas se tal verdade é Como já sou informado, Que tal castigo lhe dê, Que seja bem castigado.
Sybila:
Seja justiça guardada A esta orpha sem marido, Viuva desamparada, Tão triste e desconsolada Mais que quantas têm nascido. Olhae, senhor, tão gram mal, Como vosso filho ha feito, E não queiraes ter respeito Ao amor paternal, Pois que não é por direito.
Imperador:
Senhora, não duvideis Que eu farei o que hei jurado, Se é verdade o que dizeis, Porque cumpre meu estado De fazer o que quereis: Que mais quero ter commigo Fama de rigoridade, Que deixar de ter castigo Quem commetteu tal maldade. Para que é ser caudilho De tanto povo e tão grado, E Imperador chamado, Se não julgasse meu filho Como qualquer estragado? Não cuidem duques, nem reis, Que por meu herdeiro ser, Que por isso hade viver;{95} Que aquelle, que fez as Leis, É obrigado a as manter. Assim que, por bem querer, Amizade nem respeito Como agora sóem fazer, Não hei de negar direito, A quem direito tiver. E bem vos podeis tornar, Fazei certo o que dissestes, E não tomeis tal pesar, Porque o bem que perdestes, Não o cobraes com chorar.
Hermelinda:
Senhor, nós outras nos pomos Em mãos de vossa grandeza: Olhae bem, senhor, quem somos, E de que linhagem fomos, Pois Deos nos deu tal nobreza.
Sybila:
Olhae os serviços dinos, Que tanto tempo vos fez Meu esposo Valdevinos; Tambem seu tio Marquez, E como foram continos.
(Aqui se vae Hermelinda e Sybila, e virá Reinaldos com uma carta, que tomaram a um Pagem de Dom Carloto)
Reinaldos:
O summo rei dos senhores, Que morreu crucificado Em poder dos pharizeus, Accrescente vosso estado, E vos livre dos traidores.
Imperador:
Mui valente e esforçado, Reinaldos de Montalvão,{96} Vós sejaes tambem chegado, Como a sombra no verão. Muito estou maravilhado, Invencivel e mui forte, De ver-vos assim armado, Sabendo que em minha côrte, Nunca fostes mal tratado.
Reinaldos:
Senhor, não seja espantado De vêr-me assim d'esta sorte, Porque com todo o cuidado, Ganalão vosso cunhado Sempre me procura a morte. Bem sabeis que sem rasão Com vontade mui malina, Fez matar com gram traição, A Tiranes, e Erocina, E ao feito Salião, E a mim já quiz matar Muitas vezes com maldade; E para mais me danar, Fez á sua magestade, Mil vezes me desterrar. O grande mal que me quer De todo o mundo é sabido, E por isso quiz trazer Armas para offender, Antes que ser offendido. Mas deixando isto assim Guardado p'ra seu logar Onde se hade vingar, Vos quero, senhor, contar: Notorio a todo o christão É o pesar lastimeiro Do Marquez Danes Ogeiro, Que tem com justa rasão{97} Pela morte do herdeiro. N'esta nobre côrte estão Muitos mui nobres senhores, Que sabem que Dom Beltrão E o nobre Duque Amão Foram seus embaixadores: Tambem este é sabedor Das respostas que lhe déstes, E mais de como prendestes Vosso filho successor. Do qual está mui contente De tel-o posto em prisão, E tem mui grande rasão, Porque na carta presente Á qual fez da sua mão, Confessa toda a traição, E um pagem a levava Para o Conde Dom Roldão, Que na cidade de Boava Faz a sua habitação. E como não ha falsia, Que se possa esconder, Tinha o Marquez espia, Porque queria saber O que Dom Roldão faria. Esse pagem embuçado, Sem suspeita, sem revez Ia mui determinado, Onde logo foi tomado, E levado ao Marquez. Lendo a carta Dom Guarinos, N'ella contava a tenção, Porque o matára á traição. Isto é, senhor, a verdade, O que vos manda dizer: Se o que digo é falsidade,{98} (Que por isso a quiz trazer,) A letra é bom conhecer, Que é este o seu sinal. Pois, quem fez tão grande mal, Bem merece padecer Morte justa corporal.
Imperador:
Se tal a carta disser, Não se ha mister mais provar, Nem mais certeza fazer, Senão logo executar A pena que merecer. E por tanto sem deter, Lea-se publicamente Ante esta nobre gente; Porque todos possam ver Vossa verdade evidente.
Carta de Dom Carloto a Dom Roldão.
«Caudilho de gram poder, Capitão da christandade, Esta vos quiz escrever, Para vos fazer saber Minha gram necessidade. Porque o verdadeiro amigo, Hade ser no coração, Assim como fiel irmão E não hade temer p'rigo, Por salvar quem tem rasão. Porque sabereis, senhor, Que me sinto mui culpado, Como quem foi matador; E temo ser condemnado De meu padre Imperador. Eu confesso que pequei,{99} Pois com vontade damnosa A Valdevinos matei. Amor me fez com que errei, E o primor de sua esposa. O Imperador, meu padre Me mandou prezo guardar, E nunca quiz attentar Os rogos da minha madre. A ninguem quer escutar, E o Marquez tem jurado De não vestir, nem calçar, Nem entrar em povoado, Até me vêr justiçar. Tendo por accusadores, Reinaldos de Montalvão, E seu padre o Duque Amão, E muitos grandes senhores: O Gram Duque de Milão Com o forte Montesinos, Que é primo de Valdevinos. Assim que todos me são Accusadores continos. Pois tantos contra mim são, Eu vos rogo como amigo, Que vós queiraes ser commigo; Porque tendo Dom Roldão, Não temo nenhum perigo.»
Imperador:
Antes que algum mal cresça, Façamos o que devemos: Pois o sinal conhecemos, E pois vemos que confessa, De mais prova não curemos, Nem vós façaes mais detença: E pois já tendes licença,{100} Podeis dizer ao Marquez Que venha ouvir a sentença.
(Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a Imperatriz vestida de dó)
Imperador:
Senhora, já não dirão Que fui eu mal informado, Nem que o prendo sem rasão, Pois por sua confissão, Vosso filho é condemnado. Vêdes a carta presente, Que foi feita da sua mão, Para o Conde Dom Roldão; A qual muito largamente, Declara toda a traição.
Imperatriz:
Eu muito me maravilho Do que, senhor, me ha contado; Pois que elle ha confessado, Melhor é morrer o filho Que deshonrar o estado. Mas a dôr do coração Sempre me hade ficar... Peço-lhe com affeição, Que lhe busque salvação, E que o queira escutar.
Imperador:
Melhor é que o successor Padeça morte sentida, Que ficar o pae traidor, Que será trocar honor Pela deshonra nascida. Tambem eu padeço dôr, Tambem eu sinto paixão, Tambem eu lhe tenho amor,{101} Mas antes quero rasão, Que amisade sem favor.
Imperatriz:
Pois que não póde escapar, Eu não consinto, nem quero, Que vós o hajaes de julgar, Porque vos podem chamar Muito mais peior que Nero.
Imperador:
Não vivaes em tal engano, Que tambem foram caudilhos O gram Torcato, o Trajano, E quizeram com gram dano Ambos justiçar seus filhos. Pois que menos farei eu Tendo tão grande estado? Quem é com rasão culpado Em maior caso que o seu? E por tanto eu vos rogo Que não tomeis tal pesar, Porque com vos enojar Dá-se gram tristeza ao povo.
Imperatriz:
Eu cumprirei seu mandado, Porque vejo que é rasão; Mas sempre meu coração Terá tristeza e cuidado E grande tribulação.
(Aqui se vae a Imperatriz, e vem o Marquez de Mantua vestido de dó)
Marquez:
Bem parece, alto senhor, Que vos fez Deos sem segundo, E de todos superior, Dos maiores o melhor, Rei e monarcha do mundo.{102} Porque vós, senhor, sois tal, Que com rasão e verdade Sustentaes a christandade Em justiça universal, A qual para salvação Vos é muito necessaria, Porque convem ao christão Que use mais de rasão, Que da affeição voluntaria: Como faz vossa grandeza Com seu filho successor Assim que digo, senhor, Que estima mais a nobreza Que amisade, nem favor.
Imperador:
Não curemos de falar Em cousa tão conhecida; Porque n'esta breve vida Havemos de procurar Pela eterna e comprida. Para sentir gram pesar, Vós tendes rasão infinda, E tambem de vos vingar, Pois foi justa vossa vinda. Bem vimos vossa embaixada, E a causa d'ella proposta Foi de nós mui bem olhada, E não menos foi mandada Mui convencivel reposta: E vimos vossa tenção, E soubemos vosso voto, E vemos tendes rasão, Pela grande informação Do principe Dom Carloto. E vimos a confissão De Dom Carloto tambem,{103} E soubemos a traição Como na carta contém, Que mandava a Dom Roldão. De tudo certificado, Eu condemno a Dom Carloto Tudo o que hei mandado.
(Vem um Pagem da Imperatriz)
Pagem:
A Imperatriz, senhor, Está tão amortecida De grande paixão e dôr, Que não tem pulso nem côr, Nem nenhum sinal de vida. Nenhum remedio lhe vemos; Está n'esse padecer, Sem lhe podermos valer: E segundo n'ella cremos Mui pouco hade viver.
Imperador:
Eu muito me maravilho De sua gram discrição; Mais sinto sua paixão, Que a morte de meu filho... Não te quero mais dizer, Quero-a ir consolar, Pois tanto lhe faz mister. Não sei porque é enojar, Por se justiça fazer.
(Aqui se vae o Imperador, e virá Reinaldos com o Algoz, o qual traz a cabeça de Dom Carloto)
Reinaldos:
Já agora, senhor Marquez, Vos podeis chamar vingado, Porque assás é castigado{104} O que tanto mal vos fez, Pois que morreu degolado. Fazei por vos alegrar, Dae graças ao redemptor, Pois assim vos quiz vingar, Sem nenhum de nós p'rigar, E com mais vosso valor.
Folha volante de 1665.
Historia da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodonio de Roma.
No tempo do Imperador, Que Lodonio se dizia, Que a grã cidade de Roma, E seu Imperio regia, Casado com a Imperatriz Que Porcina nome havia, Por suas muitas virtudes, Formosura, e valia Como princeza que era Filha do grão rei da Hungria: Tinha este Imperador Comsigo em companhia Um irmão por nome Albano Que elle muito queria, Em rasão do parentesco, O melhor que ser podia. Este nobre Imperador Bem dois annos estaria Com sua amada mulher, Sem haver filho, nem filha, Certamente mui contente Pois Deos assim o queria,{105} E d'isso era servido, Por muitos bens que fazia: As viuvas amparava, E os pobres soccorria. As orfãs todas casava, Quantas na cidade havia. As obras de misericordia Com grã vontade cumpria, Por amor de Jesus Christo, E da sagrada Maria. Tinha este Imperador Promettido em romaria, Visitar a terra santa, Que Jerusalem se dizia; E ver os santos logares, Todos os que n'ella havia, Nos quaes havia de estar Um anno que assim cumpria. Antes de sua partida Quiz fazer o que devia, Deixou por govornadores A sua nobre Porcina, E tambem a seu irmão, Que o povo assim o pedia. Como isto foi acceitado, O povo ajuntar fazia: Manifestou-lhe a partida, Que escusar-se não podia, Dizendo—que obedecessem, Sem curar de mais porfia, A sua amada mulher, Que em seu logar ficaria, E tambem a seu irmão, Pois tinha tanta valia. Todo o povo está contente Do que o Imperador queria,{106} E acabando de comer, A horas do meio dia, Entrou em o aposento Onde a Imperatriz dormia, Viu-a estar muito chorosa, Apartada de alegria. Como quem adivinhava O mal, que ella não sabia, Com o rosto dissimulado, Encobrindo o que sentia, Disse-lhe d'esta maneira, Com pena que padecia:
—Minha amada companheira, Minha doce companhia, Lume de meus claros olhos, Espelho em que eu me via; Porque estaes assim chorosa Com tão sobeja agonia? Porque de ver-vos assim, A alma se me saía? Mas se vós quereis, senhora, Deixarei a romaria, Mandarei outrem por mim, Pois não se escusa esta via.
Respondendo a Imperatriz D'esta maneira dizia:
«Não olheis vós, meu senhor, A fraqueza, que em mim havia, Porque eu como mulher Nunca deixar-vos queria; Nem estar de vós apartada Só um momento de um dia. Mas o que vós promettestes{107} Outrem cumprir não podia, Que seria grão peccado, Que Deos muito extranharia. Por tanto, Nosso Senhor Seja sempre em vossa guia, Que eu vos encommendarei A elle e a santa Maria.
Despediu-se o Imperador Sem cuidar de mais porfia, Abraçando a Imperatriz Que mil lagrimas vertia, Pois no coração lhe deu Que mui tarde o veria. E depois d'elle partido Para a sua romaria, Esta tão nobre senhora Quiz fazer o que devia No governo do Imperio, Com Albano em companhia, Que seu marido Lodonio Nenhuma mingua fazia. Como este Albano era Cheio de toda a falsia, Amava a Imperatriz Já de muito tempo havia; Morria por seus amores Que todo se desfazia, Pela sua honestidade D'ella não a requeria; Que como agora tivesse Tempo para o que queria, Determina entrar com ella, Pois que fazel-o podia, Que, como governador, Ella não extranharia.{108} Em estas coisas pensando Está até o outro dia. Ás horas que a Imperatriz De sua cama se erguia, Estava quasi despida, Porque a ninguem temia: Como viu entrar o cunhado Toda se estremecia. Porque sua honestidade Tal cousa não requeria: Como dentro entrou com ella Mui contente em demazia, Foi-lhe a beijar as mãos, O que d'antes não fazia. A Imperatriz tão casta, Assombrada em demazia, Cobriu-se com um roupão De ouro e de pedraria; Com rosto mui vergonhoso Encobrindo o que sentia, Levantou-se logo em pé Descalça na pedra fria, Assombrada e mui turbada Espera o que lhe dizia. Disse-lhe o traidor cunhado, Sem olhar o que devia:
—«Perdoae-me, alta Princeza, Minha grande ousadia, Que d'onde ha força de amor Não póde haver cortezia. Muitos dias ha, senhora, Claro espelho e luz do dia, Que desejo descobrir-vos O que encobrir não podia; Que por vosso grande amor{109} Triste estou sem alegria, Se vós me não daes remedio, Sem nenhum eu ficaria. Por tanto se vós quereis, Grão prazer receberia De vos casardes commigo, Sem cuidar de mais porfia, Levantemo-nos c'o Imperio, Pois que fazer-se podia, Sendo nós Governadores Ninguem nol-o tolheria. Se vós, senhora, temeis Pelo que o povo diria, Eu irei matar meu irmão Estando na romaria. Far-lhe-hei dar tal peçonha, Que morra antes de um dia.
Foi-lhe a Imperatriz á mão Do mais que dizer queria, E abrazada toda em mágoa D'esta sorte respondia:
«Por certo, falso cunhado, Vós tendes grande ousadia, Vosso grande atrevimento Grão castigo merecia: Em que viva me queimassem, Nunca tal consentiria, Porque a fé e lealdade Que a meu marido devia, Em que me dessem mil mortes Eu nunca a quebrantaria! Tirae-vos diante de mim, Traidor cheio de falsia.»{110}
Vendo-a elle tão irada, A grande pressa saía Da camara, onde estava Que assim se despedia. Temendo que aos seus brados Muita gente acudiria; Determinou entrar de noite Na camara onde dormia, E que com tapar-lhe a bocca, Seu desejo cumpriria. Descobrindo isto a um pagem Que fiel lhe parecia, Porque o acompanhasse Na traição que commettia, Pareceu-lhe a este pagem, Que mui culpado seria, Se ali se deshonrasse Pessoa de tal valia; Determinou de dizer-lhe, Antes que chegasse o dia, Porque não viesse a effeito O que elle fazer queria. Como a Imperatriz o soube, Com grã pressa em demazia, O mandou logo prender Na casa d'onde dormia; Mandou-o pôr era uma torre, Que dentro do paço havia.
Depois que o Imperador Acabou sua romaria, Cumprindo sua promessa Como a tal senhor cumpria, Determinou de tornar-se Com muita grande alegria; Porque esperava de vêr{111} A quem tanto lhe queria. Mandou diante um correio Em que a saber lhe fazia, Como seria com ella Antes do oitavo dia; Com a qual a Imperatriz Foi alegre em demazia: Fel-o a saber á cidade, Porque assim fazer devia, Para fazer grandes festas A quem tanto merecia. Foi-se direita á prizão Onde o cunhado jazia, Disse-lhe:
«Senhor cunhado Não tenhaes tal fantazia, Porque já vem vosso irmão, Tomemos grande alegria; Eu vos perdôo o passado, Pois que ninguem o sabia; Recebei o Imperador Com toda a cavallaria, E levareis um vestido De ouro e argenteria, Que está feito para vós, Que é de muita valia.
Tirou-o da prizão fóra, Foi com elle em companhia, Porque ninguem conhecesse O mal que feito havia. Cuidava o falso cunhado Em como se vingaria De quem lhe fez tal pezar, Pois já tel-a não podia.{112} Foi-se receber o irmão Pela pósta ao outro dia, Vestido todo de dó Que o cavallo lhe cobria; Chegando onde elle estava, Vestido assim como ia, Fez-lhe grande acatamento, Fingindo mais que sohia; Quando viu o Imperador Certo não o conhecia, Mas depois de o conhecer, Mui turbado lhe dizia:
—Dizei-me por Deos, irmão, Por que assim o dó trazia, Como está a Imperatriz, Minha fiel companhia? Dizei-me se é viva ou morta? Tirae-me d'esta agonia, Que meu triste coração Grão sobresalto sentia.
Respondeu o falso irmão Com mui grande ousadia:
—«Eu vos direi a verdade Pela fé que vos devia, E por que sois meu irmão, A quem mentir não podia. Depois que d'aqui partistes Para ir á romaria, Deixastes a Imperatriz, E eu com ella em companhia, Para governar o Imperio De Roma e sua senhoria. Prouvera a Deos fôra eu{113} Sepultado em terra fria, Antes de ficar com ella, Pois tal traição commettia. Estando, senhor, dormindo Fóra de tão grã falsia, Entrou de noite commigo Na camara onde dormia, E chegando á minha cama D'esta sorte me dizia: «Que por mim perdida andava Já de muito tempo havia, Que casasse eu com ella, Sem cuidar de mais porfia: E que logo Imperador N'essas horas me faria, E quando vós viesses, Que ella vos mataria Com muito forte peçonha, Que não vivesses um dia.» E porque não consenti, Disse que eu a accommettia, E fez-me logo prender, O que ella merecia. Até agora preso estive Com muito grande agonia. Esta é, senhor, a verdade, Que de mim saber querias.
Quando o nobre Imperador Tam maldita nova ouvia D'aquella que tanto amava Mais que a vida, em que vivia, Caiu do cavallo em terra, Uma hora se amortecia, Fizeram-n'o tornar em si, Com lhe deitar agua fria;{114} Cobriu-se logo de dó Com o que o irmão trazia; Todo o amor que lhe tivera, Em odio se convertia. Sem mais falar com ninguem, Que a tristeza lh'o tolhia, Determinou dar-lhe a morte, Que ella tam mal merecia. De noite secretamente, O mais quieto que podia, Entrou dentro da cidade, Á meia noite seria; Mandou tres homens dos seus Sem outra mais companhia, Que matassem a Imperatriz Antes que viesse o dia, N'uma floresta cerrada Por onde gente não ia, E vestida a enterrassem, Porque assim fazer cumpria; E se isto não fizessem, A vida lhes custaria. Mandou-lh'a logo entregar C'o vestido que trazia, Para receber aquelle Que tão mal a recebia. Vendo-se ella assim levar, Suspeitando o que seria, Como discreta, que era, Cheia de sabedoria, Levantou o rosto ao céo, D'esta maneira dizia:
«Encommendo a Deos minh'alma E á virgem santa Maria, Porque me criou de nada,{115} Por sua bondade pia. Lembrae-vos, Senhor, de mim, Pois sem culpa padecia, Não olheis os meus peceados, Nem o mal, que merecia; Mas vossa misericordia, Que todo o mundo cobria. Eu perdôo a meu cunhado Todo o mal que fazia, E tambem a meu marido, Porque enganado vivia.»
Os homens que a levavam Onde padecer havia, Viram sua formosura Co'a lua, que então saía, Disseram uns aos outros:
==Mal empregada seria A morte a esta senhora, Pois que tem tanta valia; Gozemos primeiro d'ella Que a coma a terra fria.
N'isto se determinaram, Sem cuidar de mais porfia.
Respondeu a Imperatriz: (Bem vereis o que diria.)
«Fazei o que vos mandaram, Não cureis de fantazia; Deixae a minha limpeza Para quem a merecia, Que se tocasses em mim, A vida vos custaria.»{116}
Não cuidaram os algozes No que a senhora dizia, Antes remetteram a ella Com muito grande ousadia. A innocente cordeira, Vendo que a gente a despia, Começou a dar taes gritos, Que a floresta retinia; E como ainda era noite Em grande parte se ouvia. Acertou de ouvil-a um Conde Que muita gente trazia, Que vinha de Jerusalem, Onde muita gente ía. Quiz Deos que aquella noite Por ali fizesse via, Para livrar a Princeza Da pena que padecia. Como taes gritos ouviu Do cavallo se descia, E com muita grande pressa Na floresta se mettia; Seguiram-no seus criados, Cada um como podia, Ao som dos tristes gritos A gente toda o seguia; Foram dar n'aquella parte, Onde a coitada gemia, Que com mui grande fraqueza A força lhe fallecia, E se um pouco mais tarda Sua honra se perdia. O Conde mui piedoso, Que Clitaneo se dizia, Vendo tão grande maldade, Com grã pressa em demazia,{117} Disse: Matae, meus criados, Quem tal traição commettia. Todos foram logo mortos Antes d'uma ave-maria; E a Imperatriz ficou livre, Porque mal não merecia. Deu-lhe a Imperatriz as graças Do bem que feito lhe havia; Quando isto aconteceu, Já era mui claro dia. E o Conde tão assombrado, Que quasi emmudecia De ver sua formosura Mais que todas quantas via, Logo suspeitou que era Senhora de grã valia, Assim por seu parecer, Como pelo que vestia. Disse-lhe d'esta maneira Com mui grande cortezia:
«Não me negueis vós, senhora, Isto que agora diria, Porque não queria errar Contra vossa senhoria: Vós sois de alta linhagem, Isto eu o juraria; Se vós me dizeis quem sois, Grã prazer receberia; Quem vos trouxe a este logar Com tão falsa companhia? Dizei-me toda a verdade Sem cuidar de mais porfia.
Respondeu a Imperatriz, Porque encobrir se queria:{118}
«Eu sou mal afortunada, Que não sei porque nascia, Por um falso testemunho Perdi minha grã valia; Não vos posso mais dizer, Porque escusado seria: Senão, quero vos rogar Por Deos e santa Maria, Me quereis levar comvosco O que eu não merecia; Servir-vos-hei como escrava, Sempre de noite e dia.
Foi o Conde mui contente De fazer o que dizia; Deu-lhe uma cavalgadura De muitas que ali trazia. Chegaram á pousada Com muito grande alegria, Onde foi bem recebido De sua mulher Sophia; Contou-lhe o que passou Em a sua romaria; Tambem lhe apresentou A senhora que trazia; Contou-lhe como a achara, Que nada não lhe mentia. Beijou-lhe a Princeza as mãos Inda que ella não queria, Tomou-lhe mui grande amor A Condessa em demazia, Que não comia sem ella, Com ella folgava e ria; Mais que sua irmã carnal, Era o que lhe queria, Até o menino de teta,{119} Que pouco maior seria, Lh'o deu á Imperatriz, E sempre com ella dormia.
Tinha o Conde um irmão, Que Nathão por nome havia, O qual por esta senhora Graves penas padecia: Não tinha nenhum prazer O dia que a não via. Determinou descobrir-lhe Como por ella morria; E um dia, tendo logar, Quando a Condessa dormia, Disse-lhe d'esta maneira Com grande dor que sentia:
—Mui resplandecente aurora, Claro sol do meio dia Que fez o Eterno Pintor, Que todas as coisas cria. Minha alma por vós padece, Minha vida se perdia; Por isso me deu o amor Esta tão grande ousadia, Que ousasse a descobrir O que o coração sentia. O que vós tendes roubado É liberdade e alegria; Essas crystalinas mãos De aljofar e pedraria Me deixae beijar, senhora, Pois que tem tanta valia. Não consintaes que padeça, Quem a vida só queria,{120} Para vos poder servir, Como ella merecia.
Querendo-lhe a mão tomar, A Imperatriz se desvia, Em ira toda abrazada, Resposta lhe não dizia:
«Senão olhara, senhor, O mal que n'isto faria, Eu manifestara ás gentes Vossa louca ousadia. Tirae-vos diante de mim, Não cureis de mais porfia, Ou dil-o-hei á Condessa, Minha senhora Sophia, E tambem ao senhor Conde, Que de mim tanto se fia.
Sem curar de mais palavras, Na camara se recolhia, Queixando-se da fortuna, Porque tanto a perseguia. Ficou tão triste Nathão, Quanto dizer não podia, Por tão áspera resposta Como d'ella ouvido havia. Todo o amor que lhe tivera, Em tedio se convertia; Determina de vingar-se Por qualquer maneira ou via. Como a noite foi cerrada, Que já ceado se havia, O Conde e a Condessa E toda a mais companhia, Cada um em seu aposento{121} A dormir se recolhia, E tambem a Imperatriz Á cama d'onde dormia; Levava comsigo o menino, Como d'antes o fazia. Deixou a candeia acceza, Como de costume havia. Assim como se deitou Logo se adormecia, Com o menino nos braços, Porque muito lhe queria. Estava o falso espreitando Como a cordeira dormia, Cançada de muitos choros, Que de continuo fazia, Lembrando-lhe seu marido, E o bem que d'elle perdia; E que sendo Imperatriz De tanto estado e valia, Agora como escrava De uma vassalla se via, E que de um seu irmão Tanta affronta recebia. Como viu este malvado, Que o somno a embebia, Tirou a porta do couce, Com um engenho que trazia, E foi-se direito á cama, Onde o sobrinho dormia, Degollou-o c'um cutéllo Mui agudo em demazia. Depois que o teve morto, Que com pé nem mão bolia, Deixou o cutéllo nas mãos Da innocente que dormia, E saíu cerrando a porta,{122} Melhor que elle podia. Era o sangue de tal sorte Que do menino corria, Que o corpo da Imperatriz, Olhos e mãos lhe enchia; Como o tinha nos braços, Toda de sangue a cobria; Entrando-lhe pela bocca, Acordar logo a fazia. Vendo na mão o cutéllo, E o menino que jazia, Começou com grandes gritos A publicar o mal que via, Dizendo; «Acudi depressa Minha senhora Sophia, Que mataram vosso filho Minha doce companhia.» Ás vozes que ella dava, A Condessa se erguia, Que ainda estava na cama, Porque era antes do dia, E seu marido com ella Mui triste em demazia. Vendo o filho como estava, Em terra logo caía, Estava tal como morta, Que com pé nem mão bolia. Á coitada da Imperatriz A alma se lhe saía, Não podia suspeitar Quem tanto mal lhe fazia; E ainda que suspeitasse, Pouco lh'aproveitaria. E n'isto chegou o irmão, Que de prazer não cabia, Porque tanto se vingara{123} De quem tanto a offendia. Disse o irmão a Clitaneo, Chorando, demais seria:
—Quem matou o meu sobrinho, Grande castigo merecia. Mandae-m'a vós queimar logo, Sem curar de mais porfia; Porque ali tem o cutelo Com que fez tão grã falsia.
Estas palavras dizendo, A Condessa em si volvia, Levantando-se em pé, Com o grande pezar que havia, Viu estar a Imperatriz, Que finada parecia, Seu rosto maravilhoso Feito côr de pedra fria; Seus olhos fontes de lagrimas Com o chorar que fazia; Tinha o coração cerrado, Falar a ninguem podia, Ainda que perguntavam, A ninguém não respondia. Estava como pasmada Com estas coisas que via. A Condessa piedosa, Com o bem que lhe queria, Não podia esta senhora Crer que tal ella faria; Mas o malvado cunhado A todos os induzia, Que lhe dessem logo a morte Que ella tão bem merecia; E se matar a mandava,{124} Que elle mesmo a mataria, Por matar a seu sobrinho, Que tanto bem lhe queria. Chorando singularmente Mostrando que se doía; E para mais a commover O cutélo lhe trazia, Todo coberto de sangue Do innocente que morria. A pomba sem fél chorava A tudo quanto ali via, Não querendo desculpar-se Porque crida não seria, E não por temor da morte, Que d'ella não se temia; Mas antes continuamente A Deos sempre a pedia, Que quem vive sempre triste A morte lhe é alegria. E mais ella, que estava Com tão sobeja agonia: Acordou fazer-se muda, Pois falar-lhe não valia. A quanto lhe perguntavam Vendo que não respondia, Cuidando então a Condessa, Que culpada não seria, E que matára seu filho Alguem que mal lhe queria; E que ella ora com pezar De tal sorte emmudecia, E dizendo a seu marido Isto que cuidado havia, Parecia-lhe bem ao Conde O que a Condessa dizia, Por não dar tão cruel morte{125} A quem tão bem a servia.
Foi determinado então, Desterral-a sem porfia, E n'uma Ilha lançal-a, Que dentro do mar jazia Quarenta leguas de terra, Onde gente não havia; E que ali de fome e sêde Sua culpa pagaria, E comida de animaes, D'isto não escaparia.
Como a noite foi chegada Ás horas que anoitecia, Manda que seja levada Por dois homens de valia, Com ella duas mulheres, Para ir em companhia, Para que fosse guardada Sua honra, como devia. Em um navio veleiro A Imperatriz se mettia, Com lagrimas dos seus olhos Da terra se despedia. Chegaram á dita Ilha Á noite do outro dia, A Princeza deixam em terra Com grã choro em demazia. Tornaram-se com o navio, Porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre Imperatriz Em tal logar só se via, N'uma Ilha tão deserta, Onde ninguem não vivia,{126} Senão bravos animaes, De que ella manjar seria, Chorando lagrimas tristes, D'esta maneira dizia:
«Ó meu nobre Imperador, Meu bem e minha alegria, Que pouca é vossa lembrança De quem tanto vos queria! Que pouco tempo durou Vossa doce companhia? Sempre cuidei de vos ver Algum tempo ou algum dia; Agora por meus peccados Jámais nunca vos veria. Deos perdôe a vosso irmão, E a Virgem santa Maria, Que eu lhe perdôo aqui Todo o mal, que me fazia. Oh senhor, e só meu pae, Principe e rei de Hungria, Quão triste vida será A vossa sem alegria, Em ouvindo tão má fama, Que em Roma de mim corria? Mais sinto vosso pezar, Que minha grande agonia; Pois morrerei uma vez Vós morrereis cada dia. A vossa deshonra sinto, Que a morte não a temia, Porque mais hade temer, Quem tão sem culpa morria.
Estas palavras dizendo, Mui grande ruido ouvia, Tão terrivel e espantoso,{127} Que soffrer-se não podia; Ouvindo isto a senhora A força lhe fallecia; Como era delicada Em terra logo caía. Estes eram animaes De muitos que ali havia, Que tanto que a sentiram, Com grã pressa em demazia Correram para a comerem, Cada um qual mais podia. Antes que a ella chegassem Um resplendor apparecia. Estiveram todos quedos, Nenhum ali se movia, Com temor de uma senhora, De quem o inferno tremia; Pois vinha com magestade A Virgem santa Maria, Para guardar a limpeza De quem a ella recorria. Chegando com grande amor, Onde a Imperatriz jazia, Disse-lhe d'esta maneira Com suave melodia:
«Minha Porcina, não temas, Que nenhum mal te viria; Eu sou a Madre de Deos; A quem serves cada dia, Que te venho soccorrer Em tão extrema agonia; Não temas nenhum perigo Princeza nobre e mui pia, Porque Deos será comtigo Sempre de noite e de dia,{128} Por muitos bens que fizeste, De que elle se servia. D'esta herva colherás, Que n'este logar nascia, Sem levar outra mistura Mais que sómente agua fria, Na qual cozida será Quanto te parecia: E um unguento farás De grande preço e valia, Com o qual darás saude A quem a mister havia, Em nome do Redemptor, Rei de toda a monarchia.»
E estas palavras dizendo A Virgem ao céo subia, Os animaes que ali estavam Nenhum mais apparecia. A Imperatriz ficou Mui alegre em demazia, E dando a Deos as graças, E á sagrada Maria, Colheu d'aquella herva tanta, Quanta mister lhe fazia. Acabando de colher, Um navio á vela via, Capiando-lhe com a mão, A gente á terra sahia, Mui espantados em vêl-a Perguntaram que queria, Ou quem a trouxe ali, Onde ninguem não vivia. Respondendo a Imperatriz, D'esta maneira dizia:{129}
«Que vindo com seu marido Para Roma sua via, A grã tormenta do mar Ali lançado os havia, E a Nau foi dar á costa Com a gente que trazia, E que ella escapara Sem outra mais companhia: Quero-vos rogar, irmãos, Por Deos, e por cortezia, Me leveis á terra firme, Que bem vol-o pagaria.
Todos foram mui contentes, Sem curar de mais porfia. Como foi posta em terra Com mui grande alegria, Foi-se direita ao Castello, Que Alberto se dizia, Pelo nome do Senhor, Que sempre n'elle vivia, O qual tinha sua mulher, A quem elle muito queria, Doente de sangue fluxo, Que grã pena padecia. Não lhe davam cura os Mestres Que grande pezar sentia, A Imperatriz piedosa, Licença ao marido pedia, Para curar a mulher, Que tanto mister havia: E assim logo entrou dentro Adonde a mulher jazia, Untou-lhe todo o seu corpo Com unguento que trazia, Pela vontade de Deos{130} A saude recebia. Levantou-se logo em pé, O que d'antes não fazia, Muito rija e muito inteira, E com grande melhoria, Clamando por seu marido, O qual logo lhe acudia: Disse-lhe como era sã, Do gram mal que padecia, Abraçando a Imperatriz, Tão leda, que não cabia, Tomou-lhe tão grande amor Como a razão o pedia. Muita gente a vinha vêr, Espantada do que via; Que fosse sã tão depressa Quem tanto mal padecia. Olhava a Imperatriz A quem tal bem lhe fazia, Mui espantados de a vêr Tão formosa em demasia, Sarar tal enfermidade Com sua sabedoria. Elles a isto assistindo, Um cego apparecia, E chegando ao Castello, Que já dito vos havia, Quiz elle pedir esmola Assim como antes sohia. Vendo-o a Imperatriz, Movida com a obra pia, Curou-o em nome do Padre, Que todas as coisas cria, Do filho e do Espirito Santo, Que d'entre ambos procedia; A Santissima Trindade{131} Saude lhe concedia. Como o cego se viu são, Com grã prazer que sentia, Pôz-se ante ella de joelhos, Dando vozes de alegria. Levantou-o a Imperatriz, Que tal coisa não queria,
«Irmão, dae graças a Deos, (Mui humilde lhe dizia), Que só vos deu a saude Com a sua sabedoria, E a infinita bondade, Que terra e mar enchia.
A fama destes milagres, Pela terra se estendia; A Clitaneo os contaram, E a sua mulher Sophia, Os quaes foram mui alegres Pelo que agora diria. Natão aquelle malvado, Que arriba se dizia, Que matou a seu sobrinho, Do que não se arrependia, Que offendendo tanto aquella Que nenhum mal merecia, Depois de ser desterrada Antes de passar um dia, Veiu a fazer-se gafo, Que nenhum remedio havia, Senão pagar com a morte No inferno o que devia. Era tal sua doença,{132} Que tudo aborrecia, E ninguem chegava a elle Tão fortemente fedia. Acordou pois Clitaneo (Porque muito lhe doía) De logo o levar comsigo, Adonde Alberto vivia. Pois que era seu parente, Grande amigo em demasia, Disse tambem a mulher, Que com elle ir queria. Metteram-no em umas andas Aonde só ir podia. Partiram todos de casa Quando a luz apparecia, Chegaram ao dito Castello Á meia noite seria, No qual o parente Alberto Mui alegre os recebia. Ao tempo que ali chegaram, A Imperatriz dormia, E não a poderam ver, Até que foi bem de dia; Como foi pela manhã, A recebel-o saía, Com aquelle acatamento, Que a humildade devia; Todos logo a receberam Com mui grande cortezia, E quiz nosso Senhor Deos Que ninguem a conhecia, O Conde e a Condessa, Nem a sua companhia. Todos eram espantados Do primor, que n'ella havia, Contou Clitaneo então{133} A causa que os trazia, Pela doença do irmão, Que tal tormento sentia. Dizendo:—Pois Deos lhe dera Tal graça e tal valia, Que lh'o quizesse curar Como aos outros fazia, Que se por paga o houvesse Quanto quizesse daria.
Respondeu a Imperatriz Mui contente do que via, Para se manifestar Como sem culpa vivia; Que fosse onde elle estava, Porque ella ver o queria. Foram com ella as senhoras Por lhes fazer companhia, Tambem todos os senhores, Para ver o que fazia. Chegando onde elle estava Tão fortemente fedia, Que não podia soffrel-o Toda a gente que ali ía, A Imperatriz piedosa, Com a humildade que havia, Chegando á sua cama, D'esta sorte lhe dizia:
«Meu irmão, salve-o Deos, Que todas as coisas cria; E vos salve vossa alma, E ao corpo dê melhoria. Vós, irmão, quereis ser são? (Disse-lhe elle que queria.) Haveis-vos de confessar Sem cuidar de mais porfia,{134} Diante d'estes senhores, Porque assim fazer cumpria: E se vos não confessaes, Saude vos não daria Christo nosso eterno Deos, Porque d'isto se servia, Que digaes publicamente O que a consciencia sentia.
Confessou-se logo á hora Do tudo quanto sabia, Mas o que mais relevava, Calava, que não dizia. Disse-lhe a Imperatriz, Como quem o entendia:
«Se tudo não confessaes, Eu curar-vos não podia, Porque um grave peccado Que a Deos muito offendia, Convem que satisfaçaes A honra que se perdia D'aquella, que vós sabeis Quão innocente vivia.
Como isto ouviu Natão, Mui fortemente gemia, Dava tão grandes suspiros Que a alma se lhe sahia, Como quem do que fizera Muito se arrependia. Disse-lhe então o irmão, Vendo que tanto temia:
—Como tão grande peccado, Tendes vós na fantazia,{135} Que o não quereis confessar Pois que tanto vos cumpria, Por haverdes a saude De quem dar-vol-a podia?
Respondeu logo Natão:
—Senhor, não tenho ousadia, Se vós me não perdoaes, E vossa mulher Sophia.
Disse elle, era contente, E ella, que lhe aprazia. Ouvindo isto Natão, Pois tal fazer não podia, Chorando lagrimas tristes Com mui grave agonia Contou logo todo o caso, De sua grande falsia: Como matára o sobrinho Na camara onde dormia, Porque ella não quizera, Fazer o que elle pedia; E de como a commettera, E o que ella respondia; Contou tudo sem deixar Nada, que assim lhe cumpria.
Como isto ouviu a Condessa Em terra se amortecia, E seu marido Clitaneo O mesmo tambem fazia. Depois que tornou em si A Condessa assim dizia:
—«Oh malvado! quem cuidara{136} Tua grande hypocrisia, Porque te déra o castigo, Que tal traição merecia! A amiga maior perdi Que ninguem nunca perdia, Minha fiel companheira, Que a mim tanto me queria. Não me peza de meu filho, Em que a carne o requeria, Porque como pequenino Mui pouca mingua fazia; Mas a vós, minha senhora. Que eu matei com ousadia, Tenho tão grande pezar, Que a alma se me saía; Eu não posso perdoar Aquillo que não sabia; E se eu lhe dei perdão, Em muito me arrependia, Nem meu senhor e marido Perdoar-lhe tal devia; Porque, sendo seu irmão, Lhe fez tão grande falsia.
A prudente Imperatriz Muitas coisas lhe dizia, Porém nada aproveitava, Que tanto a aborrecia. Até que esta senhora A todos se descobria, Dizendo que ella era Por quem tanto se doía. Ouvindo isto a Condessa, Pelo que em ella via No resplandor do seu rosto, E na fala a conhecia,{137} Porque Deos lhe abriu os olhos De sua sabedoria: Foi-se c'os braços abertos, Que parecia sandia, Aos seus da Imperatriz, Que outra vez se esmorecia, Porque tambem isto faz A mui sobeja alegria. E seu marido Clitaneo De contente não cabia, Perdoára a seu irmão, Porque ella lh'o pedia; E logo quiz dar saude A quem lh'a não merecia, Untando-lhe todo o corpo, E as chagas que n'elle havia, E tambem a sua bocca D'onde máo cheiro sahia. Em nome de Jesus Christo, Saude lhe concedia, Mais são, e mais esforçado Do que antes ser podia. Como isto viu Natão, Mui contente em demazia, Foi-se a fazer penitencia, Onde mais não parecia. Toda a gente que ali estava, Tanta honra lhe fazia; Como se todos souberam Sua grande senhoria. Nunca d'ella se apartava A sua amiga Sophia, Tambem a mulher de Alberto, Que em extremo lhe queria. Vinham de todas as partes Ali enfermos cada dia,{138} Aos quaes ella curava, Sem nenhuma fantazia, E a todos dava saude, Porque Deos o permittia.
Como a fama era ligeira, Por todo o mundo corria, Disse-se ao Imperador Que em Roma residia, O qual foi mui contente, Quando taes cousas ouvia, Porque tinha seu irmão, De que acima dito havia; Doente em cama, mui gafo, Que já viver não podia, Mui peior do que Natão, Porque em taes casas fedia; Sua carne tão malvada De bichos já se comia; Ninguem o podia ver, Porque logo adoecia, Que tanto era o fedor, Que de seu corpo saía. Como lhe certificassem Ser de mui grande valia, Um Duque manda por ella, De quem muito se confia, Dizendo que lh'a trouxesse Antes do terceiro dia, Porque não viesse a morte A quem tanto lhe doía. Vendo o Duque seu mandado A grã pressa se partia, Chegando ao dito Castello Clitaneo o conhecia: Logo o foi a receber{139} Com mui grande cortezia, Fazendo-lhe aquella honra, Que tal senhor merecia. Como tão pouca detença O Duque fazer cumpria, Perguntou pela senhora, Que tantas coisas fazia. Como lhe fosse mostrada, Grande espanto recebia, De ver sua formosura Mais que todas quanto via, Lembrando-lhe a havia visto, Mas aonde lhe esquecia, Muito fóra de cuidar, Que a Imperatriz seria. A mui nobre Imperatriz, Que mui bem o conhecia, Seu rosto maravilhoso D'elle sempre escondia, De que causa se assombram Porque a todos se encobria. O Duque sem mais deter-se, Sua vinda lhe dizia, Contando-lhe como Albano Cruel pena padecia; E que o Imperador Lhe rogava e lhe pedia Que logo o fosse curar, Pois tanto mister o havia, E que se o désse são, Que elle lhe promettia, Fazel-a tão grã senhora, Como ella bem veria. Foi a Imperatriz contente, Sem cuidar de mais porfia, Determinou ir com ella{140} A sua amada Sophia; Tambem a mulher de Albano Disse que não ficaria, Assim que ambos os maridos Lhe fizeram companhia, Porque tambem desejavam De ir a Roma em romaria. Partiram com tanta pressa, Que chegando ao outro dia Á grã cidade de Roma, Quando o sol claro saía, Era tanta pelas ruas A gente que a seguia, Que quando chegaram ao paço Caber n'elle não podia. O Imperador Lodonio Tão alegre a recebia, Que todos se assombravam De sua grande alegria. Foi ella beijar-lhe a mão, Mas elle o não consentia; Ia c'o rosto coberto, Que pouco lhe apparecia. Como ella se viu diante De quem mais que a si queria, Não podia ter-se em pé, Do grão prazer, que sentia. O Imperador fez honra A todos quantos trazia, Maiormente a Clitaneo, Por sua grande valia; Sentou-os todos á mesa, Com todos juntos comia. Em quanto durou o comer, Os seus olhos não desvia De sua amada mulher,{141} Que elle reconhecia; Mas o coração lhe dava Sobresaltos de alegria. A prudente Imperatriz O mesmo tambem fazia. Acabando de comer A seu marido dizia:
«Clarissimo Imperador, Rei de toda a monarchia, A quem devem sujeição Todos os que a terra cria; Eu, como serva menor De quantos no mundo havia, Conhecendo o grão pesar Que tendes em demasia, Pela doença do irmão, Que tanto mal padecia, Venho aqui para o curar Como quem em Deos confia, Como elle lhe dará saude Por sua clemencia pia; Portanto eu quero vel-o Se o Senhor m'o concedia.
O benigno Imperador Muito lh'o agradecia; Foram postos muitos cheiros Na cama d'onde dormia, Porque de outra maneira Ninguem lá entrar queria. Foram todos juntamente, Que ninguem ficar queria, Á camara onde estava Quem tanto mal padecia. Tinha tão grandes tormentos{142} Que a alma se lhe saía. A humilde Imperatriz, Por fazer o que devia, A rogos do seu irmão, A quem tanto amor havia, Chegando-se á sua cama, Salvando-o como sohia, A fazer que o curava, Como quem seu mal sentia: Albano lhe torna graças, Muito alegre em demasia, Disse-lhe a Imperatriz Com mui grande cortezia;
«Convém de se confessar Logo vossa senhoria, Diante do Imperador, E esta nobre companhia, De todos os seus peccados, Que contra Deos commettia, Se um só ficar por dizer, Saral-o não me atrevia.
Respondeu logo Albano, Como quem já se temia: Que elle os seus peccados Ao Sacerdote os diria, E que de outra maneira Confessar-se não podia.
«Será logo por demais, (A Imperatriz dizia,) Minha vinda a este logar, Pois nada aproveitaria.{143} O Imperador agastado, A seu irmão respondia:
—Quem agora vos curasse, Tam grã milagre fazia, Como resurgir um morto, Que já come a terra fria; E pois por tal vos contamos, Porque vos falta ousadia De dizer vossos peccados Ante esta tal companhia? Dizei-nos, por Deos, irmão, Não cuideis de mais porfia, Se vós não confessaes, Grã pezar receberia.
Disse-lhe então Albano, Que pois isto elle queria, Que logo lhe perdoasse Um grã mal, que feito havia; O qual era de tal sorte Que perdão não merecia, E se lhe não perdoava, Que não se confessaria. Respondeu-lhe o Imperador Que mil lhe perdoaria, E pois era seu irmão, Porque d'elle se temia? Respondeu então Albano, Com grã pezar, que sentia:
==Bem sei que sereis lembrado D'aquelle tam triste dia, Quando d'aqui vós partistes Para ir á romaria? Por Governador deixastes,{144} Como a razão pedia, A mim e á Imperatriz, Que eu matei com grã falsia.
Contou-lhe todo o successo, Porque nada lhe mentia. Ouvindo o Imperador Bem vereis o que diria:
—Piedoso Jesus Christo, Eterna sabedoria, Tam altos são teus mysterios, Que ninguem os entendia: Quem cuidara que um irmão Tão grã traição me faria? Eu fui mui pouco discreto, Pois fiz o que não devia, Sem primeiro me informar De quem o caso sabia. Oh minha amada mulher, Claro sol, e luz do dia, Minha saborosa lembrança, Espelho em que me via! Como partiste queixosa De uma tão penosa via, De mim mais, que do cunhado, Porque eu o merecia Em vos matar tão sem culpa, Sem olhar o que fazia. Porque devera olhar O que por razão seria, Que quem tem fiel amor, Nunca mudar se podia. Pelejem os elementos, E abra-se a terra fria, Para que consumma em si{145} Quem tanto a Deos offendia? Escureça o sol, e a lua Que todo o mundo allumia, Porque ajudem a meu pranto, Como a razão o pedia.
Estas palavras dizendo, Com a dôr se amortecia, Era por morto julgado Da gente que assim o via. Vem logo todos os Mestres, Cada um como podia, Os quaes sabendo a verdade, Com muita grande agonia, Tantas cousas lhe fizeram Com sua sabedoria, Até que em si o tornaram, Como de antes sohia. Não quiz mais a Imperatriz Encobrir o que sentia, Descobriu seu lindo rosto, E a seu marido dizia:
«Oh meu bem tam desejado, Minha doce companhia, Eu sou a que com razão Devo de ter alegria; Pois Deos me deixou ver-vos Como sempre lhe pedia: Se agora viesse a morte Mui leda a receberia; Eu sou a vossa mulher Filha do grão Rei de Hungria, Que vós mandaste matar, Pelo que não merecia: Quiz-me guardar Jesus Christo{146} E a Virgem santa Maria, Por guardar fidelidade A quem tanto me queria.
Poz-se ante d'elle de joelhos Ainda que o não merecia, Por força lhe beija as mãos, Mas elle o não consentia; Antes quando a conheceu Tão grã prazer recebia, Que abraçando-a docemente Todo o sentido perdia. Não ha ninguem que escreva O que cada um dizia, Nem papel onde caber O que escrever se podia. Em extremo se assombraram Clitaneo, e mais Sophia, Vendo a Imperatriz De tão grande Senhoria, Aquella que em sua casa, Como escrava os servia; Que mandaram desterrar Por culpa que não havia, Temendo-se que agora Algum grã mal lhes viria, As mãos postas, de joelhos, Mui tristes em demazia, Chorando pedem perdão, Que logo lh'o concedia, Fazendo-os levantar Com mui grande cortezia; A ambos os dois abraçou, Chorando com alegria, Contando ao Imperador O muito que lhes devia.{147} Que se por elles não fôra, Sua honra se perdia; E do grande agasalhado, Que cada um lhe fazia E que a vida, e a honra A elles ambos devia.
O Imperador mui ledo, Quando estas cousas ouvia, A Deos dava muitas graças, E á Virgem sancta Maria, Promettendo a Clitaneo Que elle lh'o pagaria, Com fazel-o grã o Senhor De todos quantos havia. Tomou a Imperatriz A sua amada Sophia, Por sua camareira mór, Pelo bem que lhe queria. Tudo quanto ella mandava No imperio se fazia; Determinou o Imperador Por fazer o que devia, Queimar a seu irmão vivo Doente como jazia, Dizendo:—que mais merece Quem tal traição commettia? A Imperatriz piedosa De joelhos lhe pedia, Lhe quisesse dar a vida. Ainda que não merecia, Dizendo que bem bastava A pena que padecia. Outorgou o Imperador, Porque mui chorosa a via, Porque a sua nobreza,{148} A muito mais se estendia. Levantou-se d'onde estava A que n'elle se veria, E se foi deitar á cama Em que morrendo vivia. E untando-o com ungento A saude recebia: Ficou muito forte e disposto, O qual d'antes não fazia; Conheceu o Imperador Sua virtude e valia, Que era ainda muito mais Do que elle cuidar podia. Seu irmão, por nome Albano, Que muito se arrependia, Fez mui grande penitencia, Porque bem se arrependia. O Imperador Lodonio, Mandou fazer cada dia Muitas grandes procissões A Deos e sancta Maria, Dando-lhe infinitas graças Pelos bens que lhe fazia. Fizeram por toda Roma Muitas festas de alegria, Os pobres se alegravam, E toda a gente dizia: Viva a nossa Imperatriz Que tanto bem nos fazia; Iam-na todos a ver, Como vem á romaria, A todos benignamente A Senhora recebia, Fazendo-lhes mais esmolas, Do que ella d'antes fazia. O Imperador Lodonio{149} Tambem com vontade pia Fazia mui grandes bens, A todos grã bem fazia: Foram bemaventurados, Segundo a historia dizia.
Folha volante, de 1660