LUIZ DE CAMÕES
Reading edition
Endechas a Barbara escrava
Aquella cativa, Que me tem cativo, Porque n'ella vivo, Ja não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves mólhos, Que para meus olhos Fosse mais formosa. Nem no campo flores, Nem no céo estrellas, Me parecem bellas, Como os meus amores. Rosto singular, Olhos socegados, Pretos e cansados Mas não de matar. Uma graça viva, Que n'elles lhe mora, Para ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabellos, Onde o povo vão, Perde opinião, Que os loucos são bellos. Pretidão de amor Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a côr.{55} Léda mansidão Que o siso acompanha, Bem parece estranha, Mas barbara não. Presença serena Que a tormenta amansa: N'ella em fim descansa Toda minha pena. Esta é a cativa. Que me tem cativo; E pois n'ella vivo, É força que viva.
Mote
Descalça vae para a fonte Leonor pela verdura; Vae formora, e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Saínho de chamalote: Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura; Vae formosa e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabellos de ouro entrançado, Fita de côr de encarnado, Tão linda que o mundo espanta: Chove n'ella graça tanta Que dá graça á formosura; Vae formosa e não segura.{56}