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Floresta de varios romances

FRANCISCO RODRIGUES LOBO

Reading edition

Cantiga

Descalsa vae para a fonte Leanor pela verdura, Vae fermosa e não segura.

VOLTAS

A talha leva pedrada, Pucarinho de feição, Saia de côr de limão, Beatilha suqueixada: Cantando de madrugada, Pisa as flores na verdura, Vae fermosa e não segura. Leva na mão a rodilha, Feita de sua toalha, Com uma sustenta a talha, Ergue com outra a fraldilha: Mostra os pés por maravilha, Que a neve deixam escura; Vae fermosa e não segura. As flores, por onde passa, Se o pé lhe acerta de pôr, Ficam de inveja sem côr, E de vergonha com graça. Qualquer pegada que faça Faz florescer a verdura; Vae fermosa e não segura. Não na vêr o sol lhe val, Por não ter novo inimigo;{57} Mas ella corre perigo, Se na fonte se vê tal. Descuidada d'este mal Se vae vêr na fonte pura, Vae formosa e não segura.

Obras compl. Ecl. X, p. 651.

Cantiga

Antes que o sol se levante, Vae Violante a vêr o gado; Mas não vê sol levantado Quem vê primeiro a Violante.

VOLTAS

He tanta a graça que tem Com uma touca mal envolta, Manga da camisa solta, Faixa pregada ao desdem; Que se o sol a vir diante, Quando vae munir o gado, Ficará como enleado Ante os olhos de Violante. Descalsa ás vezes se atreve Ir em mangas de camisa; Se entre as ervas neve pisa Não se julga qual é neve; Duvída o que está diante, Quando a vê munir o gado, Se é tudo leite amassado, Se tudo as mãos de Violante. Se acaso o braço levanta, Porque a beatilha encolhe,{58} De qualquer parte que a olhe Leva a alma na garganta. E inda que o sol se alevante A dar graça e luz ao prado, Já Violante lh'a tem dado, Que o sol tomou de Violante.

Idem, p. 653.

Romance do Desenganado

Sobre as aguas vagarosas Que o Tejo já traz cansadas De abrandar duros penedos, E de romper serras altas: Perto d'onde o mar oceano Lhe offerece livre entrada, Dando ás crystallinas ondas Livres e douradas praias: Leva o pescador sereno Com rôtas redes a barca, Tam perseguida dos ventos Quanto de amar sustentada; E por que o leva forçado Sua virtude contraria, Desterrado do seu Lena, E de sua amada patria, Já o vento o favorece E o mar lhe mostra bonança, Porque para a desventura A ventura nunca falta. E ao som que os duros remos Fazem dividindo as aguas, Derramando-as de seus olhos, Vae dizendo estas palavras:{59} «Fermosas aguas do Tejo, Do mundo tão celebradas, Morada de tantas nymphas, E inveja de outras tantas; Este corpo que amparaes, Que persegue a sorte ingrata, Dae-lhe vós a sepultura, Que é corpo que vae sem alma. Mil annos vivi sem tel-a, Por poder de uma esperança Enganada da ventura, Que tam facilmente engana. Causa foi da minha morte Lisêa, e melhor se acclara Que, pois tanto amei Lisêa, Eu fui de meu mal a causa, O espirito com que vivo É de um tormento que mata, Que os males aonde ha firmeza Nem com a vida se acabam. Junto então do rio Lis Meu rebanho apacentava, Fiz-me pescador do Lena Provei a sorte em mudanças. Só no mal achei firmeza, Sei do bem quam cedo passa, E sei que a quem muda a vida Se muda mas não se acaba. Sei que vive um corpo morto Por milagre de esperanças, E que o mal ainda sustenta Quando as esperanças faltam. Se em vós móra piedade 'Nessas humidas entranhas, Dae fim a meus tristes dias, E a vosso nome esta fama:{60} —Contra o poder da ventura Empregada em um sujeito, De um fogo de amor perfeito Aguas foram sepultura.»

Romances, 2.ª parte, p. 722.

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