ANTONIO SERRÃO DE CASTRO
Reading edition
Romance da briga de um cego e um corcovado
De um Cego e de um Corcovado Hoje o desafio escrevo; N'um vou á cega lagarta, N'outro vou com grande peso. N'uma palestra se acharam Os dois a um mesmo tempo, Um carregado de espaldas, Outro de colera cego. Vinha o Corcovado armado De bacias de barbeiro, Uma trazia nas costas, Outra trazia no peito. Com vir nas conchas metido Parece vinha com medo, Pois nas conchas com alongo Um cágado estava feito. No Cego vejo a razão, No Corcovado a não vejo, Porque é um homem que nunca Teve avesso nem direito. Esgrimiu o Cego um pau E andou com elle tão déstro, Que em dois angulos obtusos As pancadas deu correndo. Descarregou de pancadas No Corcovado um chuveiro, Porque os chuveiros nos montes Dão as pancadas mais cedo. Dar o Cego a bateria{155} No Corcovado era certo, Porque duas eminencias Tinha por onde batel-o. Sem haver pé de pessoa Que a briga estivesse vendo, Foi o Cego dar com um pau Em dois vultos não pequenos. Tropeçou o Cego n'elles, Que é o tropeçar de cegos; E deu de cego pancadas Em dois mui grandes torpeços. Pôr no Corcovado o pau Não foi n'este Cego o erro; Que em casas que tem corcovas Pôr-lhe pontões é acerto. Dando na Casa dos Bicos Eram golpes tão horrendos, Que lá no Cunhal das Bolas Soando estavam seus eccos. Sempre um cego ha mister guia, Mas eu n'este Cego vejo Que não ha mister guiado Pois tanger sabe um camello. Como os cegos tangem bem, Este tangeu tão avesso, Que nas costas de um laúde Deu bordoadas aos centos. N'um mesmo tempo brigou, E acclamou o vencimento, Pois sempre na briga esteve Os atabales tangendo. O Cego teve a victoria Mas o Corcovado, é certo, Que nos despojos levou Os dous alforges bem cheios.{156}