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Floresta de varios romances

JORGE FERREIRA DE VASCONCELLOS

Reading edition

Romance da batalha que El-Rei Arthur teve com Morderet, seu filho.

Gram Bretanha desleal, Ao melhor rei que tiveste D'agora, té o fim do mundo Chora quanto bem perdeste: Jaz no campo, entregue á morte Que falsa, ingrata lhe deste, A flor da cavalleria Com que te ensoberveceste. A pena tem já da culpa Que lhe assi favoreste, Oh traidor de Mordereth, Porque um tal rei vendeste? Oh Bretanha desleal Que grande traição fizeste, A vinte quatro da Távola Que por Ginebra escolheste. Á demanda do Grial Triste remate poseste; Morto jaz de mil feridas, E tu, soberba lh'as deste, Dom Galvão tão animoso Por quem mil glorias tiveste; E matar Dom Galeazo Ingrata como podeste?{37} Que em obras de fortaleza, Não sei se outro egual houveste! Pôde matar-te Bretanha Que tu tanto engrandeceste! Esforçado Flordemares, Que em forças mares venceste, A morte, que em defenderes Tal rei, d'ella padeceste. Oh animado Troyano, Nunca lh'o tu mereceste, Mal lhe merecias, mal O que d'ella recebeste. Palamedes, oh pagão Que nas armas floreceste: Dom Tristão de Leonis, Que por amores morreste. Em não morreres aqui Ditosa sorte tiveste, Tu, Lançarote do Lago Que as glorias de amor houveste; De damas servido, amado Da dona a quem mais quizeste, Com dano dos traydores Á morte a que te rendeste. Ficarás sem sepultura Co'a pena que mereceste Tu traidor Morderet Pois tal traição commetteste Aqui se acabou a gloria Quanta, Bretanha, tiveste: Em pago da qual a Arthur Nem a sepultura deste. Cá na Ilha de Avalom, Merlim, vergel lhe fizeste, Em que vive, e só salval-o De affronta e morte podeste.{38} Como amigo que as más manhas De Bretanha conheceste, Mas n'algum tempo inda Arthur, Bom Rei que desmereceste, Bretanha virá a vingar-se Da traição que lhe fizeste.

Memorial das Proesas da Segunda Tavola Redonda, cap. III.

Romance ao modo hespanhol, com gentil arte e disposição, sobre a Guerra de Troya.

Naquella montanha Ydéa Que Afrodísia frequentava, Páris, aquelle pastor A quem Enone amava, Com ella de companhia As feras bravas caçava, As aves de mil maneiras Armando laços tomava. Antre murteiras, nos braços Da Nimpha a sesta passava, D'onde ter-lhe eterno amor Muitas vezes lhe jurava; E de tel-a por senhora Comsigo se vangloriava. Aquelle que por ser justo De hera os touros coroava, Embaixada de Tronante Mercurio lhe apresentava: Pera julgar antre as Deosas Que a discordia baralhava, E de cada uma dellas Promessas lhe apresentava, Riqueza uma, outra victoria, Venus formosura dava.{39} O justo pastor se incrina Ao que os olhos contentava, E quer ver núas as Deosas Que nada vêr lhe estorvava. Oh desenho temerario, Que tal perigo intentava, Com rasão e com desejo, Por Cytherêa julgava. E a Deosa satisfeita Da palavra penhorava: Enlevado na esperança Ênone já desprezava. Lagrimas por seu amor Em satisfação lhe dava: O seu descanso amoroso Por trabalhos o trocava. Venus cumpre sua promessa, Fortuna Ênone vingava, Com a fermosa Greciana A toda a Troya abrasava. E não lhe valeu Cassandra, Que furiosa o gritava, Que estes são os galardões Que amor vingativo dava.

Memorial das Proesas, etc. cap. VIII

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