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Floresta de varios romances

BERNARDIM RIBEIRO

Reading edition

Cantar á maneira de Solao, que vem no capitulo XXI da menina e Moça.

Pençando-vos estou filha, Vossa mãe me está lembrando, Enchem-se-me os olhos d'agoa Nella vos estou lavando. Nascestes filha entre magoa, Pera bem inda vos seja, Pois em vosso nascimento Fortuna vos houve inveja. Morto era o contentamento, Nenhuma alegria ouvistes, Vossa mãe era finada, Nós outros eramos tristes. Nada em dôr, em dôr criada, Não sei onde isto hade ir ter, Vejo-vos filha fermosa Com olhos verdes crescer. Não era esta graça vossa Pera nascer em desterro; Mal haja a desaventura Que poz mais nisto que o erro. Tinha aqui sua sepultura Vossa mãi, e magoa a nós; Não ereis vós filha, não, Pera morrerem por vós. Não houve em fados razão, Nem se consentem rogar; De vosso pai hei mór dôr, Que de si se hade queixar.{25} Eu vos ouvi a vós só Primeiro que outrem ninguem; Não foreis vós, se eu não fôra, Não sei se fiz mal, se bem. Mas não póde ser, senhora, Pera mal nenhum nascerdes, Com esse riso gracioso Que tendes sob olhos verdes. Conforto mais duvidoso Me é este que tomo assi, Deos vos dê melhor ventura Do que tiveste té aqui. A dita, e a formosura Dizem patranhas antigas, Que pelejaram um dia Sendo d'antes muito amigas. Muitos hão que é fantesia; Eu que vi tempos e annos, Nenhuma cousa duvido Como ella é azo de damnos. Nem nenhum mal não é crido; O bem só é esperado: E na crença, e na esperança Em ambas ha hi cuidado; Em ambas ha hi mudança.

Romance de Avalor, que vem no capitulo XI da segunda parte das Saudades.

Pola ribeira de um rio, Que leva as agoas ao mar, Vai o triste de Avalor, Não sabe se hade tornar. As agoas levam seu bem,{26} Elle leva o seu pesar, E só vai sem companhia, Que os seus fora elle leixar. Cá quem não leva descanso, Descansa em só caminhar: Descontra donde ia a barca Se ia o Sol a baxar. Indo-se abaxando o Sol, Escurecia-se o ar: Tudo se fazia triste Quanto havia de ficar. Da barca levantam remo, E ao som do remar Começaram os remeiros Do barco este cantar: Que frias eram as agoas, Quem as haverá de passar? Dos outros barcos respondem: Quem as haverá de passar? Senão quem a vontade pôz Onde a não pode tirar, Trala barca levam olhos, Quanto o dia dá logar. Não durou muito; que o bem Não pode muito durar. Vendo o Sol posto contr'elle Soltou redeas ao cavallo Da beira do rio andar. A noite era callada Pera mais o magoar Que ao compasso dos remos Era o seu suspirar. Querer contar suas magoas Seria arêas contar, Quanto mais se alongando Se ia alongando o soar.{27} Dos seus ouvidos aos olhos A tristeza foi egualar; Assim como ia a cavallo Foi pela agua dentro entrar. E dando um longo suspiro, Ouvia longe falar: Onde magoas levam alma Vão tambem corpo levar. Mas indo assi, por acerto, Foi c'um barco n'agua dar, Que estava amarrado á terra, E seu dono era a folgar. Saltou, assim como ia, dentro, E foi a amarra cortar, A corrente e a maré Acertaram-no a ajudar. Não sabem mais que foi d'elle, Nem novas se podem achar; Suspeitou-se que era morto, Mas não é para affirmar; Que o embarcou ventura Para só isso guardar, Mais são as magoas do mar Do que se podem curar.

Romance que vem na Ecloga 5.ª ao qual se chamou Cuidado e Desejo.

Ao longo de uma ribeira, Que vae polo pé da serra, Onde me a mi fez a guerra Muito tempo o grande amor, Me levou a minha dôr; Já era tarde do dia,{28} E a agua d'ella corria Por antre um alto arvoredo, Onde ás vezes ia quedo O rio, e ás vezes não.

Entrada era do verão, Quando começam as aves, Com seus cantares suaves Fazer tudo gracioso; Ao rugido saudoso Das aguas cantavam ellas; Todalas minhas queréllas Se me pozeram diante; Ali morrer quizera ante, Que ver por onde passei; Mas eu que digo? passei! Antes inda heide passar Em quanto hi houver pezar, Que sempre o hi hade haver.

As aguas, que do correr Não cessavam um momento, Me trouxeram ao pensamento, Que assim eram minhas magoas, D'onde sempre correm aguas Por estes olhos mesquinhos, Que têm abertos caminhos, Pelo meio do meu rosto. E já não tenho outro gosto Na grande desdita minha. O que eu cuidava que tinha Foi-se-me assim não sei como, D'onde eu certa crença tomo, Que pera me leixar veiu.{29} Mas tendo-me assim alheio, De mim o que ali cuidava, Da banda d'onde a agoa estava, Vi um homem todo caã Que lhe dava pelo cham, A barba e o cabello. Ficando eu pasmado d'ello, Olhando elle para mim, Falou-me, e disse-me assim: «Tambem vae esta agoa ao Tejo.»

N'isto olhei, vi meu Desejo Estar detraz triste e só, Todo cuberto de dó, Chorando, sem dizer nada, A cara em sangue lavada, Na bocca pósta uma mão, Como que a grande paixão Sua fala lhe tolhia. E o velho que tudo via, Vendo-me tambem chorar, Começou assi a falar: «Eu mesmo sou teu Cuidado, Que n'outra terra criado, N'esta primeiro nasci. E ess'outro que está aqui É o teu Desejo triste, Que má hora o tu viste, Pois nunca te esquecerá! A terra e mar passará Traspassando a magoa a ti.»

Quando lhe eu aquisto ouvi, Soltei suspiros ao choro; Ali claramente o fôro Meus olhos tristes pagaram{30} De um bem só qu'elles olharam, Que outro nunca mais tiveram, Nem o tive; nem m'o deram: Nem o esperei sómente. De só ver fui tão contente, Que pera mais esperar Nunca me deram lugar. E n'aquisto, triste estando, Com os olhos tristes olhando D'aquellas bandas d'álem, Olhei, e não vi ninguem. Dei então a caminhar Rio abaixo, até chegar Acerca de Monte-Mór. Com meus males derredor, Da banda do meio dia, Ali minha Phantasia, D'antre uns medrosos penedos, Onde aves que fazem medos De noite os dias vão ter, Me saíu a receber Com uma mulher polo braço, Que, ao parecer, de cansaço Não podia ter-se em si, Dizendo:—Vês, triste, aqui A triste Lembrança tua.— Minha vista então na sua Puz; d'ella todo me enchi: A primeira cousa que vi, E a derradeira tambem, Que no mundo vão e vem! Seus olhos verdes rasgados, De lagrimas carregados, Logo em vendo-os, pareciam Que de lagrimas enchiam Contino as suas faces,{31} Que eram, gram tempo, paces Antre mim e meus cuidados. Louros cabellos ondados Que um negro manto cobria: Na tristeza parecia Que lhe convinha morrer. Os seus olhos de me ver, Como furtados, tirou, Depois em cheio me olhou. Seus alvos peitos rasgando, Em voz alta se aqueixando, Disse assim mui só sentida: —Pois que mór dôr, ha na vida, Pera que houve ahi morrer?— Calou-se sem mais dizer, E de mi gemidos dando, Fui-me pera ella chorando Pera a haver de consolar...

N'isto pôz-se o sol ao mar, E fez-se noite escura, E disse mal á ventura, E á vida, que não morri... E muito longe d'ali, Ouvi de um alto outeiro Chamar: Bernardim Ribeiro E dizer:—Olha onde estás.— Olhei de ante, e de trás E vi tudo escuridão, Cerrei meus olhos então, E nunca mais os abri, Que depois que os perdi Nunca vi tão grande bem, Porém inda mal, porém!

Obras. p. 351 ed. de 1852.{32}

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