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Floresta de varios romances

DOM FRANCISCO MANOEL DE MELLO

Reading edition

Romance picaresco, intitulado «Debuxo de Pena,»

Que em portuguez a retrate Me rogou Dona Breitís; Porque tem nojo das côres Dos poetas de Madril. Eil-a vae, escutae, vede, Pois logo vereis se ouvís; Que se não vae para vêr, Vae, ao menos, para ouvir. O cabello é pino de ouro Tanto mais que o Potosy, Que ao pino do meio dia Faz cada dia o sol crís. Apodara-lhe eu a testa A um pedaço de marfil; Mas ella diz d'esse apodo Que m'o deixa para mim. Os olhos são dois soldados Da fronteira ou do Brazil; A quem amor por valentes Deu o habito de Aviz. Trez meninas tem travessas Com as duas que lhe vi,{150} Pois brincando ella com ellas São trez meninas, emfim. Porque são arcos de flores, Me jurou Maria Gil, Lhe comprára para a dança As sobrancelhas sutís. Pestanas tem, não queimadas Por lhe não servir assi, Para uns olhos tão dormidos As pestanas são dormir. Ambas as faces parecem De obra de agulha gentil, Bainha de ambas as faces Em lenço feito em Cochim. Não falemos no do meio Ramalhete de jasmins, Que segundo é lindo, e cheira É ramalhete ou nariz. O carão limpo e luzente Uma pessa é do sitim, Não picado, que picado É só quem tal carão vir. O rostro livro é de caixa Cujas partidas gentís Não viu o Infante Dom Pedro Emquanto andou por ahi. As orelhas fogem ás dores Porque as não querem sentir, Orelhas de mercador Vendendo mais dor assim. A boca d'esta fidalga, Se não vem como se diz A pedir de boca, é boca Que nunca vem a pedir. Que pouco direi dos dentes. Bem que muito dizer quiz;{151} Mas cada dente tem dente Contra a musa mais subtil. Se tomal-a pelo beiço Quer o cravo e o rubi, Ella pelo o beiço toma Mil cravos e mil rubis. Sem falta a moça não come Outro pão, que de ambar gris, Segundo vem perfumados Seus nãos, quanto mais seus sins. Na garganta me deu susto Quando fui e quando vim; Porque co'alma na garganta Sempre a verá quem a vir. O talho de muito inteiro É feito tão sobre si, Que tal me depare Deos No meu feito o meu juiz. Conforme que prende e mata Com olhar e com sorrir, A senhora traz no gesto, Um algoz e um beleguim. Se trez foram como duas Que são duas flores de liz, Lhe tomára as mãos por armas De França o mesmo Delphim. Ouvi que lhe pediu Venus Para pôr nos seus jardins Os pés, que postos em terra Prendem quaes pés de jasmins. Quando pisa, o cravo cheiro, D'onde já disse Merlim, Que pés que assim pisam cravo São pés mãos de almofariz. Senhora Breitís, agora Comvosco vos conferí;{152} Que se este retrato é pouco Far-vos-hei d'estes cem mil; Porque só pinto o que vejo, Não lanço adiante o gis, Senão, dae-me mais que vêr Que eu vos darei mais que rir. Quando empunhando o rifão Faça crêr, como eu o crí, Que a Breitís sempre é das moças Qual das aves a perdiz.

Obras metricas, t. II, p. 219. Edição de 1665.

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