M. QUINTANA DE VASCONCELLOS
Reading edition
Romance da Claridea ao som da harpa da Torre
Todas as vezes que canto Por aliviar minha pena, Segue o pensamente a voz Té chegar á causa d'ella. Lá entre mil alegrias, Que a memoria representa, Tão triste me considero, Que me converto em tristeza. Ser alivio de um mal grande Qualquer gosto, ninguem creia, Que augmente ao contrario ás forças Uma debil resistencia. Rouba o tempo ao mesmo tempo, A musica o animo alegra, E é tão querida de amor, Que amando o mais rudo adestra. Tema do seu doce effeito{153} Prodigiosas experiencias, Nas aves de que é seguida, Nos animaes que deleita. Eu só me afflijo cantando, E todo o bem me atormenta, Que perder vida e memoria São os remedios da auzencia. Tem por mór mal o da morte Nossa fragil natureza; Mas, maior mal ha na vida Se ha memorias, o soffrel-a. Aqui só n'esta prizão, E em meu cuidado mais preza, Estam tão longe de mim, Que nada sei de mim mesma. Lagrimas me tem comsigo Quando a suspirar-me leva, Do que fui tenho saudade, E de ser quem sou me pesa. Viver co'a dôr que padeço Deve ser ventura alheia, Inda que dão desventuras Forças da nossa fraqueza. Mas quem desespera auzente Do bem que amando deseja, Já não tem dor que sentir, E embalde outra morte espera.
Novella da Paciencia Constante.{154}