XXXIX
Reading edition
São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada de edificio legendario!
É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!
Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando, levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena que se lhe approxime.
Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia está clara e completamente serena!
Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos, erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua e sal.
O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do enfermo.
N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.
Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o rosto com um lenço de cambraia.
João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento retira-se para falar com Olympia.
Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e, esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço, entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.
O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!
No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia, Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se para a condessa.
Esta pergunta lhe o que deseja.
—Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se retirem, responde Magdalena.
A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião de ir á copa tomar uma canja de gallinha.
—Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos. Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha, cumpre com este ultimo desejo de teu pae.
—E minha mãe?... e toda a gente?...
—E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer, Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer! Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu divino regaço.
Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna de Mendonça.
—Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que é um segredo que juraste guardar a um moribundo.
Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.
—Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.
—Vou saír.
—Saír?
—Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.
—E essa pessoa... quem é?
—É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto, preparou-se para saír.
Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe; tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.
—Aonde foi Magdalena?
—Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com quem pretendo ficar sósinho.
A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona d'onde momentos antes se havia levantado.
Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de momento para momento ganhar mais tranquillidade.
Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta deixando-os a sós com o conde.
Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.
O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes, convidou-os a approximarem-se do leito.
D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do enfermo.
—Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta contos de réis?
—Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o semblante do conde de S. Luiz.
—Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres, e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe faria?
—Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.
—Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu sua mãe á miseria e á loucura.
—Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração, respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo d'esta tocante scena.
—Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já enfraquecida.
—Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.
—Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!
—E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz, perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.
—Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta que separava os dois aposentos.
Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas commoções.
D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as lagrimas.
—Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.
—Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e sua filha.
—Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes extendeu com amizade.
As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!
—Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.
Esta ficou immovel!
Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste arrancar esse diadema que te corôa?
Momentos depois, retiraram se todos do quarto.
O conde ficou em estado de profunda atonia.
Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos labios descorados de Magdalena.
Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa, Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o commendador e o banqueiro.
—Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.
—Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.
Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a respiração.
—Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto extremecido.