XXXIII
Reading edition
Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua do Meio.
Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam. Era Monica!
Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.
—Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas! exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado! Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo tim tim por tim tim!
—Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do porte-monnaie, e entregando-as na mão da beata, escusa de se incommodar mais por minha causa.
—Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso, continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.
—Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e, fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.
Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores? Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!
O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.
Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!
—Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.
A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!
—Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas, cumpre-me falar com Martha.
—Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.
—Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.
—Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de Almeida.
—Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.
—E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.
—Sei.
—Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...
—Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.
—O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!
—Como se chama elle? perguntou Magdalena.
—Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz enfraquecida.
—E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.
-Alvaro de Mendonça...
—Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e occultando o rosto entre as mãos.
—Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida! Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não contar tudo!
—É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons, concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?
Marianna não sabia que responder!
—É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da infeliz!
—Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz senhora, que não pensava senão em ver seu filho!
—Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de encontro ao coração! Agora que lhe perdoou, vou buscar seu filho, e trazel o aqui mesmo.
Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a comprehender.
Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu para o hospital.
No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades dirigia-se para bordo.