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O Conde de S. Luiz

XXXIV

Reading edition

«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae. Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote, e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido, mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as suas horas.»

N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae, como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.

Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli estivera seu pae.

—Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para o paço, afim de agradecer a sua magestade.

—E Olympia?

—Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas, que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz pena que esteja no hospital!

Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos d'aquella innocente gallinhola.

—Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.

—Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.

—É muito bonito! não achas?

—Muito bonito!

—Estiveste em casa de Martha?

—Estive.

—Vae melhor?

—Muito melhor.

—Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao teu gosto, disse Olympia dissecando a carcassa da avesinha.

—Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de Mendonça.

Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!

D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade, contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo quanto havia de mais valioso para o seu coração!

Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que tão anciosamente buscava!

Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D. Marianna de Mendonça.

Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos, porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de um roubo.

Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena, diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!

Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto, lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!

Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.

—Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.

—Doe-me a cabeça.

—Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.

Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou no trem e mandou seguir para Alcantara.

«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura, pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para sua intermediaria? Que poderei receiar?»

Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de Obidos.

Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera Esperança.

Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.

Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.

Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua ventura!

Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e infructiferamente havia buscado!

A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada. Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.

Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.

—Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella, olhando tristemente para a galera.

Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.

Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha, Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.

Manuel não sabia que pensar.

Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria a causa d'aquelle mysterio.

Chegaram finalmente á rocha.

Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns instantes.

—Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais precioso sobre a terra.

Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.

—Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro que seguisse para a rua do Meio.

Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e acompanhou a carruagem de Magdalena.

Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.

Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.

A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!

—Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e, abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por Manuel de Mendonça.

Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade de sensações.

Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta scena ao lado da mulher de Jeronymo.

Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade! Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a face de beijos e lagrimas de gratidão!

—Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?

—Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.

N'este momento, Martha chamava por sua mãe.

Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.

—Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem notar a presença de Magdalena.

—Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito e beijando-a na face.

—A sua! exclamou ella. Eu suppunha...

—O quê?

—Que era...

—A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje pedil-a a seu pae.

Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço de Magdalena.

Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração, abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!

—Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D. Marianna de Athayde!

—Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma palavra do que acabava de ouvir!

—Sim, ao filho da sua amiga Marianna.

—Então Manuel de Mendonça é...

—Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.

Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de beijos!

Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.

Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?

—Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena retirou-se, caminho do hospital.

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