XXIII
Reading edition
Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.
São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda continúa a chuva.
Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna parece acompanhal a nas suas tristes meditações.
—Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.
—Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.
—A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle, voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á esposa do operario.
—E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se para seu marido.
—Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é que ninguem me póde negar.
—Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste, respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.
—Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna voltando se para o operario.
—Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?
—Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a nossa filha.
—Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.
—Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!
—Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.
—A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e companheira.
—Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe. Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa, não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo assim, não vejo desegualdade de pessoas.
—E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...
—Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.
—Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos meios para a ter visto.
N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.
—Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha, quando Martha se apeava do trem.
—Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde aquillo vae parar.
—Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir informações a seu respeito.
—Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?
—Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.
—Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem. Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....
—Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha, mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos tristes.
Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.
Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.
A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.
—Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o ternamente na fronte.
—Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos; onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem, filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.
Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna tinham se afastado para occultarem as lagrimas.
Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.
—Que me respondes, Martha? continuava o operario.
—Que lhe posso eu responder meu pae.
—Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.
«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como uma louca.
«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!
«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.
«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario principiou a amal-o em silencio!
—Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.
«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr assim.»
—Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a com os olhos cheios de lagrimas.
Martha não proferiu uma palavra.
—Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.
—Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector! Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo desanimada nos braços de seu pae.