XXVI
Reading edition
—Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do hospital.
—A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão.
—Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me fala ou não.
—Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me importunar mais.
—Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.
—Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta, voltando-se de novo para o porteiro.
—E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão, voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte impertinente! cruzes, canhoto!
—Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande, então...
N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou apressadamente no hospital.
—Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica, e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou, disse a beata, perseguindo a mulher.
—Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a escadaria.
—Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima?
—Pois veremos quem vence—se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.
Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.
A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o ensejo lhe fosse favoravel.
A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou na sua constante operação.
Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.
Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para ella lhe fugia!
—Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.
—Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se para mim.
—Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.
—Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã, quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.
—E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida.
—É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais de quinze dias que não sae de bordo!
—Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver!
—Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:—Ha tempos estando eu na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.
—E o que lhe respondeu, tia Monica?
—Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas? Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria aberto para dizer similhante coisa!
—Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?
—Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e ella pagando-lhes assim!
—Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.
—E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça, possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario, tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um operario: só se fosse para ser sua criada.
—Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis, para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu, Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia Monica!
E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!
Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!
Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de neve!
Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o desejam ser!
Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras. Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.
Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle coração, immenso como a agonia que o dilacerava!
—Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber, custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou se por ultimo se encontram.
—E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.
—Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o coração.
—E se não se amam! insistiu a velha.
—Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando depois algumas moedas de prata de dentro de um porte-monnaie, entregou-as á tia Monica.
—Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.
—Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.