XXXVIII
Reading edition
O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo visconde.
Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde de S. Luiz.
São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!
A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia alguns annos se estorcia.
N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
—Que entre, disse o conselheiro.
Minutos depois, entrou o visconde.
O fidalgo vinha pallido como uma estatua.
—Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro fitando o rosto do seu amigo.
—Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.
—Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!
—Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...
—Morreu Olympia de alguma indigestão?...
—Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.
—Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que isso!
—O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o peior foi o que me disse agora a condessa...
—O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.
—Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae morrer.
—Respiro! disse emfim o conselheiro.
—Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.
—Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.
—Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que eu era amado por ella?
—Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse convento e não a deixares entrar.
—É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe vae abrir a sepultura!
—Não comprehendo, murmurou o conselheiro.
—Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral, julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?
—Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou elle mudando de tom.
—Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...
—Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um convento?
—Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na embriaguez...
—Mau systema, respondeu o conselheiro.
—Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade do conselheiro.
—Dize, respondeu este fleugmaticamente.
—Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por mim, lembra-te...
—Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas, completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem completamente denunciadas.
—Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
—Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
—Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás suas profundas reflexões.
«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.