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O Conde de S. Luiz

XXXII

Reading edition

Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino dos justos com o passaporte de uma retribuição!

Manuel subiu á montanha.

Magdalena não faltára.

—Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de Mendonça, approximando-se.

—Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou, visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder, porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.

—Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.

—Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?

—Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a perturbar-se.

—Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive, o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.

—E essa causa é?... perguntou Manuel.

—Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!

Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada, tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.

—E onde existe esse homem que a póde salvar?

—Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. Manuel de Mendonça!

—Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.

—Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é, porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer mulher.

Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe concedesse a sua mão para a filha do operario.

Manuel não respondeu!

E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!

—Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel? Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim livre curso ás suas lagrimas.

—Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente para Magdalena.

—Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!

—Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.

—Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho a cumprir.

—E essa missão, é?..

—Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o tanto, tanto como eu seria...

Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.

E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como concerto infernal!

Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a mão de sua filha.

Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu do passeio.

Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio dirigiram-se pela rua da Boa Morte.

—Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.

—Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para que haviamos de ter vindo a Lisboa?

Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.

O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria incapaz de o revelar.

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