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O Conde de S. Luiz

XIV

Reading edition

Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa, encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.

A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.

Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.

Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.

Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.

Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.

A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.

Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á janella a criança que volve ao lar.

Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.

E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem esperal-o inquieta.

Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.

Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples navegante.

Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia começado no hotel Europe.

—Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro. Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos escuta.

—O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir, parece que é acordar n'um tumulo.

—Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida em ir procurar essa familia da minha parte?

—Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o sitio onde tenho de me dirigir.

—Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da saude de Jeronymo.

—É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.

—É só isto.

—E o sr. fica á minha espera, aonde?

—A bordo.

—Volto portanto aqui?

—Já se vê.

—Quer que vá já?

—Quero.

—Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o marinheiro.

—Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.

—Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na melancolica physionomia do seu commandante.

—Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás mysteriosas influencias do amor!

—Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa serena.

—Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de nenhuma tormenta.

—Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante, disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do seu capitão.

—Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.

Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.

—Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.

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