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—Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.
—Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde approximando-se de Tristão.
—Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo, como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha procura por toda a parte.
—Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.
—Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao mesmo tempo uma dolorosa contracção.
—Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se ao mestre de obras.
—É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle, levando á fronte ambas as mãos.
—Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos immediatamente chamar a sua familia.
—Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde dirigindo-se para a porta.
—Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.
—Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.
—Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.
N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas duas filhas.
—Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.
—Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os seus grandes olhos azues.
—Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para Olympia.
—Talvez que nem hoje tivessem que jantar.
—Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo, e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou ella dirigindo-se ao esposo.
—Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador intromettendo-se na conversação.
—Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.
—Do hospital?! perguntou admirado o commendador.
—Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?
—Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um pequeno sophá.
N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido seguia-as de perto.
No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o completamente.
Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.
O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse acudido á memoria.
O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era estranho.
Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua familia tudo quanto tinha acontecido.
O mesmo fez Balbina e sua filha.
—É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou elle extendendo a mão ao desconhecido.
Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.
—Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.
—Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.
—Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.
—Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.
—Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.
—N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os elogios de que é merecedor.
—Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?
—Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é incenso.
—Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam offender? perguntou o visconde.
—Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção, respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.
—Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou sentindo uma fraqueza...
—Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em comer.
—Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se vermelha como a fita que lhe cingia o collo.
No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em voz baixa n'um dos angulos do quarto.
—O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria. Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.
Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.
Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as palavras de Tristão como se não as comprehendessem.
—Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza, ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que assombrada.
—Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda approximando-se do visconde.
—Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos da pobre Martha.
—Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente, disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.
—Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus hospedes, saía do quarto de Jeronymo.
—Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!