XXXVI
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Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D. Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes a mão de sua filha.
Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas, para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que lhe mereciam a honra da sua amizade.
O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença», todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.
A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.
—Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma cadeira para si.
A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.
—Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso, parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.
O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia, debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o havia trazido. A condessa não lh'o permittia!
—Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude, tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.
—Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o repetir.
—Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa, approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.
—Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.
—Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o cordão da campainha.
—E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?
—Não o comprehendo, sr. conselheiro.
Este occultou a custo um sorriso.
—Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima filha?
—Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...
N'este momento appareceu um criado.
—Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua mãe.
O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!
D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.
—Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É muito gulosa esta minha filha.
A criada retirou-se.
—O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.
—Sim?
—É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.
—Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala, deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que adornavam as paredes do gabinete.
«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que, apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na sociedade de Lisboa.»
N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.
Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas terriveis consequencias de uma gastro enterite!
Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento, deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!
—Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas, estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.
O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte de reconhecida ventura.
—Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma, accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da nossa familia.
—A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...
—Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais migalha menos migalha deve cá estar. Não falte pois, accrescentou ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os olhos de Olympia, até que se retirou.
—Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz voltando-se para sua filha.
—É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de vitella.