XXXI
Reading edition
No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça resolvia procurar informações de Martha.
—Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a Mascatudo.
—Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...
—Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.
—Ia saber d'aquella pobre menina.
—Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração; porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.
—Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo quanto a seu respeito ouvi dizer.
—Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.
—E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?
—E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha era irreprehensivel?
—Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua companhia...
—Da melhor vontade e até me fazes muito favor.
Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se para a rua do Meio.
—Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar mais algumas informações.
—Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu placidamente Manuel de Mendonça.
Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo fugisse a mais investigações?
Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal monta não nos julgamos habilitados.
Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração amigo se lhe approximava.
Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
—Que devemos fazer? perguntou Manuel.
—Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa derrota, respondeu Mascatudo.
N'este momento passava uma carruagem.
Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.
Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os cavallos.
Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!
Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a Manuel para que se approximasse.
—Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre Martha; não o faça sem primeiro me falar.
—Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça, reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.
—Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança, accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.
—Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.
—Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.
Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.
—Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de Manuel de Mendonça.
Manuel contou-lhe o que se havia passado.
—E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.
—Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?
—Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.
Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e seguiu para o passeio da Estrella.
—Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as portas do passeio.