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O Conde de S. Luiz

XVII

Reading edition

—Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente... e comtudo não me sinto com valor.

—Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu olhar um não sei quê, que me prendeu!

—Será isso uma illusão da tua parte?

—Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria com que o senhor lá fosse...

—Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a conversação de Mascatudo.

—Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que alguma coisa se passava no seu coração.

—Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina: iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança, no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.

Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em companhia de Mascatudo.

Dirigiu se ao hotel.

Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a realização dos seus desejos!

Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.

Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.

A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os contemplava!

Martha ficou immovel!

—Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina, extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.

Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas aquella mão que se lhe offerecia.

—E como se sente?

—Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma cadeira.

Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado do enfermo.

Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.

Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua familia.

—E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.

—Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza. Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela febre, hospital de que meu marido é o encarregado.

—E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais possivel por mim, ajuntou Jeronymo.

—Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel dirigindo-se a Martha.

—Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora para Manuel, ora para a mulher e para a filha.

—Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer! disse Balbina visivelmente reconhecida.

—É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.

Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.

Eram Tristão e o visconde.

—Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã por estas horas—graças á actividade do sr. visconde—já devem começar os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em Manuel de Mendonça e Mascatudo.

Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.

—Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde dirigindo-se a Martha.

—Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça, accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu aonde estava meu pae.

—Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.

Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente o fixaram n'aquelle momento.

O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante os não illucidava!

O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.

A Mascatudo não lhe passou desapercebido.

—Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.

Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de Mendonça.

—Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça, referindo-se a Tristão de Almeida.

—Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto aquelle individuo, aonde não me recordo.

—O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não engano, tambem o senhor não lhe era estranho.

—O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em Tristão mais do que o protector de seu marido.

—Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de Jeronymo.

—Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que principiava a sentir no coração.

—Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e promettendo-lhe voltar no dia seguinte.

—Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o pateo do hotel.

—Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia do operario.

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