← Table of contents
O Conde de S. Luiz

XI

Reading edition

Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario, debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella imagem que o perseguia.

«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um capricho de phantasia?

«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas, e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da tua existencia.

«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.

«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco, bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.

«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir? Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe. Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube vencer.

«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!

«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?

«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»

N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.

—Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.

Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou no gabinete.

O homem chamava-se Luiz, por alcunha o Mascatudo.

A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar tudo quanto lhe apparecesse.

Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio o arrastava:

N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa planta que começava a escassear-lhes.

Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!

Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.

—Forte velhaco! diziam uns.

—E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos havanos!

—E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por elle um mez da minha soldada.

—Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.

—Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.

E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.

Finalmente chegaram a Macau.

Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse afim de o acompanhar a terra.

O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as ordens do commandante.

Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher completamente franjado.

O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.

Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.

O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam com que todos o estimassem.

Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro de perigos.

Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo, como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade, entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!

Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.

Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.

Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.

—Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado a vir a Portugal.

-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios que atormentavam a sua alma.

—Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?

—Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei como hei de chamar?

—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)
—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)

—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)

—Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo. Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro, açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma, resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.

O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto amado, era mais uma prova do seu amor.

Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.

—Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings