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O Conde de S. Luiz

XXX

Reading edition

Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê que sua magestade acabava de lhe offerecer.

—Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma condessa! Que te parece Olympia?

—Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra, respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe.

—Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!

—É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te a cabeça, Magdalena?

—Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.

—Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.

—Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D. Maria Egypciaca.

—É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?

—Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso.

—Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.

—Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.

D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.

—Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma cadeira á voltaire.

—Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do prazo de um mez.

—Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas palavras que escutava.

—Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que ninguem será capaz de me afastar.

—Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor do que tua mãe poderá ser tua confidente.

—Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar, respondeu-lhe serenamente Magdalena.

—Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.

—Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada, accrescentou Magdalena sentando-se no sophá.

—Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na sociedade, é que te queres retirar a um convento?

—Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me sob os tectos da sua habitação.

—Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.

—Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha resolução.

—Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua magestade de nos offerecer o titulo.

—Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.

—Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de teu pae.

—Que desconfianças? perguntou Magdalena.

—Que amas...

—Eu?

—Tu, sim...

—Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.

—O visconde de Coruche!

—Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem seria capaz de amar o visconde.

—Assim me queres convencer...

—Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.

—Então outro homem?

—Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.

N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de Almeida.

Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto! Julgou-a atacada pela febre.

—Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto regozijo, a tua filha...

—O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher.

—Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.

—Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle, voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!» Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!

—A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:

Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.

—Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de quatrocentos contos?...

—O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.

—Peço-lhe portanto um favor, meu pae.

—Dize.

—É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que a anniquila.

—Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...

É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que havia experimentado na vida era o amor por sua filha!

—Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos de Magdalena e levando-as junto ao coração.

—Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos braços!

—Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou voltando-se para Magdalena.

—Já vamos, respondeu esta.

—Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.

—E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão depois de alguns momentos de silencio.

—É Martha, a filha de Jeronymo.

—Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.

—Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e dirigiram-se á casa do jantar.

Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro Poderosa.

O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no semblante.

Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude, pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.

Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha encarregado.

No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao titulo.

—Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso encontrava os olhos do conselheiro.

N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão, approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.

A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite.

Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.

O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia, começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.

Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.

D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.

Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de Manuel de Mendonça.

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