MORREU A MINHA POMBINHA
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Pombinha, morrestes! Oh! meu portador! Que os ternos recados Levavas a meu amor. Do pombal que tanto amava Uma pombinha eu tirei, E logo em breve tempo A pomba domesticei. Que carinhos lhe fazia! E beijinhos que eu lhe dava Quando seu tenro corpinho Junto a mim repousava! Querendo experimentar Esta singela avesinha, Lancei-lhe ao collosinho Muito pequena cartinha.{39} Esperei que ao longe Visse a companheira, Que a conduzisse Em esta carreira. Já solto girava O ente voador, Eis que dirigir-se Vejo vae ao amor. Qual soldado que no posto Observa com cuidado, Assim eu observava Se levava o meu recado. De repente eis que assoma E retorna mui ligeira A cortar veloz os ares Esta alada mensageira. Que goso, ah! eu não tive Ao ver-lhe no pescocinho, D'esta alada portadora Pendente novo escriptinho! Beijei-o, li-o e reli-o Esses caracteres amados, Que vieram dissipar Os meus pungentes cuidados. Porém não tardou a mudança D'este meu contentamento. Que passou em continente Para o maior soffrimento. O caso é: N'um telhado Á mira e de embuscada,{40} Um furioso bichano Pilhou a pomba estimada. Para seu amo a levou, Sem falta; com evidencia. Elle veio a conhecer A minha correspondencia. Guardou da acção o segredo, Posto não ser homem bom, Pois que foi procurador E hoje é escrivão. Que a caçar passarolas Elle tinha ensinado, Linguinhas más annunciam Que ao gato no seu telhado. O caso seja qual fôr, Remedio elle não tem. A pombinha que levava Minhas noticias tão bem. Ó menina só terás Em o meu peito morada, Que, servindo-te d'abrigo, Em elle estarás guardada. Quando triste te não vejo, Existencia amargurada, Passo eu; sem companhia O meu coração é nada. A florinha que me déstes Em meu peito deu entrada, Nunca vi coisa mais linda, Mais perfeita e delicada.{41} Adeus, amorzinho meu De mim que és tão amada, Não te esqueças de fallar-me Cedinho, de madrugada.