SCENA VIII
Reading edition
Os mesmos, Joaquina e Ruy
Marqueza
Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes com tua mãe?
Talitha
Sonhava!
Marqueza
E o sonho que dizia?
Talitha
Tanta coisa, mamã! Quando os nossos revezes nos vinham perturbar, desde o romper do dia até o anoitecer, pensava em ti, mamã, e, sem dormir, sonhava até pela manhã.
Marqueza
Mas revezes de quem?
Talitha
Desta immensa tristeza que vinha atormentar a vida de pobreza
baixo, quasi em segredo
do nosso Padre Cura...
Marqueza
E o Padre Cura é pobre?
Talitha
Muito, muito, mamã, mas tão bom e tão nobre que nunca pude ouvir um lamento, sequer!
Marqueza
D'hoje em diante, porém, não faltará mais nada: será de todos nós aquillo que eu tiver. Tu és rica, Talitha, e d'alma bem formada, por certo acudirás de todo o coração por que não faltem mais nem ventura, nem pão a quem te fez gentil, tão boa e generosa...
Talitha
Muito rica, mamã?
Marqueza
Que te serve saber?
Talitha
É que o velho sargento acaba de morrer deixando na miseria immensa e dolorosa os netinhos com fome. O velho era céguinho! muita vez o encontrei mendigando, sósinho, para matar a fome e, se eu hoje sou rica, só este pensamento a dôr me purifica e, se tu dás licença, o Ruy vae procural-os.
Marqueza
Pois sim, minha Talitha, irás tambem buscal-os; que sejam teus irmãos já que assim o quizeste. Mas dize, o Ruy quem é? Inda não m'o disseste...
Durante este dialogo as duas não poderão vêr as demais pessoas, enlevadas como estão. Ha sorrisos em todos.
Talitha, perturbada
O Ruy?...
Baixa os olhos, sorri e cala-se
Marqueza
Sim, sim o Ruy...
Talitha, enleada
O Ruy é um doutor... Quando eu estive céga... Eu era tão céguinha!... Elle tratou de mim e fez a operação...
Marqueza
Só?!
Talitha
O resto não conto...
Marqueza
E porquê?
Talitha
Adivinha!
Marqueza
E não furtou tambem o teu primeiro amor?
Talitha
Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar, eu dei-lhe o coração...
Marqueza
Mas depois de casar deixarás tu sósinho o velho Padre Cura?
Talitha
Nem eu quero pensar em tamanha loucura. Viveremos aqui juntinhos da Joaquina que sempre me guiou, do tempo de menina.
Marqueza
Pois vae dizer ao Ruy que tua mãe quer vêl-o.
Talitha, soltando-se do pescoço da mãe, sorrindo alegremente.
Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello... Ruy! Ruy!
Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraçada e cobre o rosto com as mãos.
Meu Deus, que susto!
Padre
Ouvimos tudo, tudo!...
Marqueza, voltando-se
Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo... A culpada fui eu...
Ruy, surprehendido
Ah! Senhora Marqueza!
Marqueza
Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza o vêl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou em busca deste céo tão puro que o salvou. Previ toda esta scena e quando aconselhei que viesse até cá, senti que palpitava o meu seio de mãe. Já vê que adivinhei e o meu presentimento o bem me segredava...
Talitha, admirada
Mamã, tu és Marqueza?
Silencio prolongado
Marqueza
A Marqueza morreu... Agora sou a mãe da mimosa Talitha que vem pedir perdão a quem assim soffreu dessa magua sem par, dessa dôr infinita, que tanto fez chorar a tua mocidade, as lagrimas febris e negras da saudade. Agora sou a Mãe que um dia te engeitou e que uma vida inteira a dôr acabrunhou, que vem pedir perdão ao velho Padre-Cura do quanto padeceu para te dar ventura, que vem agradecer á santa da Joaquina, os beijos que te deu quando eras tamanina, que vem pedir a Ruy o supremo favor de dar á sua filha o seu primeiro amor...
Ruy
Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola do casto coração da candida Talitha, como um beijo de luz que conforta e consola a dôr da minha vida. O peito me palpita na suprema alegria e eu penso na alvorada desta noite feliz, de lucido natal, bemdizendo, Senhora, a dôce madrugada que vae surgir em breve.
Talitha
Ao despontar o dia vamos todos buscar os netos do sargento... Tu concordas, mamã?
Ao Cura
Acha que faço mal?
Padre
Para ti, minha filha, a madrugada é fria. O Ruy irá commigo e apenas num momento as creanças virão: descança, pequenita.
Marqueza, a Joaquina
Repare bem, Joaquina: este casal catita como envelhece a gente!
Joaquina
E Deus Nosso Senhor lhe dê por toda a vida o seu sagrado amor!
Padre
Já toca á missa d'Alva...
Ruy, a Talitha
Estrella d'Alva, pura, immaculada estrella, o céo desta ventura estende sobre nós a cupula sagrada e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada que faz de ti, creança, a dôce Conceição do meu culto feliz, purissimo e christão.
A Joaquina
Um dia, bem me lembro, a sua mão amiga mais trémula e subtil do que uma branca estriga ás aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario da sua alma de santa, entregou-me um rosario. Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflicção esse rosario amigo encheu-me o coração duma frescura immensa e assim se dissipou essa nuvem cruel que sobre nós passou... Quero beijar a mão da santa que me deu nesse rosario astral uma visão do céo: a flôr que se banhou na sua fé divina, bondosa creatura, alvissima Joaquina!
Beija-lhe a mão. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental.
Padre
O dia vae surgir, o sino da capella convida-nos á missa. Ali pela janella já vem a madrugada entrando alegremente num baptismo de luz que brota do nascente.
Talitha
Meu Deus, como é feliz a minha mocidade! Rasgou a mão de Ruy a dôce claridade ao meu perdido olhar, depois a mãe de Deus envia-me o perdão do fundo azul dos céos: e, dando luz á céga e vida á condemnada, entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada do Natal de Jesus, a minha Mãe distante. Meu Deus, como é feliz neste sereno instante
a Ruy
a nossa mocidade ao pé desta velhice tão boa e tão leal! Antes que alguem cobice esta aurora de amor que ao céo nos avizinha eu vou rezar por nós uma Salvé-Rainha:
Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio; ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de pé.
Talitha
Salvé, Rainha Mãe, céu de misericordia, vida e doçura, amor, luz da nossa esperança, lançae por sobre nós o manto da concordia. Salvé, Rainha, Mãe serena de bonança! A vós, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos, por vós que estaes no céo, gemendo, suspiramos, neste valle de magua e dôr. Eia, Senhora! Sêde a divina Mãe, a dôce protectora da nossa vida inteira e para nós volvei esse olhar piedoso e tão cheio de luz! Sobre o nosso destino a vossa mão pendei, rasgae a nossa dôr, mostrae-nos a Jesus, fructo do vosso ventre, ó sagrada e clemente, ó Virgem dôce e casta, ó candida innocente! ó Santa Mãe de Deus, ouvi a nossa voz tão simples e fiel, rogue no céu por nós, por que sejamos bons e dignos da promessa do moreno Jesus. Que a nossa vida aqueça o materno calor da estrella de Bethlem, á luz do vosso olhar, por todo o sempre.
Padre
Amen!
CAE O PANNO