SCENA IV
Reading edition
Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes
O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta.
Padre, fingindo que não vê e fallando alto
Raparigas, entrai, a noite é de alegria...
Talitha, surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz
Tem razão, meu padrinho, nossa phantasia deve expandir-se agora...
Padre, com caricia, baixo a Talitha
Assim, aos beijos, não...
Talitha
Quem poderá conter o nosso coração?
Ás raparigas
Raparigas, cantae! A céga já tem vista; que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista; a freira, que devia entrar para o convento, teve hoje a redempção do seu cruel tormento!
Um rapaz
Viva a céguinha!
O grupo
Viva!
Outro rapaz
E mais o Padre Cura! Viva!
Uma rapariga
Viva quem fez este milagre!
O grupo
Viva!
Um rapaz
E a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?!
Todos
Viva!
Joaquina
Muito obrigada!
Ruy
Olha como é altiva!
Padre
Raparigas, dançae!
Ruy, a uma rapariga
Pois cante a cotovia, e vibre essa garganta até romper o dia...
As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma cadeira, observa alegremente a scena.
Uma rapariga
Quem deu espinho ás roseiras não teve muita razão, antes désse ao coração, como deu ás Tarangeiras. Deus que creou tantas flôres fez as estrellas aos centos: não dorme quem tem amores, que os amores são tormentos.
Segunda rapariga
Toda tu pareces feita com a cêra das abelhas, quando alguem d'aqui t'espreita ficam-te as faces vermelhas.
Primeira rapariga
Quem ao pé do Sol caminha anda sempre com calor, Quem á lua se avizinha póde até crear bolôr. As tuas tranças são pretas, pareces de cêra mol, não te abeires muito ao sol, olha lá não te derretas...
O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e encaminha-se para o grupo:
Padre
Tambem eu quero entrar na dança, raparigas, e ser como a papoila em meio das espigas!
Primeira rapariga
Viva, viva o Sr. Cura, que é o paesinho desta aldeia, que tem a alminha mais pura, mais alva que a lua cheia.
Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que cessam os guizos denunciativos de um carro que parou á porta. Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de physionomia que todos os circumstantes percebem.
Padre
Um carro, Santo Deus!
Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as mãos em oração.
Ruy, acudindo
Senhor Cura, que tem?
Ouve-se bater de novo
Padre, pensativo
Ha tantos annos já!
Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente.