SCENA VI
Reading edition
Talitha e Ruy
Depois de uma pausa prolongada
Talitha, sempre pudica
Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.
Ruy, caminhando para ella
Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar, como um rio de luz suavissima, innundar a minha mocidade inhospita e sombria, num banho redemptor de dôce calmaria. E parece-me vêr a sombra avelludada da sua fronte branca, e pura, e macerada, fugir espavorida á luz desse clarão...
Talitha
Que eu devo tão sómente á sua compaixão...
Ruy
Esqueça que fui eu...
Talitha, interrompendo
Não sei como se esquece...
Ruy
Então recordará, por toda a sua vida, o nosso amor feliz?
Talitha
A sua alma duvida?
Ruy
Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece quanto minh'alma tem de puro sentimento...
Talitha, curiosa
Na sua prece?
Ruy
Sim, tão cheia de fervor como a casta oração que a sua crença augusta soluça de manhã, mais triste que um lamento, que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor, no murmurio subtil dessa bocca venusta.
Talitha
Eu nunca olvidarei a dulcida ventura daquella noite densa, atormentada, escura, em cujo manto negro a sua mão bondosa rasgou a dôce aurora alegre e luminosa... O caridoso amor, que os seus labios deixaram gravado nesta mão que tanta vez beijaram, foi um sonho feliz numa noite polar, sonho de primavera em noite sem luar: nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças. Como um beijo de mãe na face das creanças, a primeira affeição nunca se desvanece, é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce! Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!
Ruy
Talitha, minha vida, a densa cataracta não poude escurecer a lucidez suprema da sua alma christã, que vale um diadema de rainha e de santa, a cujos pés se inclina a minha alma que vae sobre a esteira argentina que o seu vestido traça ao longo da jornada, como no azul do mar as velas da jangada...
Talitha
E se a vela, batida ao vento da desdita, levar á sombra eterna essa infeliz Talitha que a sua mão salvou da mesma sombra eterna?
Ruy
Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna e o nosso amor levar a gondola encantada, sobre o dorso da vaga em branca espumarada, eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa que o seu divino olhar de candida sereia ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou. Se o vento arremessar a vela que enfunou á rude penedia e sossobrar a barca, hei de salvar, então, a pequenina arca, onde vive encerrada a pomba da alliança, que faz do nosso amor uma alegre esperança!
Talitha
Apenas esperança, e nada mais! A vida é um sonho que passa e foge; perseguida, occulta-se a esperança á sombra de um asylo, tão occulto tambem que, para descobril-o, desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços, desapparece e vae, por esse mundo fóra, como nuvens no céo ao despontar da aurora...
Ruy
Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos não poderão florir, alegres e risonhos, á plena luz do Sol?
Talitha
Sonhos são illusões que a madrugada esbate em limpidos clarões, e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas irão fazer o ninho á sombra... As andorinhas tem que mudar de clima ao começar o inverno, levando para longe o seu amor materno... A minha acostumou-se á sombra da cegueira: se na sombra passou quasi uma vida inteira! Na sombra adormeceu, na sombra soluçou e na sombra sorriu... A sua mão rasgou este sulco de luz no meu perdido olhar, e a triste, acostumada á sombra tumular, fugiu espavorida ao lucido lampejo e tão distante foi, que nem sequer a vejo...
Ruy
É o receio infantil que vem da escuridão! A esperança, Talitha, ainda um só instante não sahiu do calor que faz do coração o ninho aconchegado, o berço palpitante e o sacrario fiel do nosso casto amor! Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha, é o perfume do amor, a essencia que dormita serena e só desperta ao carinhoso afago dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...
Talitha
Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado no fervor da oração, em dia torturado, prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar. Entre nós dois agora eleva-se um altar, e eu vejo-me prostrada e envolta no burel, sorrindo para o céo, por ter sido fiel á promessa que fiz...
Ruy
E o nosso amor, Talitha, não foi uma promessa?
Talitha
Ah! foi, mas a desdita lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu e o nosso puro amor agora feneceu.
Ruy
E a tua mão divina, angelico florão de algum ciborio astral, a tua mão de rosa e jaspe é que me vem ferir esta affeição que banhava em frescor a vida bonançosa deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia, á sombra do mosteiro, a tua phantasia volver para o passado esse formoso olhar tão cheio de candura e te fizer sonhar; quando a espiral do incenso á curva do docel subir da tua mão occulta no burel, como a dôce expressão duma saudade immensa; quando á noite o luar, vencendo a treva densa, entrar na tua cella e fôr beijar-te a face, como se por ventura envolta nelle entrasse a minh'alma saudosa a visitar a tua: quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua a pureza vestal da tua castidade, sorrindo, remontar á dôce claridade das estrellas no céo, minha gentil Talitha, recorda o nosso amor, formosa cenobita, e pensa na tortura intermina e profunda desta vaga de fel que a minha vida innunda, medita nesta noite atroz, que me apavora, e tu me dás em paga a fulgurante aurora que o meu amor te deu, sorrindo de ventura... Bemdita seja a treva, a noite de amargura, bemdita seja a dôr, para sempre bemdita, que vem da tua mão, angelica Talitha!
Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy.