SCENA I
Reading edition
Joaquina e Ruy
Joaquina
Louvado seja Deus! Como está bello e forte!
Ruy
É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra encheu-me novamente o coração de alento. Posso dizer que entrei neste bondoso lar vigiado, sem dó, pelos olhos da morte. E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra, as aguas desta fonte, o sadio alimento, o seu cuidado santo, amigo e tutelar, fizeram-me robusto.
Joaquina
E Deus não lhe fez nada?
Ruy
Foi elle quem salvou a minha mocidade, porque a divina mão que fez os céos e os montes, que deu flores á terra e deu frescura ás fontes, que faz vibrar a luz e a voz da passarada, que impelle a nuvem branca em plena immensidade, um dia vos creou as almas caridosas que vivem nesta casa, humildes e serenas, felizes com o Bem, suaves como as rosas, mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!
Joaquina
Então, menino, crê tambem que Deus existe?!
Ruy
De certo, minha amiga.
Joaquina
E não é um hereje, dessa raça maldita e negra que desmente as obras do Senhor?
Ruy
Ingenua creatura! É tão alegre a crença e não crêr é tão triste, que mesmo sem querer o coração da gente acredita num Deus que todo o mundo rege, num Pae que assim te deu alma simples e pura! Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus e adormecer á noite abrindo a consciencia aos beijos do luar, sorrir de madrugada á frescura que vem do azul ethereo e vasto, que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos sem esforço nenhum, como a espiral da essencia que se evola da flôr, se a abelha delicada lhe poisa na corolla o vôo leve e casto!
Joaquina
Bemdito seja Deus! Não póde imaginar como eu fico contente ouvindo assim fallar!...
Ruy
Mas que idéa fazia então de mim? Julgava talvez que eu fosse atheu?
Joaquina, benzendo-se
Deus me perdôe... pensava!
Ruy
Como poude a sua alma angelica e tão boa fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?
Joaquina
Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa: eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa... E a gente vê só cara e não vê corações...
Ruy
E se o visse, Joaquina!...
Joaquina
E que é que me servia o ver-lhe o coração?
Ruy
Nada, é certo. Entretanto conheceria bem as minhas intenções, a esperança que faz brotar, em cada dia que passa, um pensamento alegre, puro e santo...
Joaquina, interrompendo
É, mas diz o rifão que está o inferno cheio de boas intenções!...
Ruy
Tem razão; mas não minto se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto: ás vezes mais parece um verdadeiro inferno este peito infeliz...
Joaquina, benzendo-se
Abrenuncio, menino!... Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!... Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno, em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!... Virgem Maria! Credo!
Ruy
Alma boa de santa!... A tua vida inteira adormeceu. A aurora já para ti não tem aquelle brilho vivo que a primavera, em luz, alastra pelos campos... Tudo se transformou em outra vida; agora a fonte já soluça, a brisa já não canta; aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo, o sol não tem calor, o céo já não é glastro, as estrellas febris parecem pirilampos; trazes o teu olhar constantemente a rastro; sómente a fé te anima; é por isso que extranhas o inferno abrasador que muita vez domina a minha mocidade.
Joaquina, com sorriso
Isso me bacoreja algum amor perdido ahi por essas eiras...
Ruy
É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!
Joaquina, cariciosa
E diga-me, que olhar é esse que negreja a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...
Ruy, enleiado
Que olhar?
Joaquina, interrompendo
Mas é segredo?
Ruy
É, por ora é segredo...
Joaquina
Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo que eu descubra o mysterio, a princeza encantada que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...
Ruy
Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...
Joaquina
Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores; não os conte a ninguem; se acaso as desventuras lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...
tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido
Reze constantemente á Senhora das Dôres. Acceite este rosario e tenha-o por bordão. É bemaventurado aquelle que padece, porque é delle, menino, o reino azul dos céos... E Deus a quem promette estende sempre o pão; reze e será feliz... Essa alma bem merece...
Ruy
Santa velhinha, santa...
Joaquina, tapando-lhe a bocca
E nem um ai, silencio... Olhe quem vem ali...
Ruy, voltando-se
O Padre João Fulgencio e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...
Joaquina, a Ruy
Parece que ficou um tanto atrapalhado...
Ruy, encobrindo a verdade
Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e céga...
Joaquina
Então, que sente?...
Ruy
Uma dôr inaudita, que reveste de luto as minhas alegrias: Ha tanta luz espalhada na concha astral dos espaços! E os olhos della tão baços! E a fronte tão macerada!