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Talitha

SCENA III

Reading edition

Padre e Ruy

Padre

Então, Ruy, pensou no resultado que vae ter para nós a sua operação?

Ruy

Tenho pensado muito e só me felicito: parece que se abriu um vasto rosicler, enchendo de perfume o lar da minha vida; descanta-me no peito o coração alado tão viva, tão alegre e limpida canção, que me parece ouvir palpitar o infinito e a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...

Padre

Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome os meus dias; medito e tenho muito medo de uma lucta que vae ser travada, em segredo, no seio de Talitha...

Ruy

E então que lucta é essa?

Padre

O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa. Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola, possue alguma coisa assim divina e cérula. Foi creada por mim, na dôce região em que repoisa a crença á sombra da oração... e sei que a pobresinha, um dia, prometteu professar e vestir o burel carmelita, se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar. A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agora que um novo dia aponta a curva azul do céo, mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora de amor e de ventura, a angelica Talitha verá, na sua frente, erguer-se e fluctuar, constante, pertinaz, energica e severa, a promessa que fez, a consciencia austera a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor a sorrir e a tental-a...

Ruy

Esse mesmo receio tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio. Assim a Providencia ás vezes desconhece o proprio mal que faz e como que se esquece da victima innocente e nessa lucta enorme a desgraça feroz que não cança, nem dorme, de certo vencerá, se nós que a divisamos ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer tão alto, que domine aquelle pobre ser. E preciso pensar e vêr bem se afastamos da sua intelligencia a ideia do convento, como se afasta a flôr dos impetos do vento.

Padre

E quem terá prestigio e força de arrancar áquella consciencia, a dôce, a delicada, a candida expressão da promessa sagrada que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?

Ruy

Nao desejo arrancar essa illusão formosa á crença da sua alma... A raiz dessa rosa não é muito profunda, apenas esbraceja á flôr do coração, por isso não viceja ainda como o seio altivo e perfumado de uma corola aberta!... Um botão delicado agora principia a despertar á luz... Dessa casta missão, que moverá Jesus, sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera se póde encarregar; o prestigio da idade, a alvura de luar das cans alabastrinas, a palavra de amor, piedosa e severa, do seu conselho bom, tão cheio de amizade, a sua consciencia e as affeições divinas que avizinham do céo o seu viver de santo, a fé que o seu olhar inspira a quem o fita, hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto, nos olhos virginaes da mimosa Talitha.

Padre

Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos, nas duras provações, na dôr, nos desenganos, sem nunca haver mentido uma só vez na vida, tenho medo que a voz de commoção me trema, que me fuja o valor á hora assim blasphema de entregar á mentira esta fiel guarida...

Ruy

Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta que salva uma esperança e mais um anjo afasta á amargura cruel de um grande sacrificio! Responda, Senhor Cura, em sua consciencia, acredita que Deus condemne uma existencia purissima de flôr, a tamanho supplicio? Que peccados terá Talitha a redimir que precise descer em vida á sepultura, agora que brilhou a estrella do porvir aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura? Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva: é aspera a mentira e tem a côr terrena, ao passo que a sua alma é branca, de açucena, e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva! Em vez de sacerdote, a confessar a freira, seja Pae que dirige o coração da filha! Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira, desviou-lhe a razão para diversa trilha. Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho, traga de novo a rola ao palpitar do ninho!

Padre

E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia, deva pedir que a filha afaste da lembrança a promessa que fez, com tanta segurança, quando implorava a Deus piedade e clemencia?...

Ruy

Meu amigo, nao vê que esse immenso fervor nascia do tropel da magua e do pavor? Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa, as almas enlanguece e os corações quebranta? Não vê que faltou luz áquella intelligencia? Que aquella alma vergou á estolida exigencia do desespero intenso e bárbaro, que a ancia de revêr inda o sol da sua alegre infancia envolver-lhe a cabeça em nimbos de ventura a levaram, talvez, nessa hora de tortura, á extrema tentação de dar a mocidade por um dia feliz de viva claridade? Levita, cuja mão diariamente eleva ao throno do Senhor a hostia consagrada, levanta esse sacrario á curva constellada, a flôr que pede sol não viverá na treva!...

Padre, depois de uma pausa

Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa, porque ha no meu peccado uma intenção tão boa, tão pura e tão leal, que eu sinto adormecido o velho coração por nunca haver mentido...

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