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Os sonetos completos de Anthero de Quental

MEA CULPA

Reading edition

Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo, Nem chamo ao céo da vida noite fria; Não chamo á existencia hora sombria; Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda… É minha mãe… Ah, se eu á face linda Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada ha que me aqueça esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza… É de crer que só eu seja o culpado!

O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavalleiro andante. Por desertos, por sóes, por noite escura, Paladino do amor, busco anhelante O palacio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exhausto e vacillante. Quebrada a espada já, roda a armadura… E eis que subito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aerea formosura!

Com grandes golpes bato á porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Desherdado… Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor… Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silencio e escuridão—e nada mais!

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