A M.C.
Reading edition
Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa: O que fada o poeta e o soldado Volveu a ti o olhar, de amor velado, E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»
E tu, descendo na onda harmoniosa, Pousaste n'este solo angustiado, Estrella envolta n'um clarão sagrado, Do teu limpido olhar na luz radiosa…
Mas eu… posso eu acaso merecer-te? Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado, Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.
E a mim, a quem deu olhos para ver-te, Sem poder mais… a mim o que me ha dado? Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!
A Santos Valente
Estreita é do prazer na vida a taça: Largo, como o oceano é largo e fundo, E como elle em venturas infecundo, O cális amargoso da desgraça.
E comtudo nossa alma, quando passa incerta peregrina, pelo mundo, Prazer só pede à vida, amor fecundo, É com essa esperança que se abraça.
É lei de Deus este aspirar immenso… E comtudo a illusão impoz à vida. E manda buscar luz e dá-nos treva!
Ah! se Deus accendeu um foco intenso De amor e dor em nós, na ardente lida, Porque a miragem cria… ou porque a leva?
Tormanto do Ideal
Conheci a Belleza que não morre E fiquei triste. Como quem da serra Mais alta que haja, olhando aos pés a terra E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre: Assim eu vi o mundo e o que elle encerra Perder a côr, bem como a nuvem que erra Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à fórma, em vão, a idea pura, Tropéço, em sombras, na materia dura. E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o baptismo dos poetas, E assentado entre as fórmas incompletas Para sempre fiquei pallido e triste.