MÃE…
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Mãe—que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mãos piedosas ate o fio Do meu pobre existir, meio partido…
Que me leve comsigo, adormecido, Ao passar pelo sitio mais sombrio… Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido…
Eu dava o meu orgulho de homem—dava Minha esteril sciencia, sem receio, E em debil criancinha me tornava.
Descuidada, feliz, docil tambem, Se eu podesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!
Na capella
Na capella, perdida entre a folhagem, O Christo, lá no fundo, agonisava… Oh! como intimamente se casava Com minha dor a dor d'aquella imagem!
Filhos ambos do amor, igual miragem Nos roçou pela fronte, que escaldava… Igual traição, que o affecto mascarava, Nos deu supplicio ás mãos da villanagem…
E agora, ali, em quanto da floresta A sombra se infiltrava lenta e mesta, Vencidos ambos, martyres do Fado,
Fitavamo-nos mudos—dor igual!— Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual Mais pallido, mais triste e mais cançado…
Velut Umbra
Fumo e scismo. Os castellos do horizonte Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores, E ora espalham no céo vivos ardores, Ora fumam, vulcões de estranho monte…
Depois, que formas vagas vêm defronte, Que parecem sonhar loucos amores? Almas que vão, por entre luz e horrores, Passando a barca d'esse aereo Acheronte…
Apago o meu charuto quando apagas Teu facho, oh sol… ficamos todos sós… É n'esta solidão que me consumo!
Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas, Bem vos entendo a cor, pois, como a vós, Belleza e altura se me vão em fumo!