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Os sonetos completos de Anthero de Quental

A M.C.

Reading edition

No céo, se existe um céo para quem chora. Céo, para as magoas de quem soffre tanto… Se é lá do amor o foco, puro e santo, Chama que brilha, mas que não devora…

No céo, se uma alma n'esse espaço mora. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto… Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto Do amor piedoso… que eu não sinto agora…

No céo, ó virgem! findarão meus males: Hei-de lá renascer, eu que pareço Aqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles! Tendo seu fim, terão o seu começo. Para não mais findar, nossos amores.

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento, Ser vã toda a pesquisa da verdade, Em vez da luz achar a escuridade, Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento, Buscar, sempre buscar a claridade, E só ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora crê de fé, logo duvida: Se procura, só acha… o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno: Esperemos a luz d'uma outra vida, Seja a terra degredo, o céo destino.

A Alberto Telles

Só!—Ao ermita sósinho na montanha Visita-o Deus e dá-lhe confiança: No mar, o nauta, que o tufão balança, Espera um sopro amigo que o céo tenha…

Só!—Mas quem se assentou em riba estranha, Longe dos seus, lá tem inda a lembrança: E Deus deixa-lhe ao menos a esperança Ao que á noite soluça em erma penha…

Só!—Não o é quem na dor, quem nos cançaços, Tem um laço que o prenda a este fadario. Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdem, inertes braços, Mas passar, entre turbas, solitario, Isto é ser só, é ser abandonado!

A J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega… é presente… e só á dor assiste?… Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.

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