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Os sonetos completos de Anthero de Quental

MAIS LUZ!

Reading edition

(A Guilherme de Azevedo)

Amem a noite os magros crapulosos, E os que sonham com virgens impossiveis, E os que inclinam, mudos e impassiveis, Á borda dos abysmos silenciosos…

Tu, lua, com teus raios vaporosos, Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis, Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis, Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada, E o meio-dia, em vida refervendo, E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois, Seja-me dado ainda ver, morrendo, O claro sol, amigo dos heroes!

These e Antithese

I

Já não sei o que vale a nova idea, Quando a vejo nas ruas desgrenhada, Torva no aspecto, á luz da barricada, Como bacchante após lubrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e socegada Eil-a presa das furias de Medea!

Um seculo irritado e truculento Chama á epilepsia pensamento, Verbo ao estampido de pelouro e obuz…

Mas a idea é n'um mundo inalteravel, N'um crystallino céo, que vive estavel… Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

N'um céo intemerato e crystallino Póde habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectaculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino O lançou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante… Cá da terra blasphema ou ergue um hymno…

A idea encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam, Paixões ardentes como vivos soes!

Combatei pois na terra arida e bruta, Té que a revolva o remoinhar da lucta, Té que a fecunde o sangue dos heroes!

Justitia Mater

Nas florestas solemnes ha o culto Da eterna, intima força primitiva: Na serra, o grito audaz da alma captiva, Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constellado passa o vulto Do innominado Alguem, que os soes aviva: No mar ouve-se a voz grave e afflictiva D'um deus que lucta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde sôlta Se ergue, de sangue medida, a revolta, Como incendio que um vento bravo atiça,

Ha mais alta missão, mais alta gloria: O combater, á grande luz da historia, Os combates eternos da Justiça!

Palavras d'um certo Morto

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento: Não ha como eu espectro macilento, Nem mais disforme que eu nenhum aborto…

Só o espirito vive: vela absorto N'um fixo, inexoravel pensamento: «Morto, enterrado em vida!» o meu tormento É isto só… do resto não me importo…

Que vivi sei-o eu bem… mas foi um dia, Um dia só—no outro, a Idolatria Deu-me um altar e um culto… ai! adoraram-me.

Como se eu fosse alguem! como se a Vida Podesse ser alguem!—logo em seguida Disseram que era um Deus… e amortalharam-me!

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