ANIMA MEA
Reading edition
Estava a Morte alli, em pé, diante, Sim, diante de mim, como serpente Que dormisse na estrada e de repente Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a funebre bacchante! Que torvo olhar! que gesto de demente! E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente, Loba faminta, pelo mundo errante?»
—Não temas, respondeu (e uma ironia Sinistramente estranha, atroz e calma, Lhe torceu cruelmente a bocca fria).
Eu não busco o teu corpo… Era um tropheu Glorioso de mais… Busco a tua alma— Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
Divina comedia
(Ao Dr. José Falcão)
Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:—«Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante,
Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illusão, luctas horriveis, N'um turbilhão cruel e delirante…
Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»
Espiritualismo
I
Como um vento de morte e de ruina, A Duvida soprou sobre o Universo. Fez-se noite de subito, immerso O mundo em densa e algida neblina.
Nem astro já reluz, nem ave trina, Nem flor sorri no seu aereo berço. Um veneno sutil, vago, disperso, Empeçonhou a criação divina.
E, no meio da noite monstruosa, Do silencio glacial, que paira e estende O seu sudario, d'onde a morte pende,
Só uma flor humilde, mysteriosa, Como um vago protesto da existencia, Desabroxa no fundo da Consciencia.
II
Dorme entre os gelos, flor immaculada! Lucta, pedindo um ultimo clarão Aos soes que ruem pela immensidão, Arrastando uma aureola apagada…
Em vão! Do abysmo a bocca escancarada Chama por ti na gélida amplidão… Sobe do poço eterno, em turbilhão, A treva primitiva conglobada…
Tu morrerás tambem. Um ai supremo, Na noite universal que envolve o mundo, Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo
No vacuo eterno se esvahirá disperso, Como o alento final d'um moribundo, Como o ultimo suspiro do Universo.