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Os sonetos completos de Anthero de Quental

HOMO

Reading edition

Nenhum de vós ao certo me conhece, Astros do espaço, ramos do arvoredo, Nenhum adivinhou o meu segredo, Nenhum interpretou a minha prece…

Ninguem sabe quem sou… e mais, parece Que ha dez mil annos já, neste degredo, Me vê passar o mar, vê-me o rochedo E me contempla a aurora que alvorece…

Sou um parto da Terra monstruoso; Do humus primitivo e tenebroso Geração casual, sem pae nem mãe…

Mixto infeliz de trevas e de brilho, Sou talvez Satanaz;—talvez um filho Bastardo de Jehovah;—talvez ninguem!

Disputa em familia

Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.

I

Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados, Velho Jehovah de longa barba hirsuta, Solitario em teus Céos acastellados:

«—Cessou o imperio emfim da força bruta! Não soffreremos mais, emancipados, O tyranno, de mão tenaz e astuta, Que mil annos nos trouxe arrebanhados!

Emquanto tu dormias impassivel, Topámos no caminho a liberdade Que nos sorrio com gesto indefinivel…

Já provámos os fructos da verdade… Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel. Não passas d'uma van banalidade!—»

II

Mas o velho tyranno solitario, De coração austero e endurecido, Que um dia, de enjoado ou distrahido, Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario Tumultuoso côro e alarido Do povo insipiente, que, atrevido, Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo Que o homem vão medita mil mudanças, Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil, ridiculas crianças, Sabia em tudo isso… e muito mais!—»

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavalleiro, Cavalleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas… Só o gladio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavalleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato, Mas consólo… Subverto, mas resgato… E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O Inconsciente

O Espectro familiar que anda commigo, Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto, Que umas vezes encaro com desgosto E outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo, Que parece a conversas mal disposto… Ante esse vulto, ascetico e composto Mil vezes abro a bocca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o: Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos, Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos… Mas eu por mim não sei como me chamo…

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