IDEAL
Reading edition
Aquella, que eu adoro, não é feita De lyrios nem de rosas purpurinas, Não tem as formas languidas, divinas Da antiga Venus de cintura estreita…
Não é a Circe, cuja mão suspeita Compõe filtros mortaes entre ruinas, Nem a Amazona, que se agarra ás crinas D'um corcel e combate satisfeita…
A mim mesmo pergunto, e não atino Com o nome que dê a essa visão, Que ora amostra ora esconde o meu destino…
É como uma miragem, que entrevejo, Ideal, que nasceu na solidão, Nuvem, sonho impalpavel do Desejo…
Emquanto outros combatem
Empunhasse eu a espada dos valentes! Impellisse-me a acção, embriagado, Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes O ar de fogo do circo ensanguentado… Ou cahira radioso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Já não veria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos, sem uma hora Viver mais que de sonhos e anciedade!
Já não veria em minhas mãos piedosas Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade!