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Os sonetos completos de Anthero de Quental

EVOLUÇÃO

Reading edition

(A Santos Valente)

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo, Tronco ou ramo na incognita floresta… Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquissimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; Ou, monstro primitivo, ergui a testa No limoso paúl, glauco pacigo…

Hoje sou homem—e na sombra enorme Vejo, a meus pés, a escada multiforme, Que desce, em espiraes, na immensidade…

Interrogo o infinito e ás vezes chóro… Mas, estendendo as mãos no vacuo, adoro E aspiro unicamente á liberdade.

Elogio da Morte

Morrer é ser iniciado.

Anthologia Grega.

I

Altas horas da noite, o Inconsciente Sacode-me com força, e accórdo em susto. Como se o esmagassem de repente, Assim me pára o coração robusto.

Não que de larvas me povôe a mente Esse vacuo nocturno, mudo e augusto, Ou forceje a razão por que afugente Algum remorso, com que encara a custo…

Nem phantasmas nocturnos visionarios, Nem desfilar de espectros mortuarios, Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum poço, humido e morno, Um muro de silencio e treva em torno, E ao longe os passos sepulcraes da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia, Se interna meu dorido pensamento. Nas regiões do vago esquecimento Me conduz, passo a passo, a phantasia.

Atravesso, no escuro, a nevoa fria D'um mundo estranho, que povôa o vento, E meu queixoso e incerto sentimento Só das visões da noite se confia.

Que mysticos desejos me enlouquecem? Do Nirvâna os abysmos apparecem, A meus olhos, na muda immensidade!

N'esta viagem pelo ermo espaço, Só busco o teu encontro e o teu abraço, Morte! irman do Amor e da Verdade!

III

Eu não sei quem tu és—mas não procuro (Tal é minha confiança) devassal-o. Basta sentir-te ao pé de mim, no escuro, Entre as fórmas da noite, com quem falo.

Atravez do silencio frio e obscuro Teus passos vou seguindo, e, sem abalo, No cairel dos abysmos do Futuro Me inclino á tua voz, para sondal-o.

Por ti me engolfo no nocturno mundo Das visões da região innominada, A ver se fixo o teu olhar profundo…

Fixal-o, comprehendel-o, basta uma hora, Funerea Beatriz de mão gelada… Mas unica Beatriz consoladora!

IV

Longo tempo ignorei (mas que cegueira Me trazia este espirito ennublado!) Quem fosses tu, que andavas a meu lado, Noite e dia, impassivel companheira…

Muitas vezes, é certo, na canceira, No tedio extremo d'um viver maguado, Para ti levantei o olhar turbado, Invocando-te, amiga derradeira…

Mas não te amava então nem conhecia: Meu pensamento inerte nada lia Sobre essa muda fronte, austera e calma.

Luz intima, afinal, alumiou-me… Filha do mesmo pae, já sei teu nome, Morte, irman coeterna da minha alma!

V

Que nome te darei, austera imagem, Que avisto já n'um angulo da estrada, Quando me desmaiava a alma prostrada Do cançaço e do tedio da viagem?

Em teus olhos vê a turba uma voragem, Cobre o rosto e recúa apavorada… Mas eu confio em ti, sombra velada, E cuido perceber tua linguagem…

Mais claros vejo, a cada passo, escritos, Filha da noite, os lemmas do Ideal, Nos teus olhos profundos sempre fitos…

Dormirei no teu seio inalteravel, Na communhão da paz universal, Morte libertadora e inviolavel!

VI

Só quem teme o Não-ser é que se assusta Com teu vasto silencio mortuario, Noite sem fim, espaço solitario, Noite da Morte, tenebrosa e augusta…

Eu não: minh'alma humilde mas robusta Entra crente em teu atrio funerario: Para os mais és um vacuo cinerario, A mim sorri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e ineffavel E o silencio sem par do Inalteravel, Que envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja peccado procurar-te, Mas não sonhar comtigo e adorar-te, Não-ser, que és o Ser unico absoluto.

Contemplação

(A Francisco Machado de Faria e Maia)

Sonho de olhos abertos, caminhando Não entre as formas já e as apparencias, Mas vendo a face immovel das essencias, Entre ideas e espiritos pairando…

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando, Visões sem ser, fragmentos de existencias… Uma nevoa de enganos e impotencias Sobre vacuo insondavel rastejando…

E d'entre a nevoa e a sombra universaes Só me chega um murmurio, feito de ais… É a queixa, o profundissimo gemido

Das cousas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim só presentido…

Lacrimae rerum

(A Tommaso Cannizzaro)

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte, Quantas vezes tenho eu interrogado Teu verbo, teu oraculo sagrado, Confidente e interprete da Sorte!

Aonde vão teus soes, como cohorte De almas inquietas, que conduz o Fado? E o homem porque vaga desolado E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de immenso funeral, Muda, a noite, sinistra e triumphal, Passa volvendo as horas vagarosas…

É tudo, em torno de mim, duvida e luto: E, perdido n'um sonho immenso, escuto O suspiro das cousas tenebrosas…

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