+A CARIDADE+
Reading edition
I
Caridade, quem és! Quem te inventou? Para que serves, quaes os meios teus, A tua agencia, assim, quem t'a arranjou, Para que vens fallar-nos sempre em Deus!
Em Deus! Quando o universo elle creou Legou a alguem riquezas ou tropheos! Quaes foram os brazões, que bens doou? Venderia indulgencias lá dos ceos?
Mentes, que nunca fez separações, Nem fez a fome nem as privações, O mundo concedeu á húmanidade.
Mas como é que ha então ricos e pobres? Como é que existem os plebeus e os nobres? Que significas pois, ó caridade?
II
Rebanhos a pastarem nas campinas, As aves a cruzarem-se no ar, O serpear das aguas argentinas, Os fructos a dourarem no pomar;
A pureza das auras matutinas, Os dias que o bom sol nos vem dourar, As flores assetinadas, purpurinas, As poeticas noites de luar;
Os campos no sorrir da primavera, A selva, as fragas onde vive a fera, O universo em toda a immensidade,
Nunca foi concedido por herança. Era pr'a humanidade a esperança De um dia conquistar a felicidade.
III
Os maus, porém, poderam com presteza Empolgar o que a todos pertencia. O sangue era direito a uns—Nobreza— E aos d'hoje o dinheiro—A burguezia—
E foi assim que os bens da natureza, Que o creador a todos concedia, Se viram disputados com fereza, Se viram empolgar com ousadia.
E appareceu a fome. Então aos pobres Os ricos atirando com uns cobres Inventaram um Deus de caridade.
Mas haverem luctar, embora custe, Depor de todo a Caridade-embuste. Hastear a bandeira da Egualdade!
Lisboa, 1892