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A virtude laureada

*ODE*

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*ODE*

Por occasião da noticia, que grassou no Porto, das melhoras do Senhor Bocage.

Cisne de immenso vôo! ave, que rója, A medo se abalança aos teus louvores.

D'entre a que, eterna, lá no abysmo estala Immensa chamma, que accendeo o Immenso, Tôrva ullulando, á região do dia Surge a myrrhada Invéja.

Seu hálito empestado a luz suffóca, E sécca, e mirra as arvores, as flores; Dragão, de linguas tres, na dextra arrôcha, Alça na outra o facho.

Silvão-lhe horrendas na tostada fronte Viboras crespas, de que está coalhada; Nutre nos peitos ávida serpente, De insaciavel fome.

Atro veneno a lingua lhe destilla, A lingua, que de vibora parece: Vós Górgonas, vós Furias, tu Medusa, Não sois mais horrorosas.

De espaço meneando as azas longas, Demanda vagarosa a Estygia margem; E alli, prendendo o vôo, descendo á terra, Que, ao sentilla, estremece.

Alli em subterranea, em ampla furna, Desde a infancia dos seculos formada, Dura, immutavel lei impondo a tudo, Reside a Morte horrenda.

Montão enorme de esbulhados ossos, De crâneos seccos lhe compõem o throno, Assôma no alto o descarnado Monstro, A ferrea fouce em punho.

Voão-lhe em roda Lémures, Espectros, Jazem-lhe aos pés as lividas Doenças: O silencio, o pavor, a escuridade Alli, perennes, mórão.

Nos quatro cantos de horrorosa estancia Quatro cyprestes lúgubres se elevão; Aves sinistras, rouquejando agouros, Entre os ramos se aninhão.

Para aqui se encaminha a Invéja tôrpe: Tremendo, aos pés do throno se apresenta; Frio terror os membros lhe entorpece Ao encarar o Nume:

Mas, assanhando a roedora serpe, Que no peito lhe pásce, a dor vehemente Lhe esperta o coração, lhe volve o acôrdo; E assim troveja a Furia:

"Deosa, dominadora do Universo, Cujo imperio vastissimo confina Co'a muralha da immensa Eternidade: Branda meu rogo affaga.

Já vezes mil o tétrico veneno Das serpes, que me toucão, que alimento, Fêz em teus lares borbulhar o sangue De victimas sem conto,

Serviço não vulgar, que te hei prestado, Jús me confere a não vulgar indulto: Vinga-me, ó Deosa, de hum Mortal soberbo, Que ousa affrontar-me impune.

Elmano, o caro a Febo, e caro a Lysia, C'roado ha muito de immurchavel louro, Sobre o ludibrio meus alçou ufano Troféo de eterna dura.

Com pé robusto esmigalhou valente (Da peçonha mortal nem foi tocado) Viboras, que arranquei da trança horrenda, Para arrojar-lhe ao seio.

Tentei vãmente ennegrecer-lhe a Fama, Que nivea, e pura os Orbes divagava! Meus baldados projectos só servirão De aviventar-lhe o lustre.

Chusmas de Zoilos, meus fieis Ministros, Em vão em meu favor as armas tomão: Relampaguêa o Vate, e nos abysmos Baqueão, aterrados.

Myrrhada de pezar, baixei ao Orco, E alli fui prantear a injúria minha: Gritos, que então soltei de dor, de raiva, Inda nelle retumbão.

Foi-me comtudo balsamo suave Á dor cruel, que me ralava o peito, O grato annúncio, de que o Vate odioso Roçava o ponto extremo.

Mortifero aneurisma promettia Romper-lhe antes de muito os nós da vida! Meu coração folgou, desaffrontado, Co'a proxima ventura.

Já com soffregas mãos, tintas em sangue, No Báratro compunha atróz peçonha, Para ensopar-lhe as socegadas cinzas No tácito jazigo.

Porém, ó Deosa, se, exercendo a Fouce, O demorado golpe não desfechas, As, que alimento, gratas esperanças, Qual fumo, se esvaecem.

Sim, ás contínuas súpplicas de Lysia, Como que o Fado a fronte desenruga; Brado, macio já, como que intenta Deferir-lhe propicio.

Ah! e quanto, inda assim oppresso, enfermo, Quando me affronta, me assoberba Elmano! Seu Estro sempre o mesmo, sempre em chammas, Raios me vibra intensos.

Todos de Lysia abalizados Cisnes Melifluo canto em seu louvor modúlão; Rôto ao porvir (mercê de Apollo) o seio, Vida fádão-lhe eterna.

E serei, ai de mim! assim calcada, Sem que possa vingar-me!.." Aqui lhe brótão As lágrimas em fio, entre soluços Suffocada, emmudece.

Depois de curto espaço, a Morte horrenda, A fronte definada meneando, Alça a medonha voz, e assim responde Á consternada Furia:

"Não te desdenho, ó Filha: do meu throno Tu és robusto apoio; os teus serviços A obrigação me impõe de ser-te grata: Morrerá quem te affronta"

Disse; e n'astea da Fouce o corpo firma, Ergue-se, e ensaia para o vôo as azas: Nos cantos da caverna os negros Mochos Soltão da morte o grito.

Eis que estranho clarão, rompendo as trévas, Súbito inunda a lôbrega morada; Eis apparece (mortal raio á Invéja) Em branca nuvem Lysia.

Brando surriso esmalta-lhe o semblante, Nos olhos o prazer lhe reverbéra, Luz-lhe na dextra lâmina de bronze, Qual astro, fulgurosa.

Com garbo magestoso a vestidura Sobraça roçagante; e assim que arrósta O Nume aterrador, na voz suave Taes expressões lhe envia:

"Chorosa, amargurada, longo tempo Curva ante o Solio do adoravel Fado, Ferventes rogos, humidos de pranto, Fiz subir-lhe á presença.

De Elmano, do meu Vate a vida em risco: Meu coração materno consternava: Elle era a gloria minha; ella morrêra, Se morresse o meu Vate.

Regeitado, porém, não foi meu rogo: O Fado para mim sempre benigno, Risonho me outorgou (mercê não tenue) O suspirado indulto.

Eis o Decreto seu:" (e entrega ao Monstro A lâmina de bronze.) Ao vê-lo a Parca, Depondo a curva Fouce, inclina a frente, E reverente o beija.

"Cumpre-se, ó Lysia, (diz) a Lei do Fado." Exulta Lysia, e presurosa surge Da habitação medonha: opácas sombras De novo alli se espessão.

Oh que horrendo espectaculo não era A Invéja furiosa, ardendo em raiva! Da dextra, da sinistra a serpe, o facho Arreméça convulsa.

As melenas, frenéticas, arrepéla, E de áspides alastra o pavimento; Na boca, onde as espumas são veneno, As maldições lhe fervem.

Torcendo, e retorcendo os vesgos olhos, Vaguêa delirante a vasta furna: A Morte, a propria Morte, ao ver-lhe as furias, Treme no throno horrendo.

O Fado, contra quem vomita o Monstro Negra turma de pragas, indignado Manda ronque o trovão, fuzile o raio, E sobre ella desabe.

A Furia, remordendo-se, baquêa, E no bojo inflammado o Inferno a sorve. Em tanto a grande Lysia, exultadora Vôa a abraçar seu Filho.

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