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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

SONETOS. (continued 2)

Reading edition

CLXXVII.

Quando os olhos emprégo no passado, De quanto passei me acho arrependido; Vejo que tudo foi tempo perdido, Que tudo emprêgo foi mal empregado. Sempre no mais damnoso mais cuidado; Tudo o que mais cumpria, mal cumprido; De desenganos menos advertido Fui, quando de esperanças mais frustrado. Os castellos que erguia o pensamento, No ponto que mais altos os erguia, Por esse chão os via em hum momento. Que erradas contas faz a phantasia! Pois tudo pára em morte, tudo em vento, Triste o que espera! triste o que confia!{90}

CLXXVIII

Ja cantei, ja chorei a dura guerra Por Amor sustentada longos anos; Vezes mil me vedou dizer seus danos, Por não ver quem o segue o muito que erra. Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra; Vós que fazeis á morte mil enganos, Concedei-me ja alentos soberanos Para que diga o mal que Amor encerra: Para que aquelle, que o seguir ardente, Veja em meus puros versos hum exemplo De quanto em glorias promettidas mente. Qu'inda qu'em triste estado me contemplo, Se neste assumpto me inspirais, contente Darei a minha lyra ao vosso templo.

CLXXIX

Os meus alegres, venturosos dias Passárão, como raio, brevemente; Movem-se os tristes mais pezadamente Apos das fugitivas alegrias. Ah falsas pretenções! vãas phantasias! Que me podeis ja dar que me contente? Ja de meu triste peito a chamma ardente O tempo reduzio a cinzas frias. Nellas revolvo agora erros passados; Que outro fructo não deo a mocidade, A quem vergonha e dor minha alma deve Revolvo mais de toda a mais idade, Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados, Para que leve tudo o tempo leve.{91}

CLXXX.

Horas breves de meu contentamento, Nunca me pareceo, quando vos tinha, Que vos visse mudadas tão asinha Em tão compridos annos de tormento. As altas tôrres, que fundei no vento, Levou, em fim, o vento que as sostinha: Do mal, que me ficou, a culpa he minha, Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento. Amor com brandas mostras apparece, Tudo possivel faz, tudo assegura; Mas logo no melhor desapparece. Estranho mal! estranha desventura! Por hum pequeno bem que desfallece, Hum bem aventurar, que sempre dura!

CLXXXI.

Onde acharei lugar tão apartado, E tão isento em tudo da ventura, Que, não digo eu de humana criatura, Mas nem de feras seja frequentado? Algum bosque medonho e carregado, Ou selva solitaria, triste e escura, Sem fonte clara, ou placida verdura; Em fim, lugar conforme a meu cuidado? Porque alli nas entranhas dos penedos, Em vida morto, sepultado em vida, Me queixe copiosa e livremente. Que, pois a minha pena he sem medida, Alli não serei triste em dias ledos, E dias tristes me farão contente.{92}

CLXXXII.

Aqui de longos damnos breve historia Verão os que se jactão de amadores: Reparo póde ser das suas dores Não apartar as minhas da memoria. Escrevi, não por fama, nem por gloria, De que outros versos são merecedores, Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores A quem de mi logrou tanta victoria. Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto Que em número me fez, alheio de arte, Dizer do cego Amor, que me venceo. Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto; E dando a penna á mão, esta só parte De minhas tristes penas escreveo.

CLXXXIII.

Por sua Nympha Céphalo deixava A Aurora, que por elle se perdia, Postoque dá principio ao claro dia, Postoque as roxas flores imitava. Elle, que a bella Procris tanto amava, Que só por ella tudo engeitaria, Deseja de tentar se lhe acharia Tão firme fé, como ella nelle achava. Mudado o trage, tece hum duro engano; Outro se finge, preço põe diante; Quebra-se a fé mudavel, e consente. Oh subtil invenção para seu dano! Vêde que manhas busca hum cego amante Para que sempre seja descontente!{93}

CLXXXIV.

Sentindo-se alcançada a bella esposa De Céphalo no crime consentido, Para os montes fugia do marido; E não sei se de astuta, ou vergonhosa. Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa, Da cegueira obrigado de Cupido, Apos ella se vai como perdido, Ja perdoando a culpa criminosa. Deita-se aos pés da Nympha endurecida, Que do cioso engano está aggravada; Ja lhe pede perdão, ja pede a vida. Oh fôrça d'affeição desatinada! Que da culpa contr'elle commettida, Perdão pedia á parte que he culpada!

CLXXXV.

Seguia aquelle fogo, que o guiava, Leandro, contra o mar e contra o vento; Quebravão-lhe ondas o animoso alento, Por mais e mais que Amor lho renovava. Com sentir ja que quasi lhe faltava, Sem nada esmorecer, no pensamento (Não podendo fallar) de seu intento O fim ao surdo mar encommendava. Ó mar, (dizia o moço só comsigo) Ja te não peço a vida; só queria Que a d'Hero me salvasses: não me veja: Este defunto corpo lá o desvia D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo, Pois no meu maior bem me houveste inveja.{94}

CLXXXVI.

Os olhos onde o casto Amor ardia, Ledo de se ver nelles abrazado; O rosto onde com lustre desusado Purpurea rosa sôbre neve ardia; O cabello, que inveja ao sol fazia, Porque fazia o seu menos dourado; A branca mão, o corpo bem talhado, Tudo aqui se reduz a terra fria. Perfeita formosura em tenra idade, Qual flor, que antecipada foi colhida, Murchada está da mão da morte dura. Como não morre Amor de piedade? Não della, que se foi á clara vida; Mas de si, que ficou em noute escura.

CLXXXVII.

Ditosa penna, como a mão que a guia Com tantas perfeições da subtil arte, Que quando com razão venho a louvar-te, Em teus louvores perco a phantasia. Porém Amor, que effeitos varios cria, De ti cantar me manda em toda parte, Não em plectro belligero de Marte, Mas em suave e branda melodia. Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo, Voando se levanta e te pregoa, Agora que ninguem te levantava. E porque immortal sejas, eis Apolo Te offerece de flores a coroa, Que ja de longo tempo te guardava.{95}

CLXXXVIII.

Espanta crescer tanto o crocodilo Só por seu limitado nascimento; Que, se maior nascêra, mais isento Estivera de espanto o patrio Nilo. Em vão levantará meu baixo estilo Vosso Pontifical, novo ornamento; Pois no ventre o immortal merecimento Vo-lo talhou, para despois vesti-lo. Tardou, mas veio; que a quem mais merece Vir o premio mais tarde he sempre certo, Inda que vez alguma venha cedo. Os ceos, que do primeiro estão mais perto, Mais devagar se movem. Quem conhece, Sôbre aquelle segredo, este segredo!

CLXXXIX.

Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante, Com qu'a celeste máchina sustenta; Honrou a Homero o engenho, com que intenta Grecia do quarto ceo passá-lo avante; Coroou claro Amor de amor constante A Orpheo, na paz firme e na tormenta; Inspirou a Fortuna, em tudo isenta, A Cesar, de quem foi hum tempo amante; Exaltaste tu, Fama, a gloria alta De Alcides lá no monte em que resides; Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama, Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta, Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides, Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama.{96}

CXC.

Despois que vio Cibele o corpo humano Do formoso Atys seu verde pinheiro, Em piedade o vão furor primeiro Convertido, chorava o grave dano. E, á sua dor fazendo illustre engano, A Jupiter pedio, que o verdadeiro Preço da nobre palma e do loureiro Ao seu pinheiro désse, soberano. Mais lhe concede o filho poderoso Que, crescendo, as estrellas tocar possa, Vendo os segredos lá do ceo superno. Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso Quem se vir coroar da rama vossa, Cantando á vossa sombra verso eterno!

CXCI.

Pois torna por seu Rei e juntamente Por Christo a governar aquella parte Onde se t~ee mostrado hum Numa, hum Marte O famoso Luis, justo e valente; O Tejo espere ver de todo o Oriente, Onde tão raros dões o Ceo reparte, Render a tanto esfôrço, aviso e arte, Mil palmas, mil tributos novamente. Os que bebem no Gange, os que no Indo, A quem pouco valêrão lança e escudo, O render-se terão por bom partido. O Euphrates temerá, seu nome ouvindo; Que para delle ver vencido tudo, Ja vio do braço seu tudo vencido.{97}

CXCII.

Agora toma a espada, agora a pena, Estacio nosso, em ambas celebrado, Sendo, ou no salso mar de Marte amado, Ou n'água doce amante da Camena. Cysne sonoro por ribeira amena De mi para cantar-te he cobiçado; Porque não podes tu ser bem cantado De ruda frauta, nem de agreste avena. Se eu, que a penna tomei, tomei a espada, Para poder jogar licença tenho Desta alta influïção de dous Planetas; Com huma e outra luz delles lograda, Tu com pujante braço, ardente engenho, Serás pharo a Soldados e a Poetas.

CXCIII.

Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjurárão: Os erros e a Fortuna sobejárão; Que para mi bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas, que passárão, Que ja as frequencias suas me ensinárão A desejos deixar de ser contente. Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa a que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. De Amor não vi senão breves enganos. Oh quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Genio de vinganças!{98}

CXCIV.

Cá nesta Babylonia donde mana Materia a quanto mal o mundo cria; Cá donde o puro Amor não t~ee valia; Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; Cá donde o mal se affina, o bem se dana, E póde mais que a honra a tyrannia; Cá donde a errada e cega Monarchia Cuida que hum nome vão a Deos engana; Cá neste labyrintho onde a Nobreza, O Valor e o Saber pedindo vão Ás portas da Cobiça e da Vileza; Cá neste escuro caos de confusão Cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião!

CXCV.

Correm turbas as águas deste rio, Que as rapidas enchentes enturbárão; Os florecidos campos se seccárão; Intratavel se fez o valle e frio. Passou, como o verão, o ardente estio; Humas cousas por outras se trocárão: Os fementidos fados ja deixárão Do mundo o regimento, ou desvario. Ja o tempo a ordem sua t~ee sabida; O mundo não; mas anda tão confuso, Que parece que delle Deos se esquece. Casos, opiniões, natura, e uso, Fazem que nos pareça desta vida Que não ha nella mais do que parece.{99}

CXCVI.

Vós outros, que buscais repouso certo Na vida, com diversos exercicios; A quem, vendo do mundo os beneficios, O regimento seu fica encoberto; Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto Novas honras e cegos sacrificios; Que, por castigo igual de antiguos vicios, Quer Deos que andem as cousas por acêrto. Não cahio neste modo de castigo Quem poz culpa á Fortuna, quem somente Crê que acontecimentos ha no mundo. A grande experiencia he grão perigo: Mas o que a Deos he justo e evidente Parece injusto aos homens e profundo.

CXCVII.

Para se namorar do que criou, Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura. Vêde que tal seria esta feitura Que para si o seu Feitor guardou! No seu alto conceito te formou Primeiro que a primeira criatura, Para que unica fosse a compostura Que de tão longo tempo se estudou. Não sei se digo em tudo quanto baste Para exprimir as raras qualidades Que quiz criar em ti quem tu criaste. Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste Huma só, tres tão altas dignidades, Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste.{100}

CXCVIII.

Desce do ceo immenso Deos benino Para encarnar na Virgem soberana. Porque desce o divino a cousa humana? Para subir o humano a ser divino. Pois como vem tão pobre e tão menino, Rendendo-se ao poder da mão tyrana? Porque vem receber morte inhumana Para pagar de Adão o desatino. He possivel que os dous o fructo comem Que de quem lhes deo tanto foi vedado? Si; porque o proprio ser de deoses tomem. E por esta razão foi humanado? Si; porque foi com causa decretado, Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem.

CXCIX.

Dos ceos á terra desce a mor Belleza, Une-se á nossa carne, e a faz nobre; E, sendo a humanidade d'antes pobre, Hoje subida fica á mor riqueza. Busca o Senhor mais rico a mor pobreza; Que, como ao mundo o seu amor descobre, De palhas vis o corpo tenro cobre, E por ellas o mesmo ceo despreza. Como? Deos em pobreza á terra dece? O qu'he mais pobre tanto lhe contenta, Qu'este somente rico lhe parece. Pobreza este Presepio representa; Mas tanto por ser pobre ja merece, Que quanto mais o he, mais lhe contenta.{101}

CC.

Porque a tamanhas penas se offerece Por o peccado alheio, e êrro insano, O Trino Deos? Porque o sogeito humano Não póde co'o castigo que merece. Quem padecerá as penas que padece? Quem soffrerá deshonra, morte e dano? Quem será, se não for o Soberano Que reina, e servos manda, e obedece? Foi a fôrça do homem tão pequena, Que não pôde soster tanta aspereza, Pois não sosteve a Lei que Deos ordena. Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza Por amor puro; que a mortal fraqueza Foi para o êrro, e não ja para a pena.

CCI.

Despois de haver chorado os meus tormentos, Quer Amor que lhe cante as suas glorias. Canto de huma belleza os vencimentos, De hum longo padecer chóro as memorias. Porém, se as minhas penas são victorias, Por a causa, a meus altos pensamentos; Dilatem-se em larguissimas historias Estes meus gloriosos rendimentos. Mova-se em todo o mundo unico espanto De qu'he, por a belleza qu'eu adoro, Do que cantado tenho premio o pranto. Contente offreço a amor tão triste foro: Que se chôro não ha como o meu canto, Não sei canto melhor qu'este meu chôro.{102}

CCII.

Onde mereci eu tal pensamento Nunca de ser humano merecido? Onde mereci eu ficar vencido De quem tanto me honrou co'o vencimento? Em gloria se converte o meu tormento, Quando vendo-me estou tão bem perdido; Pois não foi tanto mal ser atrevido, Como foi gloria o mesmo atrevimento. Vivo, Senhora, só de contemplar-vos; E pois esta alma tenho tão rendida, Em lagrimas desfeito acabarei. Porque não me farão deixar de amar-vos Receios de perder por vós a vida; Que por vós vezes mil a perderei.

CCIII.

De frescas belvederes rodeadas Estão as puras águas desta fonte; Formosas Nymphas lhes estão defronte, A vencer e a matar acostumadas. Andão contra Cupido levantadas As suas graças, que não ha quem conte: D'outro valle esquecidas, d'outro monte, A vida passão neste socegadas. O seu poder juntou, sua valia Amor, ja não soffrendo este desprêzo, Somente por se ver dellas vingado; Mas, vendo-as, entendeo que não podia De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo, E ficou-se com ellas desarmado.{103}

CCIV.

Nos braços de hum Sylvano adormecendo Se estava aquella Nympha qu'eu adoro, Pagando com a boca o doce foro, Com que os meus olhos foi escurecendo. Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo Que a maior formosura do teu côro Em hum poder tão vil perca o decoro Que o merito maior lhe está devendo? Eu levarei daqui por presupposto Desta nova estranheza que fizeste, Que em ti não póde haver cousa segura. Que, pois o claro lume, o bello rosto Áquelle monstro tão disforme déste, Não creio qu'haja Amor, senão Ventura.

CCV.

Quem diz que Amor he falso, ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel, ou rigoroso, Amor he brando, he doce, e he piedoso: Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos deoses odioso. Se males faz Amor, em mi se vem; Em mi mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quiz mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são d'Amor; Todos estes seus males são hum bem, Qu'eu por todo outro bem não trocaria.{104}

CCVI.

Formosa Beatriz, tendes taes geitos N'hum brando revolver dos olhos bellos, Que só no contemplá-los, se não ve-los, Se inflammão corações e humanos peitos. Em toda perfeição são tão perfeitos, Que o desengano dão de merecê-los: Não póde haver quem possa conhecê-los, Sem nelle Amor fazer grandes effeitos. Sentirão, por meu mal, tão graves danos Os meus, que com os ver cegos e tristes Ficarão sem prazer, co'a luz perdida. Mas ja que vós com elles me feristes, Tornai-me a ver com elles mais humanos, E deixareis curada esta ferida.

CCVII.

Alegres campos, verdes, deleitosos, Suaves me serão vossas boninas, Em quanto forem vistas das meninas Dos olhos de Ignez bella tão formosos. Dos meus, que vos serão sempre invejosos Por não verem estrellas tão divinas, Sereis regados d'águas peregrinas, Soprados de suspiros amorosos. E vós, douradas flores, por ventura Se Ignez quizer fazer de meus amores Exp'riencias na folha derradeira, Mostrai-lhe, para ver minha fé pura, O bem que sempre quiz, formosas flores; Qu'então não sentirei que mal me queira.{105}

CCVIII.

Ondados fios de ouro, onde enlaçado. Continuamente tenho o pensamento; Que quanto mais vos sólta o fresco vento, Mais preso fico então de meu cuidado; Amor, d'huns bellos olhos sempre armado, Me combate co'as fôrças do tormento, Provando da minha alma o soffrimento Que á justa lei da paz trago obrigado. Assi que em vosso gesto mais que humano Amo a paz juntamente e o perigo; E em amar hum e outro não me engano. Muitas vezes dizendo estou comigo Que, pois he tal a causa de meu dano, He justa a guerra, he justa a paz que sigo.

CCIX.

Amor, que em sonhos vãos do pensamento Paga o zêlo maior de seu cuidado, Em toda condição, em todo estado, Tributario me fez de seu tormento. Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento De quanto tenho a Amor sacrificado, Nas mãos da ingratidão despedaçado Por prêza vai do eterno esquecimento. Mas quando muito, em fim, cresça o perigo, A que perpetuamente me condena Amor, que amor não he, mas inimigo; Tenho hum grande descanso em minha pena, Que a gloria do querer, que tanto sigo, Não póde ser co'os males mais pequena.{106}

CCX.

Nem o tremendo estrépito da guerra Com armas, com incendios espantosos Que despachão pelouros perigosos, Bastantes a abalar huma alta serra, Podem pôr medo a quem nenhum encerra, Despois que vio os olhos tão formosos, Por quem o horror nos casos pavorosos De mi todo se aparta e se desterra, A vida posso ao fogo e ferro dar, E perdê-la em qualquer duro perigo, E nelle, como phenix, renovar. Não póde mal haver para comigo, De qu'eu ja me não possa bem livrar, Senão do que me ordena Amor imigo.

CCXI.

Fiou-se o coração, de muito isento, De si, cuidando mal que tomaria Tão illicito amor, tal ousadia, Tal modo nunca visto de tormento. Mas os olhos pintárão tão a tento Outros que vistos t~ee na phantasia, Que a razão, temerosa do que via, Fugio, deixando o campo ao pensamento. Ó Hippolyto casto, que de geito De Phedra tua madrasta foste amado, Que não sabia ter nenhum respeito; Em mi vingou Amor teu casto peito: Mas está deste aggravo tão vingado, Que se arrepende ja do que t~ee feito.{107}

CCXII.

Quem quizer ver d'amor huma excellencia Onde sua fineza mais se apura, Attente onde me põe minha ventura, Porque de minha fé faça exp'riencia. Onde lembranças mata a larga ausencia, Em temeroso mar, em guerra dura, A saudade alli'stá mais segura, Quando risco maior corre a paciencia. Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado, Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição, Ou em sublime e próspera ventura; Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado; Que até na dura morte me acharão Na lingua o nome, e n'alma a vista pura.

CCXIII.

Los ojos que con blando movimiento Al pasar enternecen la alma mia, Si detener pudiera solo un dia, Pudiera bien libraria de tormento. Deste tan amoroso sentimiento El importuno mal se acabaria; Ó tambien su accidente creceria Para acabar la vida en un momento. Oh! si ya tu esquivez me permitiese Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso, A manos de tus ojos yo muriese! Oh si los detuvieras! cuan dichoso Seria aquel momento en que me viese Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!{108}

CCXIV.

No bastaba que amor puro y ardiente Por términos la vida me quitase; Mas que la muerte así se apresurase Con un deshumanisimo accidente? No pretendió mi alma, aunque lo siente, Que el riguroso curso se atajase, Porque nunca morir se exprimentase Desamado el que amó tan dulcemente. Mas vuestra voluntad tan poderosa Con esas gracias vuestras ordenaron Crueldad asi imposible, ó nunca oída. Aquel frio desden, y la amorosa Furia, de un golpe solo, me quitaron Con dós contrarias muertes una vida.

CCXV.

Ayudame, Señora, á hacer venganza De tal selvatiquez, de tal rudeza, Pues de mi poquedad, de mi bajeza Osado á ti elevaba la esperanza. Á esa tu perfeccion, que no se alcanza, Á esas sublimes cumbres de belleza, Donde una vez llegó naturaleza, Mas de volver perdió la confianza. Aquello que en ti miro contemplando, (Que apenas contemplarlo me consiente) Contemplándolo mas, menos lo espero. Si gloria de mi pena en ti se siente, Derrama en mí tus iras, desamando; Que al ofenderme mas yo mas te quiero.{109}

CCXVI.

O claras águas deste blando rio, Que en vos al natural estais pintando El frondífero adorno con que alzando Se vá á los cielos este bosque umbrio; Así las lluvias, así el Austro frio Jamás puedan veniros enturbiando, Que os vais del seco estio preservando Con socorreros deste llanto mio. Y cuando en vos Marfisa se mirare, Mi figura, cual veis desfallecida, Ante sus claros ojos puesta sea. Y si por mí de vos los apartare, De verme alli mostrándose ofendida, En pena de no verme no se vea.

CCXVII.

Mil veces entre sueños tu figura, O bella Ninfa, claramente veo; Y cuando mas la miro, mas deseo Gozar libre de sueños su hermosura. En tanto que este dulce engaño dura, Vivo en la vana gloria que poseo: Mas cuanto allí se eleva mi deseo, Viene a caer despierto en sombra escura. Duéleme el despertar por contemplarte; Que si bien sé te huelgas de no verme, Huélgome de ser ciego por mirarte. Mas si quiero de engaños mantenerme, Y tú quieres me pierda por amarte, Sin gran ganancia no podré perderme.{110}

CCXVIII.

Mi gusto y tu beldad se desposaron, Terceros por mi mal mis ojos fueron: Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron Un hijo hermoso á quien amor llamaron. Tan fuera de compás le regalaron, Que cuando mas alegres estuvieron, Sin entender el mal que produjeron, Perdidos por amores se miraron. La beldad desposada deste duelo, Vino á parir un monstro con dós alas; La madre es la soberbia, el niño el zelo. Oh madre que á tu hijo en todo igualas! Quien mortal hace al inmortal abuelo, Y al padre mortal da inmortales zalas?

CCXIX.

Si el fuego que me enciende, consumido De algun mas suelto Aquario ser pudiese; Si el alto suspirar me convertiese En aire por el aire desparcido; Si un horrible rumor siendo sentido, La alma á dejar el cuerpo redujese; Ó por estos mis ojos al mar fuese Este mi cuerpo en llanto convertido; Nunca podria la fortuna airada, Com todos sus horrores, sus espantos, Derrocar la alma mia de su gloria. Porque en vuestra beldad ya transformada, Ni del Estigio lago eternos llantos Os podrian quitar de mi memoria.{111}

CCXX.

Que me quereis perpétuas saudades? Com qu'esperanças inda me enganais? O tempo, que se vai, não torna mais, E se torna, não tornão as idades. Razão he ja, ó annos, que vos vades, Porque estes tão ligeiros que passais, Nem todos para hum gôsto sois iguais, Nem sempre são conformes as vontades. Aquillo a que ja quiz he tão mudado, Que quasi he outra cousa; porque os dias T~ee o primeiro gôsto ja damnado. Esperanças de novas alegrias, Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado, Que do contentamento são espias.

CCXXI.

Oh rigorosa ausencia desejada De mi sempre, mas nunca conhecida! Saudade, n'outro tempo tão temida, Como em meu damno agora exprimentada! Ja rigorosamente começada Tendes vossa esperança em minha vida; Mas tanto, que ja temo que opprimida Sejais com ella cedo, ou acabada. Os dias mais alegres me entristecem; As noites, com cuidados as desconto, Em que sem vós sem conto me parecem. Eu desejando espero, e os annos conto; Mas com a vida, em fim, elles fallecem: Nem basta á carne enfêrma esprito pronto.{112}

CCXXII.

Ay! quien dará á mis ojos una fuente De lágrimas que manen noche y dia? Respirara si quiera la alma mia, Llorando lo pasado, y lo presente. Quien me diera apartado de la gente, De mi dolor siguiendo la porfia Con la triste memoria y fantasia Del bien por quien mal tanto así se siente! Quien me dará palabras con que iguale El duro agravio que el amor me ha hecho, Donde tan poco el sufrimiento vale? Quien me abrirá profundamente el pecho, Dó está escrito el secreto que no sale, Con tanto dolor mio, á mi despecho?

CCXXIII.

Con razon os vais, aguas, fatigando Por llegar dó sereis bien recebidas; Y en aquel mar inmenso convertidas, Que ya de tantos dias vais buscando. Triste de aquel que siempre anda llorando Las vanas esperanzas ya perdidas, Y con dolor las lágrimas vertidas Nunca al fin pretendido van llegando! Vosotras sin traer derecha via, Al término llegais tan deseado, Por mas que os embarace el gran rodeo; Mas yo siempre afligido noche y dia, Por un camino, que no llevo errado, Jamás puedo llegar donde deseo.{113}

CCXXIV.

Oh cese ya, Señor, tu dura mano! No llegues tanto al cabo con mi vida; Baste el estar por ti tan consumida, Que ya no se halla en ella lugar sano. Ay estraña hermosura! ay deshumano Hado, á que nunca puedo hallar salida! Si tú de tu piedad no eres movida, Roto el hilo vital verás temprano. Un blando desamor, un amor blando, Bien basta para un hombre tan perdido, Que de su mal ningun remedio espera. Y si estimas en poco el ver cual ando, Aqui me tienes ante ti rendido: Viva tu gusto, mi esperanza muera.

CCXXV.

Dulces engaños de mis ojos tristes, Cuan vivo despertais mi pensamiento! Aquello que pudiera dar contento, En sombra de pintura lo volvistes. De blando sobresalto enternecistes Con vista arrebatada el sentimiento; Mas no le asegurastes un momento Aqueste vano bien que le ofrecistes. Veo que la figura era fingida, Y no aquella que en sí mi alma esconde, Aunque en esto se llega al natural: Así escucha mi llanto, así responde, Así se condolece de mi vida, Como si fuera el propio original.{114}

CCXXVI.

Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste, Como si alguno alegre yo esperara? Como, o Tajo, al pasar esa tu clara Agua, no la alteraste, y no me hundiste? El paso me cerraste, el pecho abriste, O mi ventura, de mi bien avara! Á Dios, montañas de hermosura rara; Á Dios, mi corazon, que no partiste. Si adonde quedas en dichosa suerte No bebieres las aguas del olvido, En tanto bien no quieras olvidarme. Cantando mi dolor llora mi muerte; Porque hasta el hueco monte sin sentido Suelta su ronca voz por consolarme.

CCXXVII.

Levantai, minhas Tagides, a frente, Deixando o Tejo ás sombras nemorosas; Dourai o valle umbroso, as frescas rosas, E o monte com as árvores frondente. Fique de vós hum pouco o rio ausente, Cessem agora as lyras numerosas, Cesse vosso lavor, Nymphas formosas, Cesse da fonte vossa a grã corrente. Vinde a ver a Theodosio grande e claro, A quem 'stá offrecendo maior canto Na cithara dourada o louro Apolo. Minerva do saber dá-lhe o dom raro, Pallas lhe dá o valor de mais espanto, E a Fama o leva ja de pólo a pólo.{115}

CCXXVIII.

Vós, Nymphas da Gangetica espessura, Cantae suavemente, em voz sonora, Hum grande Capitão que a roxa Aurora Dos filhos defendeo da noite escura. Ajuntou-se a caterva negra e dura, Que na Aurea Chersoneso affouta mora, Para lançar do charo ninho fóra Aquelles que mais podem que a ventura. Mas hum forte leão, com pouca gente, A multidão tão fera como necia, Destruindo castiga e torna fraca. Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente Mais do que Leonidas fez em Grecia, O nobre Leoniz fez em Malaca.

CCXXIX.

Alma gentil, que á firme eternidade Subiste clara e valerosamente, Cá durará de ti perpetuamente A fama, a gloria, o nome e a saudade. Não sei se he mor espanto em tal idade Deixar de teu valor inveja á gente, Se hum peito de diamante, ou de serpente, Fazeres que se mova a piedade. Invejosa da tua acho mil sortes, E a minha mais que todas invejosa, Pois ao teu mal o meu tanto igualaste. Oh ditoso morrer! sorte ditosa! Pois o que não se alcança com mil mortes, Tu com huma só morte o alcançaste.{116}

CCXXX.

Debaixo desta pedra sepultada Jaz do mundo a mais nobre formosura, A quem a morte, só de inveja pura, Sem tempo sua vida t~ee roubada, Sem ter respeito áquella assi estremada Gentileza de luz, que a noite escura Tornava em claro dia; cuja alvura Do sol a clara luz tinha eclipsada. Do sol peitada foste, cruel morte, Para o livrar de quem o escurecia; E da lua, que ante ella luz não tinha. Como de tal poder tiveste sorte? E se a tiveste, como tão asinha Tornaste a luz do mundo em terra fria?

CCXXXI.

Imagens vãas me imprime a phantasia; Discursos novos acha o pensamento; Com que dão á minha alma grão tormento Cuidados de cem annos n'hum só dia. Se fim grande tivessem, bem sería Responder a esperança ao fundamento: Mas o fado não corre tão a tento, Que reserve á razão sua valia. Caso e Fortuna pódem acertar; Mas se por accidente dão victoria, Sempre o favor da Fama he falsa historia. Excede ao saber, determinar: Á constancia se deve toda a gloria: O ânimo livre he digno de memoria.{117}

CCXXXII.

Quanta incerta esperança, quanto engano! Quanto viver de falsos pensamentos! Pois todos vão fazer seus fundamentos Só no mesmo em qu'está seu proprio dano. Na incerta vida estribão de hum humano; Dão credito a palavras que são ventos; Chórão despois as horas e os momentos, Que rírão com mais gôsto em todo o ano. Não haja em apparencias confianças; Entendei que o viver he de emprestado; Que o de que vive o mundo são mudanças. Mudai, pois, o sentido e o cuidado, Somente amando aquellas esperanças Que durão para sempre com o amado.

CCXXXIII.

Mal, que de tempo em tempo vás crescendo, Quem te visse de hum bem acompanhado! A vida passaria descansado, Da morte não temêra o rosto horrendo. Se os vãos cuidados fôra convertendo Em suspiros que dão outro cuidado, Oh quão prudente, oh quão affortunado A capella do louro irá tecendo! Tempo he ja de esquecer contentamentos Passados, co'a esperança que passou, E de que triumphem novos pensamentos. A fé, que viva n'alma me ficou, Dê ja fim aos caducos ardimentos A que o passado bem se condemnou.{118}

CCXXXIV.

Oh quanto melhor he o supremo dia Da mansa morte, que o do nascimento! Oh quanto melhor he hum só momento, Que livra de annos tantos de agonia! De alcançar outro bem cesse a porfia; Cesse todo applicado pensamento De tudo quanto dá contentamento, Pois só contenta ao corpo a terra fria. O que do seu fez Deos seu despenseiro, T~ee mais estreita conta que lhe dar: Então parece rico o ovelheiro. Triste de quem no dia derradeiro T~ee o suor alheio por pagar, Pois a alma ha de vender por o dinheiro!

CCXXXV.

Como podes (oh cego peccador!) Estar em teus errores tão isento, Sabendo que esta vida he hum momento, Se comparada com a eterna for? Não cuides tu que o justo Julgador Deixará tuas culpas sem tormento, Nem que passando vai o tempo lento Do dia de horrendíssimo pavor. Não gastes horas, dias, mezes, anos, Em seguir de teus damnos a amisade De que despois resultão mores danos. E pois de teus enganos a verdade Conheces, deixa ja tantos enganos, Pedindo a Deos perdão com humildade.{119}

CCXXXVI.

Verdade, Amor, Razão, Merecimento, Qualquer alma farão segura e forte; Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte, T~ee do confuso mundo o regimento. Effeitos mil revolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte: Mas sabe que o que he mais que vida e morte Não se alcança de humano entendimento. Doctos varões darão razões subidas; Mas são as exp'riencias mais provadas: E por tanto he melhor ter muito visto. Cousas ha hi que passão sem ser cridas: E cousas cridas ha sem ser passadas. Mas o melhor de tudo he crer em Christo.

CCXXXVII.

De Babel sôbre os rios nos sentámos, De nossa doce patria desterrados, As mãos na face, os olhos derribados, Com saudades de ti, Sião, chorámos. Os orgãos nos salgueiros pendurámos, Em outro tempo bem de nós tocados; Outro era elle, por certo, outros cuidados; Mas por deixar saudades os deixâmos. Aquelles que captivos nos trazião Por cantigas alegres perguntavão: Cantai (nos dizem) hymnos de Sião. Sôbre tal pena, pena tal nos dão, Pois tyranicamente pretendião Que cantassem aquelles que choravão.{120}

CCXXXVIII.

Sôbre os rios do Reino escuro, quando Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão, Lagrimas nossos olhos derramárão, Por ti, Sião divina, suspirando, Os que hião nossas almas infestando, De contino em error, as captivárão; E em vão por nossos Psalmos perguntárão; Que tudo era silencio miserando. Dizendo estamos: Como cantaremos As acceitas canções a Deos benino, Quando a contrarios seus obedecemos? Mas ja, Senhor só Santo, determino, Deixando viciosissimos extremos, Os cantos proseguir de Amor Divino.

CCXXXIX.

Em Babylonia sôbre os rios, quando De ti, Sião sagrada, nos lembrámos, Alli com grã saudade nos sentámos, O bem perdido, miseros, chorando. Os instrumentos musicos deixando, Nos estranhos salgueiros pendurámos, Quando aos cantares, que ja em ti cantámos, Nos estavão imigos incitando. Ás esquadras dizemos inimigas: Como hemos de cantar em terra alhea As cantigas de Deos, sacras cantigas? Se a lembrança eu perder que me recrea Cá nestas penosissimas fadigas, Oblivioni detur dextra mea.{121}

CCXL.

Aponta a bella Aurora, luz primeira, Que a grã nova nos deo do claro dia: Vesti-vos, corações, ja de alegria, E recebei da vida a Mensageira. Da humana Redempção nasce a Terceira: Alegra-te, Divina Monarchia; Da terra terás cedo a companhia, Do ceo verás tambem a nossa feira. De tal obra se espanta a natureza, Confuso fica de temor o inferno, Vendo a que nasce isenta da defeza. Lei geral era posta desde eterno; Mas o Senhor da Lei toda limpeza Para o Sacrario seu guardou Materno.

CCXLI.

Porque a terra no ceo agasalhasse, O ceo na terra Deos agasalhou: Lá não cabendo, cá se accommodou, Porque lá, de cá indo, se alargasse. Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse, Por o homem a ser homem Deos chegou: Seu divino poder tanto humanou, Porque o humano em divino se tornasse. Vêde bem o que deo e recebeo: Não se perca hum bem tanto da memoria: Deo-nos a vida, a morte padeceo. Trocou por nossa pena a sua gloria; Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo; Porque amor foi auctor desta victoria.{122}

CCXLII.

Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo. Para quem? Para o genero he humano. Que faz delle? Hum remedio soberano. Para que? Para a culpa e triste pranto. E que obra? Reduzir Lusbel a espanto. Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano. Que foi? A morte deo com hum engano. Tanto pôde? Sem falta pôde tanto. Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo. A que desce? A subir a creatura. Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo. He escada para ir lá? E a mais segura. Quem o obrigou? De amor só se venceo. Que amava este Feitor? Sua feitura.

CCXLIII.

Oh Arma unicamente só triumphante, Propugnaculo só de nossas vidas, Por quem forão ganhadas as perdidas Com que o Tartaro horrendo andava ovante! Sigua-se esta bandeira militante Por quem são taes victorias conseguidas, Por quantas almas, della divertidas, No Ponente errão cá, lá no Levante. Oh Arvore sublime, e marchetada De branco e carmesi, de ouro embutida, Dos rubis mais preciosos esmaltada, E de trophéos mais claros guarnecida! Á vida a morte vimos em ti dada, Para qu'em ti se désse á morte a vida.{123}

CCXLIV.

Aos homens hum só homem poz espanto, E o poz a toda a humana natureza; Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza, Porqu'antes que nascesse era ja Santo. Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto, Qu'entre os nascidos houve a mor alteza; Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza, Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto. Aquella voz foi elle sonorosa, No concavo dos Orbes resonante, E que a Carne inculpavel baptizou; Quem do mor Pae ouvio a voz amante; Quem a subtil pergunta industriosa Com sincera resposta socegou.

CCXLV.

Vós só podeis, sagrado Evangelista, Angelico abrazado Seraphim, E na sciencia mais alto Cherubim, Do que he mais sabio Amor ser Coronista. Divina e real Aguia, cuja vista Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim, De Jacob mais querido Benjamim, Quem mais campêa de Joseph na lista. Apostolo, e Propheta, e Patriarca, Ao Principe dos Ceos o mais acceito, Qu'em seu seio dormindo então mais via. A quem o mesmo Deos por irmão marca; Quem por filho da Mãe unica feito, Em corpo e alma goza o claro dia.{124}

CCXLVI.

Como louvarei eu, Seraphim santo, Tanta humildade, tanta penitencia, Castidade, e pobreza, e paciencia, Com este meu inculto e rudo canto? Argumento que ás Musas põe espanto, Que faz muda a grandiloqua eloquencia. Oh imagem, qu'a Divina Providencia De si viva em vós fez para bem tanto! Fostes de Santos huma rara mina; Almas de mil a mil ao ceo mandastes Do mundo, que perdido reformastes. E não roubaveis só com a doutrina As vontades mortaes, mas a Divina; Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.

CCXLVII.

Ditosas almas, que ambas juntamente Ao ceo de Venus e de Amor voastes, Onde hum bem que tão breve cá lograstes, Estais logrando agora eternamente; Aquelle estado vosso tão contente, Que só por durar pouco triste achastes, Por outro mais contente ja o trocastes, Onde sem sobresalto o bem se sente. Triste de quem cá vive tão cercado, Na amorosa fineza, de hum tormento Que a gloria lhe perturba mais crescida! Triste, pois me não val o soffrimento, E Amor para mais damno me t~ee dado Para tão duro mal tão larga vida!{125}

CCXLVIII.

Contente vivi ja, vendo-me isento Deste mal de que a muitos queixar via: Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria Discordia e semrazão, guerra e tormento. Enganou-me co'o nome o pensamento: (Quem com tal nome não se enganaria?) Agora tal estou, que temo hum dia Em que venha a faltar-me o soffrimento. Com desesperação, e com desejo Me paga o que por elle estou passando, E inda está do meu mal mal satisfeito. Pois sôbre tantos damnos inda vejo Para dar-me outros mil hum olhar brando, E para os não curar hum duro peito.

CCXLIX.

Deixa Apollo o correr tão apressado, Não sigas essa Nympha tão ufano: Não te leva o amor, leva-te o engano Com sombras de algum bem a mal dobrado. E quando seja amor, será forçado; E se forçado for, será teu dano. Hum parecer não queiras mais que humano Em hum sylvestre adôrno ver tornado. Não percas por hum vão contentamento A vista que te faz viver contente; Modera em teu favor o pensamento. Porque menos mal he, tendo-a presente, Soffrer sua crueza, e teu tormento, Que sentir sua ausencia eternamente.{126}

CCL.

Nas Cidades, nos bosques, nas florestas, Nos valles, e nos montes, teus louvores Sempre te cantem musicos pastores Nas manhãas frias, nas ardentes sestas. E neste Templo donde manifestas E repartes agora teus favores, Com Psalmos, hymnos, e com varias flores Sejão celebres sempre as tuas festas. Estes te offreção pés, ess'outros mãos; D'aquelles pendão sôbre os teus altares Monstros do mar, de servidão prisões. Que eu cuidados, enganos e affeições, Muito maiores monstros, e milhares Te deixo aqui de pensamentos vãos.

CCLI.

Vi queixosos de Amor mil namorados, E nenhuns inda vi com seus louvores; E aquelle que mais chora o mal de amores, Vejo menos fugir de seus cuidados. Se das dores de Amor sois mal tratados, Porque tanto buscais de Amor as dores? E se tambem as tendes por favores, Porque dellas fallais como aggravados? Não queirais alegria achar alg~ua No Amor, porque he composto de tristeza, Na fortuna que acheis mais agradavel. Nella e nelle achei sempre a mesma l~ua, Em quem nunca se vio outra firmeza, Que não seja a de ser sempre mudavel.{127}

CCLII.

Se lagrimas choradas de verdade O marmore abrandar podem mais duro, Porque as minhas que nascem de amor puro Hum coração não rendem a piedade? Por vós perdi, Senhora, a liberdade, E nem da propria vida estou seguro. Rompei desse rigor o forte muro, Não passe tanto avante a crueldade. Ao prezar de desprezos dae ja fim: Não vos chamem cruel; nome devido A quem se ri de quem suspira e ama. Abrandai esse peito endurecido, Por o que toca a vós, ja não por mim, Que eu aventuro a vida, e vós a fama.

CCLIII.

Ja me fundei em vãos contentamentos, Quando delles vivi todo enganado De hum phantastico bem, e de hum cuidado, De que só cuidão cegos pensamentos. Passava dias, horas e momentos, Deste enleio de amores tão pagado, Que tinha só por bem-aventurado Quem só por elles mais bebia os ventos. Mas agora que ja cahi na conta, Desengana-me quanto me enganava; Que tudo o tempo dá, tudo descobre. O Amor mais caudaloso menos monta. Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava, Aquelle que de amores he mais pobre.{128}

CCLIV.

Em huma lapa toda tenebrosa, Adonde bate o mar com furia brava, Sôbre h~ua mão o rosto, vi qu'estava Huma Nympha gentil, mas cuidadosa. Igualmente que linda, lastimosa, Aljofar dos seus olhos distillava: O mar os seus furores applacava Com ver cousa tão triste e tão formosa. Alguma vez na horrivel penedia Os bellos olhos punha com brandura, Bastante a desfazer sua dureza. Com angelica voz assi dizia: Ah! que falte mais vezes a ventura Onde sobeja mais a natureza!

CCLV.

Se em mim, ó alma, vive mais lembrança Que aquella só da gloria de querer-vos, Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos, E de ver-vos tambem toda a esperança. Veja-se em mi tão rustica esquivança, Que possa indigno ser de conhecer-vos; E, quando em mor empenho de aprazer-vos, Vos offenda, se em mi houver mudança. Confirmado estou ja nesta certeza: Examine-me vossa crueldade, Exprimente-se em mi vossa dureza. Conhecei ja de mi tanta verdade; Pois em penhor e fé desta pureza Tributo vos fiz ser o que he vontade.{129}

CCLVI.

Ilustre Gracia, nombre de una moza, Primera malhechora en este caso Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso, Sugeto digno de immortal coroza; Si en medio de la Iglesia no reboza El manto á vuestro rostro tan devaso, Por vos dirán las gentes recio y paso: Veis quien con el demonio se retoza. Puede mover los montes sin trabajo; Con palabras el curso al agua enfrena; Por las ondas hará camino enjuto. Averguenza su patria y rico Tajo, Que por ella hombres lleva, mas que arena, De que paga al infierno gran tributo.

CCLVII.

Qual t~ee a borboleta por costume, Qu'enlevada na luz da acesa vella, Dando vai voltas mil, até que nella Se queima agora, agora se consume: Tal eu correndo vou ao vivo lume D'esses olhos gentis, Aonia bella; E abrazo-me, por mais que com cautella Livrar-me a parte racional presume. Conheço o muito a que se atreve a vista, O quanto se levanta o pensamento, O como vou morrendo claramente; Porém não quer Amor que lhe resista, Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento, Qual em gloria maior está contente.{130}

CCLVIII.

Lembranças de meu bem, doces lembranças Que tão vivas estais nesta alma minha, Não queirais mais de mi, se os bens que tinha Em poder vêdes todos de mudanças. Ai cego Amor! ai mortas esperanças De qu'eu em outro tempo me matinha! Agora deixareis quem vos sostinha; Acabarão co'a vida as confianças. Co'a vida acabarão, pois a ventura Me roubou n'hum momento aquella gloria, Que, quando tão grande he, tão pouco dura. Oh se apoz o prazer fôra a memoria! Ao menos estivera a alma segura De ganhar-se com ella mais victoria.

CCLIX.

Formosos olhos, que cuidado dais Á mesma luz do sol mais clara e pura; Que sua esclarecida formosura, Com tanta gloria vossa, atraz deixais; Se por serdes tão bellos desprezais A fineza de amor que vos procura, Pois tanto vêdes, vêde que não dura O vosso resplandor quanto cuidais. Colhei, colhei do tempo fugitivo E de vossa belleza o doce fruto; Qu'em vão fóra de tempo he desejado. E a mi, que por vós morro, e por vós vivo, Fazei pagar a Amor o seu tributo, Contente de por vós lho haver pagado.{131}

CCLX.

Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes, En lágrimas tratais la noche el dia, Mirad si es lágrima esta que os envia Aquel sol por quien vos tantas vertistes. Si vos me asegurais, pues ya la vistes, Que es lágrima, será ventura mia; Por empleadas bien desde hoy tendria Las muchas que por ella sola distes. Mas cualquier cosa mucho deseada, Aunque viendo se esté, nunca es creida; Y menos esta, nunca imaginada. Pero della aseguro, si es fingida, Que basta ser por lágrima enviada, Para que sea por lágrima tenida.

CCLXI.

T~ee feito os olhos neste apartamento Hum mar de saudosa tempestade, Que póde dar saudade á saudade, Sentimentos ao proprio sentimento. Em dor vai convertido o soffrimento, Em pena convertida a piedade; A razão tão vencida da vontade, Qu'escravo faz do mal o entendimento. A lingua não alcança o qu'a alma sente. E assi, se alguem quizer em algum'hora Saber que cousa he dor não comprehendida, Parta-se do seu bem, porque exprimente Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra Partir-se do viver para ter vida.{132}

CCLXII.

A peregrinação d'hum pensamento, Que dos males fez hábito e costume, Tanto da triste vida me consume, Quanto cresce na causa do tormento. Leva a dor de vencida ao soffrimento; Mas a alma está, de entregue, tão sem lume, Qu'enlevada no bem que haver presume, Não faz caso do mal qu'está de assento. De longe receei (se me valêra) O perigo que tanto á porta vejo, Quando não acho em mi cousa segura. Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!) Qu'entendimentos presos do desejo Não t~ee remedio mais que o da ventura.

CCLXIII.

Acho-me da fortuna salteado; O tempo vai fugindo presuroso, Deixando-me da vida duvidoso, E cada instante mais desesperado. Trocou-se o meu descuido em tal cuidado, Que donde a gloria he mais, he mais penoso. Nem vivo de perder-me receoso, Nem de poder ganhar-me confiado. Qualquer ave nos montes mais agrestes, Qualquer fera na cova repousando, T~ee horas de alegria: eu todas tristes. Vós, saudosos olhos, que o quizestes, (Pois com tormento Amor me está pagando) Chorai, como que vêdes, o que vistes.{133}

CCLXIV.

Se no que tenho dito vos offendo, Não he a intenção minha de offender-vos; Qu'inda que não pretenda merecer-vos, Não vos desmerecer sempre pretendo. Mas he meu fado tal, segundo entendo, Que, por quanto ganhava em entender-vos, Não me deixa atégora conhecer-vos, Por a mi proprio m'ir desconhecendo. Os dias ajudados da ventura A cada qual de si dão desenganos, E a outros soe da-lo a desventura. Qual destas sirva a mi, dirão os danos Ou gostos que eu tiver, em quanto dura Esta vida, tão larga em poucos anos.

CCLXV.

Doce contentamento ja passado, Em que todo o meu bem só consistia, Quem vos levou de minha companhia, E me deixou de vós tão apartado? Quem cuidou que se visse neste estado Naquellas breves horas d'alegria, Quando minha ventura consentia Que d'enganos vivesse meu cuidado? Fortuna minha foi cruel e dura Aquella que causou meu perdimento, Com a qual ninguem póde ter cautella. Nem se engane nenhuma creatura; Que não póde nenhum impedimento Fugir o que lh'ordena sua estrella.{134}

CCLXVI.

Sempre, cruel Senhora, receei, Medindo vossa grã desconfiança, Que désse em desamor vossa tardança, E que me perdesse eu, pois vos amei. Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei, Pois n'outro amor ja tendes esperança. Tão patente será vossa mudança, Quanto eu encobri sempre o que vos dei. Dei-vos a alma, a vida e o sentido; De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora. Prometteis, e negais o mesmo Amor. Agora tal estou, que de perdido, Não sei por onde vou, mas algum'hora Vos dará tal lembrança grande dor.

CCLXVII.

Se a fortuna inquieta e mal olhada, Que a justa lei do Ceo comsigo infama, A vida quieta, qu'ella mais dasama, Me concedêra honesta e repousada; Pudéra ser que a Musa, alevantada Com luz de mais ardente e viva flama, Fizera ao Tejo lá na patria cama Adormecer co'o som da lyra amada. Porém, pois o destino trabalhoso, Que m'escurece a Musa fraca e lassa, Louvor de tanto preço não sustenta; A vossa, de louvar-me pouco escassa, Outro sogeito busque valeroso, Tal qual em vós ao mundo se apresenta.{135}

CCLXVIII.

Este amor, que vos tenho limpo e puro, De pensamento vil nunca tocado, Em minha tenra idade começado, Tê-lo dentro nesta alma só procuro. D'haver nelle mudança estou seguro, Sem temer nenhum caso, ou duro fado, Nem o supremo bem, ou baixo estado, Nem o tempo presente, nem futuro. A bonina e a flor asinha passa; Tudo por terra o inverno e estio deita; Só para meu amor he sempre Maio. Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa, E qu'essa ingratidão tudo me engeita, Traz este meu amor sempre em desmaio.

CCLXIX.

A formosura desta fresca serra, E a sombra dos verdes castanheiros, O manso caminhar destes ribeiros, Donde toda a tristeza se desterra; O rouco som do mar, a estranha terra, O esconder do sol pelos outeiros, O recolher dos gados derradeiros, Das nuvens pelo ar a branda guerra: Em fim, tudo o que a rara natureza Com tanta variedade nos offrece, M'está (se não te vejo) magoando. Sem ti tudo me enoja, e me aborrece; Sem ti perpetuamente estou passando Nas mores alegrias môr tristeza.{136}

CCLXX.

Sustenta meu viver huma esperança Derivada de hum bem tão desejado, Que quando nella estou mais confiado, Mor dúvida me põe qualquer mudança. E quando inda este bem na mór pujança De seus gostos me t~ee mais enlevado, Me atormenta então ver eu qu'alcançado Será por quem de vós não t~ee lembrança. Assi que, nestas redes enlaçado, A penas dou a vida, sustentando Huma nova materia a meu cuidado. Suspiros d'alma tristes arrancando, Dos silvos d'huma pedra acompanhado, Estou materias tristes lamentando.

CCLXXI.

Ja não sinto, Senhora, os desenganos, Com que minha affeição sempre tratastes, Nem ver o galardão, que me negastes, Merecido por fé ha tantos anos. A mágoa chóro só, só chóro os danos De ver por quem, Senhora, me trocastes; Mas em tal caso vós só me vingastes De vossa ingratidão, vossos enganos. Dobrada gloria dá qualquer vingança, Que o offendido toma do culpado, Quando se satisfaz com causa justa; Mas eu de vossos males e esquivança, De que agora me vejo bem vingado, Não a quizera tanto á vossa custa.{137}

CCLXXII.

Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse Essa grã perfeição e gentileza, Logo deo por sentença, que a crueza Em vosso peito amor accrescentasse. Determinou, que nada me apartasse, Nem desfavor cruel, nem aspereza; Mas qu'em minha rarissima firmeza Vossa isenção cruel se executasse. E, pois tendes aqui offerecida Est'alma vossa a vosso sacrificio, Acabai de fartar vossa vontade. Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida; Acabará morrendo em seu officio, Sua fé defendendo e lealdade.

CCLXXIII.

Eu vivia de lagrimas isento, N'hum engano tão doce e deleitoso, Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso Não valião mil glorias hum tormento. Vendo-me possuir tal pensamento, De nenhuma riqueza era invejoso; Vivia bem, de nada receoso, Com doce amor e doce sentimento. Cobiçosa a Fortuna, me tirou Deste meu tão contente e alegre estado; E passou-se este bem, que nunca fôra: Em trôco do qual bem só me deixou Lembranças, que me mátão cada hora, Trazendo-me á memoria o bem passado.{138}

CCLXXIV.

Indo o triste pastor todo embebido Na sombra de seu doce pensamento, Taes queixas espalhava ao leve vento, Co'hum brando suspirar d'alma sahido: A quem me queixarei, cego, perdido, Pois nas pedras não acho sentimento? Com quem fallo? A quem digo meu tormento? Que onde mais chamo, sou menos ouvido. Ó bella Nympha, porque não respondes? Porque o olhar-me tanto m'encareces? Porque queres que sempre me querelle? Eu quanto mais te busco, mais te escondes! Quanto mais mal me vês, mais te endureces! Assim que co'o mal cresce a causa delle.

CCLXXV.

Dizei, Senhora, da belleza idêa, Para fazerdes esse aureo crino, Onde fostes buscar esse ouro fino? De qu'escondida mina ou de que vêa? Dos vossos olhos essa luz Phebêa, Esse respeito, de hum Imperio dino? Se o alcançastes com saber divino, Se com encantamentos de Medéa? De qu'escondidas conchas escolhestes As perlas preciosas Orientais, Que fallando mostrais no doce riso? Pois vos formastes tal, como quizestes, Vigiai-vos de vós, não vos vejais, Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.{139}

CCLXXVI.

Na ribeira do Euphrates assentado, Discorrendo me achei pela memoria Aquelle breve bem, aquella gloria, Que em ti, doce Sião, tinha passado. Da causa de meus males perguntado Me foi: Como não cantas a historia De teu passado bem, e da victoria Que sempre de teu mal has alcançado? Não sabes, que a quem canta se lhe esquece O mal, indaque grave e rigoroso? Canta pois, e não chores dessa sorte. Respondi com suspiros: Quando crece A muita saudade, o piedoso Remedio he não cantar, senão a morte.

CCLXXVII.

Chorai, Nymphas, os fados poderosos Daquella soberana formosura. Onde forão parar? na sepultura? Aquelles Reaes olhos graciosos? Oh bens do mundo falsos e enganosos! Que mágoas para ouvir! Que tal figura Jaza sem resplandor na terra dura Com tal rosto e cabellos tão formosos! Das outras que será! pois poder teve A morte sôbre cousa tanto bella, Que ella eclipsava a luz do claro dia. Mas o mundo não era digno della, Por isso mais na terra não esteve, Ao ceo subio, que ja se lhe devia.{140}

CCLXXVIII.

Senhora ja desta alma, perdoae De hum vencido de Amor os desatinos, E sejão vossos olhos tão beninos Com este puro amor, que d'alma sae. A minha pura fé sómente olhae, E vêde meus extremos se são finos; E se de alguma pena forem dinos, Em mim, Senhora minha, vos vingae. Não seja a dor que abraza o triste peito Causa por onde pene o coração, Que tanto em firme amor vos he sujeito. Guardae-vos do que alguns, dama, dirão, Que sendo raro em tudo vosso objeito, Possa morar em vós ingratidão.

CCLXXIX.

Doce sonho, suave e soberano, Se por mais longo tempo me durára! Ah quem de sonho tal nunca acordára, Pois havia de ver tal desengano! Ah deleitoso bem! ah doce engano! Se por mais largo espaço me enganára! Se então a vida misera acabára, De alegria e prazer morrêra ufano. Ditoso, não estando em mi, pois tive Dormindo o que acordado ter quizera. Olhae com que me paga meu destino! Em fim, fóra de mim ditoso estive. Em mentiras ter dita razão era, Pois sempre nas verdades fui mofino.{141}

CCLXXX.

Diana prateada, esclarecida Com a luz que do claro Phebo ardente, Por ser de natureza transparente, Em si, como em espelho, reluzia, Cem mil milhões de graças lhe influia, Quando me appareceo o excellente Raio de vosso aspecto, diferente Em graça e em amor do que sohia. Eu vendo-me tão cheio de favores, E tão propinquo a ser de todo vosso, Louvei a hora clara, e a noite escura, Pois nella déstes côr a meus amores: Donde collijo claro que não posso De dia para vós ja ter ventura.

CCLXXXI.

Em quanto Phebo os montes accendia Do ceo com luminosa claridade, Por conservar illesa a castidade Na caça o tempo Delia despendia. Venus, qu' então de furto descendia Por captivar de Anchises a vontade, Vendo Diana em tanta honestidade, Quasi zombando della, lhe dizia: Tu vás com tuas redes na espessura Os fugitivos cervos enredando; Mas as minhas enredão o sentido. Melhor he (respondia a deosa pura) Nas redes leves cervos ir tomando, Que tomar-te a ti nellas teu marido.{142}

CCLXXXII.

N'hum tão alto lugar, de tanto preço, Este meu pensamento posto vejo, Que desfallece nelle inda o desejo, Vendo quanto par mi o desmereço. Quando esta tal baixeza em mi conheço, Acho que cuidar nelle he grão despejo, E que morrer por elle me he sobejo E mór bem para mi, do que mereço. O mais que natural merecimento De quem me causa hum mal tão duro e forte, O faz que vá crescendo de hora em hora. Mas eu não deixarei meu pensamento, Porque inda qu'este mal me causa a morte, Un bel morir tutta la vita honora.

CCLXXXIII.

Quantas penas, Amor, quantos cuidados, Quantas lagrimas tristes sem proveito, De que mil vezes olhos, rosto e peito, Por ti, cego, me viste ja banhados; Quantos mortaes suspiros derramados Do coração por tanto a ti sujeito, Quantos males, em fim, tu me tens feito, Todos forão em mi bem empregados. A tudo satisfaz (confesso-te isto) Huma só vista branda e amorosa De quem me captivou minha ventura. Oh sempre para mi hora ditosa! Que posso temer ja, pois tenho visto, Com tanto gôsto meu, tanta brandura?{143}

CCLXXXIV.

Posto me t~ee fortuna em tal estado, E tanto a seus pés me t~ee rendido! Não tenho que perder, ja de perdido, Nem tenho que mudar, ja de mudado. Todo bem para mi he acabado: D'aqui dou o viver ja por vivido; Que aonde o mal he tão conhecido, Tambem o viver mais será'scusado. Se me basta querer, a morte quero, Que bem outra esperança não convem: E curarei hum mal com outro mal. E pois do bem tão pouco bem espero, Ja que o mal este só remedio tem, Não me culpem em qu'rer remedio tal.

CCLXXXV.

Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes, Y en lágrimas pasais la noche y dia, Mirad si es llanto este que os envia Aquella por quien vos tantas vertistes: Sentid, mis ojos, bien esta que vistes; Y si ella lo es, oh gran ventura mia! Por muy bien empleadas las habria Mil cuentos que por esta sola distes. Mas una cosa mucho deseada, Aunque se vea cierta, no es creida, Cuanto mas esta, que me es enviada. Pero digo, que aunque sea fingida, Que basta que por lágrima sea dada, Porque sea por lágrima tenida.{144}

CCLXXXVI.

Que póde ja fazer minha ventura, Que seja para meu contentamento? Ou como fazer devo fundamento De cousa que o não t~ee, nem he segura? Que pena póde ser tão certa e dura, Que possa ser maior que meu tormento? Ou como receará meu pensamento Os males, se com elles mais se apura? Como quem se costuma de pequeno Com peçonha criar por mão sciente, Da qual o uso ja o t~ee seguro: Assim de acostumado co'o veneno, O uso de soffrer meu mal presente Me faz não sentir ja nada o futuro.{145}

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