← Table of contents
Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

CANÇÃO VIII.[3]

Reading edition

CANÇÃO VIII.[3]

Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente, Caso que nunca em verso foi cantado, Nem d'antes entre a gente acontecido. Assi me paga em parte o meu cuidado; Pois que quer que me louve e represente Quão bem soube no mundo ser perdido. Sou parte, e não serei da gente crido: Mas he tamanho o gôsto de louvar-me, E de manifestar-me Por captivo de gesto tão formoso,{323} Que todo o impedimento Rompe e desfaz a gloria do tormento Peregrino, suave e deleitoso; Que bem sei que o que canto Ha d'achar menos credito qu'espanto. Em vivia do cego Amor isento, Porém tão inclinado a viver preso, Que me dava desgôsto a liberdade. Hum natural desejo tinha acceso D'algum ditoso e doce pensamento, Que m'illustrasse a insana mocidade. Tornava do anno ja a primeira idade; A revestida terra s'alegrava, Quando o Amor me mostrava De fios d'ouro as tranças desatadas Ao doce vento estivo; Os olhos rutilando lume vivo, As rosas entre a neve semeadas; O gesto grave e ledo, Que juntos move em mi desejo e medo. Hum não sei que suave respirando, Causava hum desusado e novo espanto, Que as cousas insensiveis o sentião. Porque as garrulas aves, entretanto Vozes desordenadas levantando, Como eu em meu desejo, s'encendião. As fontes crystallinas não corrião, Inflammadas na vista clara e pura; Florecia a verdura, Que, andando, co'os ditosos pés tocava; As ramas se baixavão,{324} Ou d'inveja das hervas que pizavão, Ou porque tudo ant'elles se baixava: O ar, o vento, o dia, D'espiritos continuos influia. E quando vi que dava entendimento A cousas fóra delle, imaginei Que milagres faria em mi que o tinha: Vi que me desatou da minha lei, Privando-me de todo sentimento, E em outra transformando a vida minha. Com tamanhos poderes d'Amor vinha, Que o uso dos sentidos me tirava. E não sei como o dava Contra o poder e ordem da natura, Ás arvores, aos montes, Á rudeza das hervas e das fontes, Que conhecêrão logo a vista pura. Fiquei eu só tornado Quasi em hum rudo tronco d'admirado. Despois de ter perdido o sentimento, D'humano hum só desejo me ficava, Em que toda a razão se convertia. Mas não sei quem no peito m'affirmava Que por tão alto e doce pensamento, Com razão, a razão se me perdia. Assi que quando mais perdida a via, Na sua mesma perda se ganhava. Em doce paz estava Com seu contrário proprio em hum sogeito. Oh caso estranho e novo! Por alta e grande certamente approvo{325} A causa, donde vem tamanho effeito, Que faz n'hum coração Que hum desejo, sem ser, seja razão. Despois d'entregue ja ao meu desejo, Ou quasi nelle todo convertido, Solitario, sylvestre e inhumano, Tão contente fiquei de ser perdido, Que me parece tudo quanto vejo Escusado, senão meu proprio dano. Bebendo este suave e doce engano, A trôco dos sentidos que perdia, Vi que Amor m'esculpia Dentro n'alma a figura illustre e bella, A gravidade, o siso, A mansidão, a graça, o doce riso. E porque não cabia dentro nella De bens tamanhos tanto, Sahe por a boca convertido em canto. Canção, se te não crerem Daquelle claro gesto quanto dizes, Por o que se lhe esconde; Os sentidos humanos (lhe responde) Não podem dos divinos ser juizes, Senão hum pensamento, Que a falta suppra a fé do entendimento.{326}

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings