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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

ODE IX.

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Fogem as neves frias Dos altos montes quando reverdecem As árvores sombrias; As verdes hervas crecem, E o prado ameno de mil côres tecem.{381} Zephyro brando espíra; Suas settas Amor afia agora; Progne triste suspira, E Philomela chora: O ceo da fresca terra se namora. Ja a linda Cytherêa Vem, do côro das Nymphas rodeada; A branca Pasitêa Despida e delicada, Com as duas irmãas acompanhada. Em quanto as officinas Dos Cyclopas Vulcano está queimando, Vão colhendo boninas As Nymphas, e cantando, A terra co'o ligeiro pé tocando. Desce do aspero monte Diana, ja cansada da espessura, Buscando a clara fonte, Onde por sorte dura Perdeo Actêo a natural figura. Assi se vai passando A verde Primavera e o sêcco Estio; O Outono vem entrando; E logo o Inverno frio, Que tambem passará por certo fio. Ir-se-ha embranquecendo Com a frigida neve o sêcco monte; E Jupiter chovendo Turbará a clara fonte: Temerá o marinheiro a Orionte. Porque, emfim, tudo passa;{382} Não sabe o Tempo ter firmeza em nada; E a nossa vida escassa Foge tão apressada, Que quando se começa he acabada. Que se fez dos Troianos Heitor temido, Enêas piedoso? Consumírão-te os anos, Ó Cresso tão famoso, Sem te valer teu ouro precioso. Todo o contentamento Crias qu'estava em ter thesouro ufano! Oh falso pensamento! Que á custa de teu dano Do sabio Solon crêste o desengano. O bem que aqui se alcança, Não dura por passante, nem por forte: Que a bem-aventurança Duravel, de outra sorte Se ha de alcançar na vida para a morte. Porque, emfim, nada basta Contra o terrivel fim da noite eterna; Nem póde a deosa casta Tornar á luz superna Hippolyto da escura sombra averna. Nem Thesêo esforçado, Ou com manha, ou com fôrça valerosa, Livrar póde o ousado Perithoo da espantosa Prisão Lethêa escura e tenebrosa.{383}

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