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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

ODE V.

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Nunca manhãa suave Estendendo seus raios por o mundo, Despois de noite grave, Tempestuosa, negra, em mar profundo Alegrou tanto nao, que ja no fundo Se vio em mares grossos, Como a luz clara a mi dos olhos vossos. Aquella formosura, Que só no virar delles resplandece; E com que a sombra escura Clara se faz, e o campo reverdece; Quando o meu pensamento se entristece, Ella e sua viveza Me desfazem a nuvem da tristeza. O meu peito, onde estais, He para tanto bem pequeno vaso;{372} Quando acaso virais Os olhos, que de mi não fazem caso, Todo, gentil Senhora, então me abraso Na luz que me consume, Bem como a borboleta faz no lume. Se mil almas tivera Que a tão formosos olhos entregára, Todas quantas pudera Por as pestanas delles pendurára; E, enlevadas na vista pura e clara, (Postoque disso indinas) Se andárão sempre vendo nas meninas. E vós, que descuidada Agora vivereis de taes querellas, D'almas minhas cercada, Não pudesseis tirar os olhos dellas; Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas A dor que lhe mostrassem, Tantas huma alma só não abrandassem. Mas, pois o peito ardente Huma só póde ter, formosa Dama, Basta que esta somente, Como se fossem mil e mil, vos ama, Para que a dor de sua ardente flama Comvosco tanto possa, Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.{373}

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