CANÇÃO IX.
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Tomei a triste pena Ja de desesperado De vos lembrar as muitas que padeço; Vendo que me condena A ficar eu culpado O mal que me tratais, e o que mereço. Confesso que conheço Qu'em parte a causa dei Ao mal em que me vejo, Pois sempre o meu desejo A tão largas promessas entreguei; Mas não tive suspeita Que seguisseis tenção tão imperfeita. S'em vosso esquecimento Tão condemnado estou, Como os sinaes demostrão, que mostrais; Neste vivo tormento, Lembranças mais não dou Que as que desta razão tomar queirais: Olhae que me tratais Assi de dia em dia Com vossas esquivanças; E as vossas esperanças, De que vãamente ja m'enriquecia, Renovão a memoria; Pois com a ter de vós só tenho gloria. E s'isto conhecesseis{327} Ser verdade mais pura Do que d'Arabia o ouro reluzente; Inda que não quizesseis, Essa condição dura Em branda se mudára facilmente. Eu, vendo-me innocente, Senhora neste caso, Bem no arbitrio o puzera De quem sentença dera, Com que o que he justo se mostrasse raso; Se, emfim, não receára Que a vós por mi, e a mi por vós matára. Em vós escrita vi Vossa grande dureza, E n'alma escrita está, que de vós vive: Não que acabasse alli Sua grande firmeza O triste desengano qu'então tive; Porque antes que me prive A dor de meus sentidos, Ao penoso tormento Acode o entendimento Com dous fortes soldados guarnecidos De rica pedraria, Que ficão sendo minha luz e guia. Destes acompanhado Estou pôsto sem medo A tudo o que o fatal destino ordene: Póde ser que cansado, Ou seja tarde, ou cedo, Com pena de penar-me, me despene.{328} E quando me condene (Qu'he o que mais espero) Inda a penas maiores; Perdidos os temores, Por mais que venhão, não direi, não quero. Estou, emfim, tão forte, Que não pode mudar-me a propria morte. Canção, se ja não queres Crer tanta crueldade, Lá vae onde verás minha verdade.