ODE IV.
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Formosa fera humana, Em cujo coração soberbo e rudo A fôrça soberana Do vingativo Amor, que vence tudo, As pontas amoladas De quantas settas tinha t~ee quebradas: Amada Circe minha,{369} Postoque minha não, com tudo amada; A quem hum bem que tinha Da doce liberdade desejada, Pouco a pouco entreguei, E se mais tenho, mais entregarei; Pois natureza irosa Da razão te deo partes tão contrárias, Que sendo tão formosa, Folgues de te queimar em flammas várias, Sem arder em nenh~ua Mais qu'em quanto allumia o mundo a l~ua; Pois triumphando vás Com diversos despojos de perdidos, Que tu privando estás De razão, de juizo e de sentidos, E quasi a todos dando Aquelle bem que a todos vás negando; Pois tanto te contenta Ver o nocturno moço, em ferro envolto, Debaixo da tormenta De Jupiter em ágoa e vento sôlto, Á porta, que impedido Lhe t~ee seu bem, de mágoa adormecido; Porque não tens receio Que tantas insolencias e esquivanças A deosa, que põe freio A soberbas e doudas esperanças, Castigue com rigor, E contra ti se accenda o fero Amor? Ólha a formosa Flora; De despojos de mil suspiros rica,{370} Por o Capitão chora, Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica, E foi sublime tanto, Que altares lhe deo Roma e nome santo. Ólha em Lesbos aquella No seu salteiro insigne conhecida; Dos muitos que por ella Se perdêrão, perdeo a chara vida Na rocha que se infama Com ser remedio extremo de quem ama. Por o moço escolhido, Onde mais se mostrárão as tres Graças; Que Venus escondido Para si teve hum tempo entre as alfaças, Pagou co'a morte fria A má vida que a muitos ja daria. E, vendo-se deixada Daquelle por quem tantos ja deixára, Se foi, desesperada, Precipitar da infame rocha chara: Que o mal de mal querida Sabe que vida lhe he perder a vida. Tomae-me, bravos mares; Vós me tomae, pois outrem me deixou. Disse: e dos altos ares Pendendo, com furor s'arremessou. Acude tu, suave, Acude, poderosa e divina ave. Toma-a nas azas tuas, Menino pio, illesa e sem perigo, Antes que nestas cruas{371} Ágoas cahindo apague o fogo antigo. He digno amor tamanho De viver, e ser tido por estranho. Não: qu'he razão que seja Para as lobas isentas, que amor vendem, Exemplo onde se veja Que tambem ficão presas as que prendem. Assi o deo por sentença Nemesis, que Amor quiz que tudo vença.