ODE VI.
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Póde hum desejo immenso Arder no peito tanto, Que á branda e á viva alma o fogo intenso Lhe gaste as nodoas do terreno manto; E purifique em tanta alteza o esprito Com olhos immortais, Que faz que leia mais do que vê'scrito. Que a flamma, que se accende Alto, tanto allumia, Que se o nobre desejo ao bem s'estende Que nunca vio, o sente claro dia; E lá vê do que busca o natural, A graça, a viva côr, N'outra especie melhor que a corporal. Pois vós, ó claro exemplo De viva formosura, Que de tão longe cá noto e contemplo N'alma, que este desejo sobe e apura; Não creais que não vejo aquella imagem Que as gentes nunca vem, Se de humanos não tem muita vantagem. Que se os olhos ausentes Não vem a compassada Proporção, que das côres excellentes De pureza e vergonha he variada; Da qual a Poesia, que cantou{374} Atéqui só pinturas Com mortaes formosuras igualou; Se não vem os cabellos Que o vulgo chama de ouro; E se não vem os claros olhos bellos, De quem cantão que são de sol thesouro; E se não vem do rosto as excellencias, A quem dirão que deve Rosa, e crystal, e neve as apparencias; Vem logo a graça pura, A luz alta e severa, Que he raio da divina formosura, Que n'alma imprime e fóra reverbera; Assi como crystal do sol ferido, Que por fóra derrama A recebida flamma esclarecido. E vem a gravidade, Com a viva alegria Que misturada t~ee de qualidade, Que huma da outra nunca se desvia; Nem deixa de ser huma receada Por leda e por suave, Nem outra, por ser grave, muito amada. E vem do honesto siso Os altos resplandores Temperados co'o doce e ledo riso, A cujo abrir abrem no campo as flores; As palavras discretas e suaves, Das quaes o movimento Fara deter o vento e as altas aves: Dos olhos o virar{375} Que torna tudo raso, Do qual não sabe o engenho divisar Se foi por artificio, ou feito acaso; Da presença os meneios e a postura, O andar e o mover-se, Donde póde aprender-se formosura. Aquelle não sei que, Que aspira não sei como, Qu'invisivel sahindo, a vista o vê, Mas para o comprender não lhe acha tomo; E que toda a Toscana Poesia, Que mais Phebo restaura, Em Beatriz, nem Laura nunca via: Em vós a nossa idade, Senhora, o póde ver, S'engenho, se sciencia e habilidade, Iguaes á vossa formosura der, Qual a vi no meu longo apartamento, Qual em ausencia a vejo. Taes azas dá o desejo ao pensamento! Pois se o desejo afina Hum'alma accesa tanto, Que por vós use as partes de divina; Por vós levantarei não visto canto, Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante: Que o nosso claro Tejo, Envolto hum pouco o vejo e dissonante. O campo não o esmaltão Flores, mas só abrolhos O fazem feio; e cuido que lhe faltão Ouvidos para mi, para vós olhos.{376} Mas faça o que quizer o vil costume; Que o sol, qu'em vós está, Na escuridão dara mais claro lume.