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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

ODE III.

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Se de meu pensamento Tanta razão tivera d'alegrar-me, Quanto de meu tormento A tenho de queixar-me, Puderas, triste lyra, consolar-me. E minha voz cansada, Qu'em outro tempo foi alegre e pura, Não fôra assi tornada, Com tanta desventura, Tão rouca, tão pezada, nem tão dura.{366} A ser como sohia, Pudera levantar vossos louvores; Vós, minha Hierarchia, Ouvíreis meus amores, Qu'exemplo são ao mundo ja de dores. Alegres meus cuidados, Contentes dias, horas e momentos, Oh quanto bem lembrados Sois de meus pensamentos, Reinando agora em mi duros tormentos! Ai gostos fugitivos! Ai gloria ja acabada e consumida! Ai males tão esquivos! Qual me deixais a vida! Quão cheia de pezar! quão destruida! Mas como não he morta Ja esta vida? como tanto dura? Como não abre a porta A tanta desventura, Qu'em vão com seu poder o tempo cura? Mas para padecê-la S'esforça o meu sogeito e convalece; Que só para dizê-la, A fôrça me fallece, E de todo me cansa e m'enfraquece. Oh bem affortunado Tu, que alcançaste com lyra toante, Orphêo, ser escutado Do fero Rhadamante, E co'os teus olhos ver a doce amante! As infernaes figuras{367} Moveste com teu canto docemente; As tres Furias escuras, Implacaveis á gente, Applacadas se vírão derepente. Ficou como pasmado Todo o Estygio Reino co'o teu canto; E quasi descansado De seu eterno pranto, Cessou de alçar Sisypho o grave canto. A ordem se mudava Das penas que regendo está Plutão; Em descanso se achava A roda de Ixião, E em glória quantas penas alli são. De todo ja admirada A Rainha infernal e commovida, Te deo a desejada Esposa, que perdida De tantos dias ja tivera a vida. Pois minha desventura, Como ja não abranda hum'alma humana, Qu'he contra mi mais dura, E inda mais deshumana, Que o furor de Callirrhoë profana? Oh crua, esquiva e fera, Duro peito, cruel e empedernido, D'alguma tigre fera Lá na Hircania nascido, Ou d'entre as duras rochas produzido! Mas que digo, coitado! E de quem fio em vão minhas querellas?{368} Só vós, ó do salgado, Humido Reino bellas E claras Nymphas, condoei-vos dellas. E d'ouro guarnecidas Vossas louras cabeças levantando Sôbre as ondas erguidas, As tranças gottejando, Sahindo todas, vinde a ver qual ando. Sahi em companhia, E cantando e colhendo as lindas flores; Vereis minha agonia, Ouvireis meus amores, E sentireis meus prantos, meus clamores. Vereis o mais perdido E mais infeliz corpo qu'he gerado; Qu'está ja convertido Em chôro, e neste estado Somente vive nelle o seu cuidado.

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